Vidro (Glass, 2019) – Crítica
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Vidro.  M. Night Shyamalan conclui a trilogia formada por Corpo Fechado, Fragmentado e por este filme de forma digna, mas com gosto acridoce. Depois do sucesso de Fragmentado e da surpresa [minor spoiler] de que o filme fazia parte do mesmo universo de Corpo Fechado, Shyamalan corria o risco de, mais uma vez, deixar que o sucesso lhe subisse à cabeça e acabar desastrando uma narrativa interessante e poderosa. Não nos esqueçamos que o diretor havia caído em desgraça após alguns filmes catastróficos, como o horroroso Fim dos Tempos, o medíocre O Último Mestre do Ar e o fraco Depois da Terra. Somente com o bom A Visita, de 2015, o diretor recuperou certa credibilidade (inclusive coma  indicação para o prêmio de redenção do Framboesa de Ouro 2016).  Em 2017, com Fragmentado, Shyamalan voltou a ter boa recepção da crítica e do público, o que resultou na quase imediata sequência do projeto, Vidro. Como resultado, o novo filme da saga de quadrinhos está com apenas 36% no Rotten Tomatoes. É justo? Não é, e vamos discutir o porquê.

Confira a crítica do Razão de Aspecto para Fragmentado

Tecnicamente, Vidro tem qualidade, mas o grande destaque continua sendo a atuação de James McAvoy, cujas variação e transição entre personagens é impressionante, por demandam mudanças rápidas de imposição física, para além da voz, da expressão e da personalidade. O restante do elenco está funcional, com algum destaque para Sara Paulson e Samuel L. Jackson, enquanto Bruce Willis acaba tendo pouco tempo de tela e menor aproveitamento do potencial do personagem.

A cinematografia. por sua vez, tem seus méritos e deméritos. Se, no primeiro e no terceiro atos, temos enquadramentos inteligentes, virando de panorâmicas, planos de desconforto e câmeras subjetivas, no segundo ato, há um excesso primeiros planos, sempre acompanhados de um longo diálogo explicativo.

Vidro tem uma narrativa oscilante. O primeiro ato, que se estende até a captura de David Dunn e da Besta [está no trailer, não é spoiler! :D], é ágil, visualmente instigante e envolvente.  O segundo ato, quando entram  Sara Paulson, como a psiquiatra que deseja curá-los do delírio de superpoderes, e Samuel L. Jackson, nosso Mr. Glass, tinha tudo para ser o mais interessante, mas acaba se estendendo demais, dando pouca ênfase ao personagem de Bruce Willis e, de certa forma, deixando o filme arrastado. Felizmente, no terceiro ato, nos confrontos finais, Vidro recupera a energia não somente devido ao duelo final, mas, principalmente, pelos já conhecidos plot twists dos filmes do diretor, que variam da genialidade de O Sexto Sentido ao ridículo de Fim dos Tempos. Neste ponto, temos a grande injustiça da crítica com Vidro.

Shyamalan optou por levar ao extremo a metalinguagem dos quadrinhos, ao estabelecer discutir os arquétipos típicos dessas narrativas, a estrutura de suas histórias e a forma como elas se relacionam com o mundo real. Para isso, acaba se utilizando de recursos que, para o espectador desavisado ou para o intelectual que menospreza quadrinhos como manifestação cultural, podem parecer vazios, mas que, na verdade, nada mais são do que o clímax de universo que se construiu ao longo de quase vinte anos.

Para além do claro problema de montagem no segundo ato, o ponto mais fraco de Vidro está no roteiro, não porque não faça sentido, mas porque é excessivamente expositivo – certamente com a intenção de contextualizar o espectador desavisado -, de forma nada sutil. Não se trata de nada que o diretor já não tenha feito, as explicações no final sempre fizeram parte dos seus melhores filmes (O Sexto Sentido, Corpo Fechado, Sinais e A Vila), para que o espectador não tenha espaço para grandes interpretações. A resposta está lá, para o bem e para o mal.

Vidro, portanto, é um bom filme para os fãs de quadrinhos. Embora seja um pouco inferior a Fragmentado, não merece o massacre que está recebendo da crítica dos Estados Unidos. Não se trata da grande volta por cima de Shyamalan, mas está muito longe de ser uma de suas obras mais fracas.

 

Not rated yet!

Vidro

Não podes conter o que tu és

20192 h 09 min
Overview

Após a conclusão de Fragmentado (2017), Kevin Crumb (James McAvoy), o homem com 23 personalidades diferentes, passa a ser perseguido por David Dunn (Bruce Willis), o herói de Corpo Fechado (2000). O jogo do gato e do rato entre o homem inquebrável e a Fera é influenciado pela presença de Elijah Price (Samuel L. Jackson), que manipula os encontros entre eles e mantém segredos sobre os dois.

Metadata
Writer M. Night Shyamalan
Author
Runtime 2 h 09 min
Release Date 16 janeiro 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

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