Star Wars – Episódio IX: A Ascensão Skywalker (2019)

Esta crítica teve um prequel, importante para o entendimento dos argumentos aqui apresentados.

Você pode ler esse texto aqui.

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Chegada a hora de encerrar (será? – eu truco esse encerramento com Força!) a saga iniciada 42 anos antes, a dona Disney estava preocupada. O filme solo de Solo (2018) [ahá!] havia sido um fracasso relativo de bilheteria e de crítica, a ponto de enterrar, ao menos por enquanto, os filmes avulsos da galáxia muito, muito distante. Os episódios VII e VIII haviam sido um sucesso em termos de lucro, mas ambos haviam tomado pedradas – seja por serem fiéis demais ou de menos ao que já se apresentara anteriormente. Para agravar o desafio, a morte de Carrie Fischer impedia uma participação significativa da personagem Leia Organa no capítulo IX.

A solução foi apostar no retorno de J.J.Abrams, que, até então, estragara um pouco menos o brinquedo do que Johnson o fizera. E A Ascensão Skywalker transpira exatamente isso: uma espécie de retorno ao que parecia dar certo e gerar menos polêmica. Com o desafio de trabalhar com o cenário de terra  saga arrasada deixado pelo filme anterior, a solução encontrada foi apostar muito forte na nostalgia. E, com isso, vieram todas as coisas boas e todas as coisas ruins do filme. Assim como Os Últimos Jedi foi um exercício adolescente de recusar tudo o que papai-Abrams estipulara, ponto a ponto, o Episódio IX é uma espécie de bronca no menino peralta, que fez o que não deveria.

[O Razão fez duas críticas e uma Mesa Quadrada sobre Os Últimos Jedi: aqui, aqui e aqui.]

O roteiro de Ascensão… foi escrito por J.J.Adams em colaboração com Chris Terrio (que esteve envolvido com Batman vs Superman, Liga da Justiçasocorro! – e Argo ufa), e baseou-se em uma história na qual eles próprios, além de Colin Trevorrow – diretor que desistiu do projeto no pós-Johnson – e Derek Connelly puseram a mão. Dessa criança que ninguém queria equipe, pariu-se um filme com uma montagem atropelada, uma quantidade talvez exagerada de fan services, e um roteiro bem, mas beeeem simplório, como se os realizadores estivessem loucos para se livrarem do imbróglio em que se meteram. Para os fãs mais entendidos do universo expandido (hoje, “Legends”), há até uma piscadela readaptada para a Katana Fleet de Timothy Zahn.

Na história, o ex-Imperador Palpatine revela-se ainda vivo, e encontrá-lo torna-se obsessão de Kylo Ren. Para isso, o velho recurso de um McGuffin [objeto que motiva o andamento da trama] é utilizado: neste caso, os Wayfinders, objetos Sith que possibilitarão descobrir o paradeiro do poderoso Darth Sidious de outros tempos. Quantos aos heróis, Rey continua seu treinamento, desta vez guiada por Leia, enquanto Dameron e Finn estão às voltas com a existência de um traidor na Primeira Ordem, que dá informações valiosas à Resistência. A base da Resistência é atacada pela Primeira Ordem, e temos a premissa do filme.

Sentindo-se pressionado a fazer dois filmes em um só (refazer o VIII e encerrar a trilogia), Adams simplifica o quanto pode as soluções que levam até o terço final da obra: os desafios dos personagens são resolvidos com alguma facilidade, e as informações necessárias sempre estão ali do lado, ou trazidas prontas ex machina por algum dos personagens. Isso tem uma consequência interessante – o ritmo acelerado, praticamente ininterrupto, do filme – mas gera também falta de peso dramático, mesmo em cenas de impacto, como a morte de alguns personagens. Sem tempo, amigo, tem de passar para a próxima sequência.  Além disso, como já havia ocorrendo desde o começo da nova trilogia, a utilização da Força vira uma bagunça. Ela faz de tudo, jovem padawan: assa bolo, paga boleto, manda nude, facilita roteiro, é uma maravilha. E a ainda há espaço pra encaixar o imperdoável raio azul em direção ao céu, recurso que já virou piada devido ao excessivo uso em blockbusters de super-heróis e de ficção científica.

Além disso, temos mais um caso de desperdício de personagens potencialmente interessantes, como já havíamos visto acontecer com Darth Maul e Bobba Fett. Desta vez as vítimas principais são os Cavaleiros de Ren: apenas mencionados no Episódio VII e ignorados por Rian Johnson, eles finalmente aparecem em Ascensão, mas não é bom ter grandes expectativas. O mesmo serve: para o General Pryde de Richard E.Grant, que deixa uma enorme sensação de que seria muito mais interessante do que o Hux careteiro de  Domhnal Gleeson; para a Zorii Bliss de Keri Russell (esta ao menos aparece pouco, mas em bons momentos); e para o próprio General Lando Calrissian (Billy Dee Williams, de volta ao papel icônico), que, especialmente na ausência de Carrie Fischer, poderia ter sido bem mais aproveitado pela Rebelião Resistência.

Há inúmeras cenas grandiosas, principalmente no terço final da trama. E assim deveria ser mesmo, até por se tratar da conclusão de um épico.  Porém, mesmo essas cenas, embora belas, carecem de uma maior inspiração nas movimentações e dinâmicas do que acontece. Nisso, George Lucas, mesmo com todos os problemas que tinha como diretor, era mestre – basta lembrar a corrida de pods do Episódio I, a Batalha de Petranaki no Episódio II, o ataque à Estrela da Morte (o original, no episódio IV, e não seus derivados), entre outros. E há também as cenas meio birutas, como um ataque completamente despropositado (pela estratégia adotada) de um fighter à Rey (está em um dos trailers, não é spoiler).

