Uma luz sobre “O Farol” – entenda o novo filmaço de Robert Eggers!

Como comentamos em nossa crítica sem spoilers sobre O Farol, novo filme do diretor Robbert Eggers, a obra é cheia de referências, alusões e alegorias, o que pode tornar a compreensão do espectador médio um pouco mais difícil. Por isso, o Razão de Aspecto resolveu orientar os marujos de primeira viagem na experiência intensa mostrada na tela.

O texto a seguir está repleto de SPOILERS. Se você já assistiu ao filme (ou não se importa em saber detalhes antes de fazê-lo), aqui se iluminam algumas luzer sobre esse excelente filme de terror psicológico:

<>  Na vida real: O Farol é inspirado (ainda que não baseado) em uma história real acontecida no País de Gales, em 1801, conhecida como “The Smalls Lighthouse Tragedy”. Dois responsáveis por um farol, ambos chamados Thomas, ficaram isolados durante mais tempo do que o planejado por conta de uma tempestade, em uma ilha a 20 milhas a oeste da costa. Um deles, Thomas Griffith, faleceu. Seu colega, Thomas Howell, preocupou-se em ser acusado de assassinato, pois sabia-se que ambos viviam às turras. Ele manteve o corpo de Griffith até que este começou a se decompor. Howell improvisou um caixão para seu companheiro farol e o prendeu em grades do lado de fora. Com o mau tempo e ventos fortíssimos, o caixão se rompeu, mas o cadáver de Griffith permaneceu acorrentado. Conta-se que, a depender do ângulo do vento, Howell tinha a impressão de que o corpo do defunto apontava para dele. Foram vários meses até que Howell pudesse ser resgatado. Seus amigos e familiares relatam que a situação extrema o havia deixado enlouquecido e completamente mudado física e mentalmente. A partir desse caso, a política de ocupação dos faróis foi alterada, de forma que a equipe passou a ser composta por três, e não por duas pessoas, para evitar esse tipo de situação. A história foi adaptada pelo filme The Lighthouse, de 2016, dirigido por Chris Crow, e pela ópera For those in peril, de Francis Lynch.

<> Herman Melville e H.P. Lovecraft O Farol bebe enormes goles de rum da literatura de Herman Melville, autor de Moby Dick, e dos contos de terror fantástico de H.P Lovecraft. No primeiro caso, há todo um linguajar dos marujos que é declaradamente retirado dos escritos de Melville. Além disso, em muitos momentos a relação de Wake com o mar lembra a do Capitão Ahab, protagonista do livro famoso. No caso de Lovecraft, o filme mostra o lento declínio da sanidade dos protagonistas. Não há redenção possível, apenas morte e/ou loucura, que chega ao ápice ante à exposição ao conhecimento secreto/proibido, o que acontece com Wislow quando consegue finalmente vislumbrar a luz do farol de perto. Temos, além disso, a referência a criaturas terríveis do mar e a utilização da imagética dos tentáculos, ambas recorrentes nos contos dos mitos lovecraftianos.

<>  Sereias e sereias – Em português, tendemos a chamar de “sereias” duas entidades diferentes da mitologia: as sirens e as mermaids. Eram as sirens cujo canto, na mitologia, hipnotizava os marinheiros e os faziam perder o controle de suas embarcações. Eram representadas como mulheres-pássaro, aladas. Na Odisseia,  protagonista foi ensinado por Circe a ordenar à sua tripulação que tapasse os ouvidos na busca pelo profeta Tirésias, e assim, escapasse do encanto das sirens. As sereias/mermaids são as criaturas meio mulher, meio peixe, que atraem pela beleza e podem levar o marujo a uma paixão avassaladora (fazendo que muitos morram afogados). Elas aparecem no folclore de diferentes culturas ao redor do mundo, não apenas na mitologia grega. Nas lendas irlandesas, por exemplo, recebem o nome de merrows. As duas figuras – sirens e mermaids – se embaralharam por volta da idade média, e hoje pensamos no amálgama do canto das sirens com o visual das mermaids. De toda forma, são elementos femininos que aparecem nas histórias como fonte de distração e perigo para homens que se aventuram nas águas do mar.

  

<> Éden, Ícaro e A lenda de Prometeu – No Gênesis da Bíblia, Adão e Eva são expulsos dos paraíso após desrespeitarem a proibição de seu criador e provarem da árvore do conhecimento do bem e do mal. Na mitologia grega, Dédalos cria asas para que ele e seu filho, Ícaro, escapem voando da ilha de Creta. A única orientação para que o plano desse certo era a de que não deveriam aproximar-se do sol, para que o calor não derretesse suas asas. Adivinha o que o rapaz fez? Em outra passagem da mitologia dos helênicos, Orfeu perdeu a chance de ter de volta sua Eurídice porque não seguiu as regras do que fora acordado com Hades.

