Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017) – Indicado a 6 Oscar!

Aos jovens 47 anos de idade, o diretor californiano Paul Thomas Anderson já é considerado, sem possibilidade de questionamentos, como um dos melhores realizadores do cinema atual. Foram até agora oito longas de ficção, além de um documentário (Junun, 2015) sobre músicos do Rajastão indiano, diversos curtas, uma peça de teatro e videoclipes para nomes da música como Radiohead e Fiona Apple. Trata-se de um daqueles diretores que, ao menos no cinema, ainda não entregou qualquer filme ruim – pelo contrário, já são oito indicações para o Oscar entre Direção (duas vezes), Roteiro Original, Roteiro Adaptado (das vezes cada) e Filme (com Sangue Negro, em 2007, e com o recente Trama Fantasma.

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Mas é mais fácil perceber a qualidade do cinema de Paul Thomas Anderson ao assistir seus filmes do que explicar pontualmente quais elementos específicos o tornam diferenciado. Talvez justamente pelo fato de que suas obras trazem uma consistência de qualidade em todos os quesitos analisados. São roteiros densos e não formulaicos, com personagens bem construídos (e sempre interpretados de forma espetacular pelo elenco escolhido, o que mostra a qualidade de PTA como diretor de atores).  A condução da câmera, poucas vezes estática, mas sem a necessidade de apelar para o frenesi; a construção dos dramas e tensões com sutileza, mas sem perder uma grama da intensidade, que levarão a desfechos nem sempre esperados; as parcerias estabelecidas para as trilhas sonoras, sempre precisas e incômodas (no melhor dos sentidos!).

Em Trama Fantasma não é diferente. Temos aqui a história, escrita pelo próprio PTA, de  Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), costureiro renomado e excêntrico na Londres da década de 1950, que se envolve com Alma (Vicky Krieps), garçonete interiorana que é tragada para o mundo da alta-costura, com suas idiossincrasias. Completando o triângulo, temos Cyril (Lesley Manville), irmã de Woodcock, que administra os negócios da família. Se o costureiro é o gênio da criação, são dela os pés no chão que tomam conta das pequenezas da vida, como contato com clientes ou ex-musas agora desinteressantes.

É sobre esses três personagens, em especial sobre a relação de Alma e Woodcock, que se concentra Trama Fantasma. É bom que se esclareça que a tradução do título para o português, embora correta, pode enganar a plateia mais desatenta: não há qualquer elemento sobrenatural no filme, a menos que consideremos a imensa qualidade da realização da obra como algo sobre-humano. Há romance, drama de época e flerte com suspense, mas, na verdade, Trama Fantasma, embora conduza a um desfecho doentiamente interessante, é o tipo de filme em que o enredo é menos importante do que a construção, a interpretação e a relação entre seus personagens.

Acompanhamos as incontáveis facetas de um relacionamento, que passam pela conexão musa-criador, pelos atritos de um casal – agravados pelo egocentrismo e excesso de manias de Woodcock -, por aproximações e afastamentos, pelos ciúmes e pelas estratégias, nem sempre as mais nobres, para superar os obstáculos e ocupar os locais de afeto e importância desejados.  A construção dos personagens é tão competente que, em vários momentos, o espectador se pega pensando se eles existiram na vida real.

O trio principal de atores consegue transmitir com maestria essa multiplicidade de camadas exigidas pelo roteiro. Não é novidade a capacidade de Daniel Day-Lewis de incorporar detalhes a suas composições – e aqui, esses detalhes, como a forma de se sentar ou de apoiar um livro, são tão fundamentais quanto as reações em cenas mais intensas. Em Trama Fantasma, as sutilezas falam alto e se acumulam, criando densidade. É de se lamentar  – e torcer para que ele mude de ideia – o anúncio do ator londrino de encerrar sua carreira com este filme. Lesley Manville mostra uma intensidade calma – estamos na Inglaterra da década de 1950, afinal! – mas a precisão de seus gestos e comentários fazem com que todas as suas participações no filme sejam marcantes. Mas o nome do filme – curiosamente não lembrado pela Academia, ao contrário do de seus dois colegas de elenco – é o da atriz luxemburguesa Vicky Krieps. Assim como sua personagem não aceita ser apenas dragada passivamente para o mundo da Woodcock, Krieps não se contenta em apenas contracenar com Day-Lewis. É completamente verossímil a fascinação que sua personagem, Alma, exerce no costureiro, como modelo e como mulher. Seu arco dramático passa por uma submissão (às vezes real, às vezes simulada), por perseverança e frustração, por afeto e rendição.

Capaz de filmar com a mesma qualidade obras com contextos tão diferentes como, por exemplo, Boogie Nights (1997), Magnólia (1999) e Sangue Negro (2007), PTA mergulha desta vez no requinte da alta-costura londrina como uma elegância total, lembrando, em vários momentos, um de seus diretores favoritos, Robert Altman. Nesse sentido, são fundamentais tanto a parte visual do filme (figurino, fotografia e desenho de produção) quanto a trilha sonora (quinta parceria entre PTA e Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Repleta de pianos e acordes clássicos, a trilha conduz constantemente o espectador para dentro do filme.

PTA e sua Trama Fantasma só pecam ligeiramente no foco e no ritmo em alguns momentos. Tal como em Woodcock, a fascinação provocada pela criação pode tirar o criador dos fio perfeito. De todo modo, trata-se de um dos filmes mais robustos de 2017/8, possivelmente merecedor de mais do que as seis indicações recebidas.

Confira as críticas do Razão de Aspecto aos demais indicados a Melhor Filme:

Corra!

O Destino de uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

Lady Bird: É Hora de Voar

Me Chame Pelo Seu Nome

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Trama Fantasma

20172 h 10 min
Overview

Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que, constantemente, entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante.

Metadata
Writer Paul Thomas Anderson
Author
Runtime 2 h 10 min
Release Date 25 dezembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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