Outro elemento que ficou abaixo do esperado, neste e nos outros filmes da trilogia, foi a trilha sonora.  John Williams, veterano compositor e gênio da raça, transpira talento, e sua experiência e segurança foram suficientes para fazer três trilhas boas para a nova trilogia. Mas faltou AQUELE tema, aquela composição que permanecerá na memória. Há o tema de Rey, bonitinho, assim como aquele dedicado à ilha de Ahch-To. As cinco notas que marcam as aparições da Primeira Ordem são uma boa assinatura, mas nada comparado aos espetaculares trabalhos anteriores na saga Star Wars, de onde surgiram, além do tema principal (o dos letreiros amarelos), o tema da Força, a Marcha Imperial, Duel of the Fates e Across the Stars (um tema de amor lindo para um romance canhestro no Episódio II).

Em um assunto delicado, a participação de Carrie Fischer como a Princesa Leia, em imagens resgatadas das sobras do Episódio VII, consegue ser razoavelmente digna e até mais dinâmica do que o esperado em termos de diálogo. No entanto, o material disponível limitou as escolhas de posicionamento de câmera e montagem, o que gerou um certo ar de repetitividade. Ao menos  – minor spoiler – há um breve flashback de Luke e Leia bem mais jovens que dá aquela pontinha de saudade no coração.

Dito assim, parece que o filme é bastante horroroso, o que não é verdade. Aquilo que A Ascensão Skywalker tem de falhas cinematográficas, ele consegue recuperar com um pouco da verdadeira alma de Star Wars, que seu predecessor não alcançou (ou preferiu desprezar). O primeiro grande acerto é manter o trio central junto, ou ao menos próximo, durante boa parte da história. Isso não só intensifica a dinâmica, como reforça o caráter aventureiro e o arco sobre companheirismo, sacrifício pela causa e amizade – algo muito caro ao trabalho original de George Lucas e que andava meio difuso. Dameron e Finn continuam sem um arco aparentemente claro na trilogia – mais uma vez por falta de planejamento dos produtores -, mas a química do trio funciona (repare na rápida troca de perguntas sobre profissões do passado dos três em uma das cenas).

O problema da Super Rey, que derrota a tudo e a todos sem fazer grandes esforços, é amenizado pelo tempo de treinamento subentendido, além de consequências potencialmente funestas em seu uso da Força, e em desafios que a levam ao limite. Adam Driver conclui o arco de seu Ben Solo/Kylo Ren mostrando ser, possivelmente, a melhor escolha – tanto de personagem quanto de ator – da nova trilogia. Ele de fato conseguiu transmitir, ao longo dos filmes, a evolução de um jovem inseguro e irritadiço, passando por um momento de grande ambição, até alcançar a posição de Líder Supremo (no big spoilers again, está nos letreiros do filme) após a morte de Snoke. Juntos e separados e shallow now, Rey e Ren são os elementos mais próximos de flertar com qualquer coisa parecida com arco dramático no filme,

O humor desta vez funciona e é encaixado organicamente. Em nenhum momento o filme para a narrativa para montar um esquete de humor, com foi visto em Os Últimos Jedi (exemplos?  “trote” de Dameron em Hux, roupa de Finn vazando, Chewie vegano, entre MUITOS possíveis). C-3P0 (interpretado novamente por Anthony Daniels, o único ator a participar dos nove filmes) volta aos velhos tempos de alívio cômico e o pequenino Babu Frick arranca gargalhadas com seus sons empolgados. Já o novo-droid-para-ser-fofo, D-O (cuja voz é feita por ninguém menos que o próprio J.J.Abrams) não emplaca tanto quanto BB8 o fizera.

E, claro, há o festival de fan services: pontas de antigos personagens (repare em quem opera os canhões da nave de Lando na batalha final), retornos inesperados, cenas que gostaríamos de ver desde a primeira trilogia e outras que não fazíamos a menos questão de testemunhar, mas estão lá no pacotão de agrados de J.J.Abrams aos fãs. Curiosamente, há uma importante cena, próxima do final do filme, em que valia a pena ter investido/insistido mais em participações/aparições especiais, que, se não fazem tanta falta per si, engrandeceriam enormemente o momento. Em compensação, a razão pela qual o filme se chama A Ascensão Skywalker (ou uma das duas razões possíveis, se pensarmos bem) é um dos poucos grandes e bons achados da trilogia. A sequência final é tocante por várias razões, pelas presenças, pela frase final e pelas rimas visuais escolhidas.

Assim como os dois longas anteriores, A Ascensão Skywalker também quer imitar seu correspondente na trilogia original. No caso, a semelhança com O Retorno de Jedi não é (muito) no roteiro, mas no fato de ser mais fraco cinematograficamente do que seus predecessores. Por outro lado, é o filme da trilodisney no qual pode melhor sentido o espírito aventuresco e descompromissado do original.

Aparenemente, chega-se ao fim da saga da família Skywalker. E digo “aparentemente” porque os produtores do futuro podem sempre decidir ser hora de ganhar um pouco mais de dinheiro e resolver refilmar a saga inteira com novos atores (e quiçá um planejamento melhor). Até lá, novas séries estão e estarão disponíveis, trilogias sobre outros locais, personagens e períodos no tempo virão, e Star Wars continuará encantando gerações – especialmente se dona Disney não subestimar o que tem em mãos.

por D.G.Ducci

 

PS: Como manda a boa estrutura Star Wars, essa crítica tem uma sequência, sobre os futuros rumos da franquia (aqui!). Fecharemos assim uma trilogia de textos (mas esta foi planejada direito…)

Nota do Razão de Aspecto

 

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