Histórias de jovens que desobedecem às regras em sua jornada por aquilo que desejam – seja conhecimento, liberdade ou @ [email protected] abundam nas lendas e folclore de muitos países. O Farol revisita esse mito. Mas aqui a proximidade mais explícita é com a história de Prometeu, titã da mitologia grega que desafiou os deuses e roubou “o fogo” para dá-lo aos mortais. O fogo, nesse caso, simboliza o conhecimento, a civilização. Ainda sobra aqui o fato de que algumas fontes o descrevem como filho de Clímene, uma das ninfas filhas de Oceano, deus dos… bom, este você sabe. A punição de Zeus a Prometeu pela ousadia do roubo foi o de amarrá-lo a uma pedra por toda a eternidade, enquanto uma grande águia viria devorar seu fígado, que se regeneraria no dia seguinte, provocando sofrimento eterno. Essa é a imagética que inspira a cena do epílogo de O Farol, com adaptações na espécie de pássaro e na região corporal devorada.

<> Mas o que havia dentro do farol?  Do ponto de vista de uma narrativa alegórica, não importa saber o que exatamente provocava um misto de prazer e devoção em Wake, e que levaria Ephraim a seu final trágico. A luz do farol representa aquilo que é proibido, cobiçado, e que pode levar deuses e homens ao limite da sanidade e ao extremo de seus comportamentos. Perceba, inclusive, que o nome usado pelo personagem de William Dafoe significa “desperto”, em inglês. Ele já está acordado, já chegou a um estágio em que o acesso à luz é possível, ao contrário de seu companheiro, que enlouquece e é punido quando ultrapassa os limites impostos.

<> Não entendi nada!   O filme transcorre no espaço e tempo da mitologia. Da própria opção pelo visual de filme “antigo”, até a escolha por um espaço cênico distante, isolado, sem precisão de contornos, serve para desconectar a que é visto na tela de um realismo cartesiano. Para borrar ainda mais as percepções, o roteiro usa o isolamento; a maciça presença sonora os elementos da natureza e do maquinário do farol; a escassez de alimento; e o consumo exacerbado dos personagens para subverter as noções de passagem das horas e dias, além de inserir visões e sonhos em suas percepções. A ideia desse ambiente não é a de que o espectador entenda com exatidão e descubra sentidos racionais em casa uma das passagens, mas que seja tomado, até certa medida, pela mesma confusão mental dos personagens – o que significa que se você saiu meio confuso da sessão, o filme conseguiu seu intento.

Por detrás dessa identidade falsa premissa algo enlouquecedora, entretanto, O Farol está bem longe (ahá!) da porralouquice sem sentido. São estabelecidos na história diferentes embates, que, não por acaso, remetem constantemente à figura do falo. Há o homem jovem versus o velho; o conhecimento teórico (Wislow é um leitor constante) versus o conhecimento prático (da experiência do velho marujo); o ceticismo versus a crença nas lendas; e há até um embate entre Homem versus Divindade (não por acaso a caracterização física do rosto, barba e maquiagem de Dafoe lembra a de um Poseidon, deus dos mares e oceanos) – embate esse que tem como um dos sintomas o exercício desmedido da autoridade por parte de Wake – afinal, o trabalho braçal é apenas para os mortais, que não devem questionar ordens.

O caráter sobre-humano de Wake ainda aventado em outros momentos, como, por exemplo, durante a briga com Wislow durante a qual o velho se transforma é vista como uma criatura meio humana, meio-polvo. A referência é direta ao deus Proteus, filho de Poseidon, e que tinha o poder de mudar de aparência. Isso não significa que necessariamente Wake fosse um deus – uma vez que tudo poderia se tratar de um delírio de Wislow -, mas certamente mostra que Robert Eggers fez seu dever de casa em termos de estudo de referências ao mar.

Desobedecer, por outro lado, parece ser parte a alma humana, e Wislow não parece muito diferente disso. Ademais do seu passado suspeito, que já aponta uma tendência, ele segue pronto para quebrar a ordem: mata a andorinha, ignorando o conselho de Wake; decide começar a beber, contrariando uma regra que ele mesmo se impusera; ultrapassa mais uma vez o limite ao matar o marinheiro mais velho; e finalmente toma o segredo mais guardado do o companheiro: a luz do farol.

O Farol é menos um filme de terror e mais uma mistura de estudo de personagens, provocação sensorial ao espectador e uma tragédia grega recontada pelo olhar fragmentador e fragmentado do século XXI, e merece ser tratado como clássico instantâneo. Resta aguardar ansioso pelo próximo navio filme do já impressionante Robert Eggers.

 

por D.G.Ducci

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The Lighthouse

20191 h 50 min
Overview

Dois homens vão tomar conta de um farol em uma ilha remota e misteriosa da Nova Inglaterra, no fim do século XIX, e vivem uma experiência hipnótica e alucinatória. Conheça aqui vários elementos do intrigante filme.

Metadata
Director Robert Eggers
Writer Robert Eggers, Max Eggers
Author
Runtime 1 h 50 min
Release Date 18 outubro 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

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