Netflixing: Terra à deriva (Liu lang di qiu, 2019)

A China é atualmente o país mais populoso a segunda maior economia do mundo. Sua força geopolítica é crescente, e seria ingenuidade não prestar grande atenção nos movimentos do país na arena internacional. Por sua, vez, a China também se preocupa com a difusão de sua cultura. Não basta seu já enorme mercado interno: pouco a pouco, a China tem tentado atrair mais parcerias e investimentos para seu mercado audiovisual.

O primeiro grande filme hollywoodiano a se inserir no mercado chinês foi O Fugitivo, de 1994, com Harrison Ford, e, desde então, os produtores estadunidenses sabem bem a pequena mina de ouro presente na China. A Marvel, que não é boba, já planeja um filme de Shang Chi, o Mestre do Kung Fu, certa da identificação secundária que o público chinês terá com o personagem.

Por sua vez, atores chineses, como Michelle Yeoh (de O tigre e o dragão e A espada do destino) e Donnie Yen (da série de filmes Yp Man) começam a marcar presença em grandes franquias do imaginário ocidental – respectivamente, Star Trek e Star Wars, superando o nicho específico das artes marciais, já visitado por Jack Chan e Jet Li. Além disso, começam a aparecer coproduções em que atores de Hollywood estrelam filmes em locações que com recursos chineses. Exemplo são A Grande Muralha, com Matt Damon, e Dragon Blade, com John Cusack e Adrien Brody.

O fato é que a China quer aparecer cada vez mais nas telonas e telinhas do mundo. Há uma porção de filmes chineses no Netflix, muitos deles com ares épicos, envolvendo elementos de folclore misturados com história, e quase sempre muito coloridos. Pronto para tentar expandir sua audiência e alçar voos mais altos (aê!), o cinema chinês lança este ano a produção Terra à Deriva. Trata-se do primeiro filme espacial de grande porte do cinema chinês, baseado no livro homônimo do escritor Liu Cixin. Em tempos de maxibilheterias sendo suplantadas, o filme chinês passou a marca de US$ 700 milhões, a segunda maior bilheteria de todos os tempos na China (atrás de O Lobo Guerreiro 2, de 2017).

Na história, o Sol está entrando em colapso e se expandindo. A única saída do planeta Terra é vagar pelo espaço até uma nova órbita em um sistema solar próximo. Movidos pela catástrofe iminente, os países da Terra se  unem em um governo central e constroem milhares de foguetes gigantes, que impulsionarão o planeta até seu novo destino. Além disso, uma estação espacial ligada à Terra é construída, para guiar a Terra e alertar sobre eventuais problemas encontrados no espaço. Como consequência das mudanças do clima e do impacto da movimentação do planeta, 10 mil cidades subterrâneas são criadas para acomodar cerca de metade da população humana. Apenas aqueles selecionados por sorteio podem ir para as cidades: aos outros, resta a extinção.

Para garantir que sua família seja uma das salvas, o astronauta Liu Peiqiang (Jing Wu, protagonista também dos filmes do Lobo Guerreiro) se voluntaria para trabalhar na estação espacial, deixando seu filho Liu Qi aos cuidados do avô. Dezessete anos se passam, e Peiqiang está próximo de retornar à Terra, quando, é claro, surgem problemas envolvendo a gravidade de Júpiter. Enquanto o astronauta luta pelo destino do planeta na estação, o filho, rancoroso pelo abandono e distância do pai – engaja-se meio que por acaso nos esforços de sobrevivência na superfície terrestre.

A partir dessa premissa, temos um filme parte ficção científica, parte filme catástrofe, visualmente esplendoroso (embora nem sempre os efeitos especiais sejam capazes de dar organicidade ao que se vê), mas que serve como cenário de um roteiro bastante cheio de problemas. Deixando de lado qualquer questionamento sobre a verossimilhança astrofísica do que acontece ao longo de pouco mais de duas horas, o blockbuster chinês padece dos piores defeitos de suas contrapartes norte-americanos. Há uma profusão de diálogos explicativos, um sentimentalismo dos mais cheios de sacarose e absurdos de roteiro em profusão.

E dá-lhe música dramática subindo nos momentos de despedida! E dá-lhe discurso de mais de um minuto de cada personagem prestes a se sacrificar pelo destino do planeta! E dá-lhe inteligência artificial parando para re-explicar o filme para o espectador! E esqueça as distâncias geográficas, porque quaisquer dez minutos são suficientes para se chegar em outro país (de caminhão!).

Junte-se a isso uma edição que muitas vezes não permite compreender totalmente o mis-en-scène. Quanto às interpretações, seria injusto julgá-las sem conhecer bem a língua falada ou o gestual da cultura chinesa. Mas a impressão geral é de um trabalho a maior parte do tempo apenas mediano, com escorregões caricaturais aqui e ali.

Ao final do filme, Rolland Emmerich (diretor de “pérolas” como 2012 e O dia depois de amanhã) fica parecendo Kubrick, por comparação… Quando um filme deixa o espectador com saudades sinceras de Armageddon, de Michael Bay, alguma coisa está genuinamente errada. Terra à Deriva talvez funcione para audiências mais jovens e/ou menos exigentes. No caminho de aumentar sua inserção cinematográfica pelo mundo, fica a esperança, entretanto, de que a China se espelhe em exemplos melhores.

 

PS: um artigo que inspirou a introdução deste texto e vai bem mais a fundo no cinema chinês contemporâneo pode ser lido no Cinema com Rapadura.

 

por D.G Ducci

 

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The Wandering Earth

20192 h 05 min
Overview

No ano 2500, a Terra passa por um período difícil de sobrevivência, enquanto o sol fica cada vez mais perto do desaparecimento completo. Para tentar salvar a raça humana, um destemido grupo de jovens enfrenta o desafio de restabelecer a ordem e embarcam numa viagem para fora do nosso sistema solar.

Metadata
Director Frant Gwo
Writer
Author
Runtime 2 h 05 min
Country  China
Release Date 5 fevereiro 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

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