Rocketman é um musical. E se inicio o texto com essa aparente obviedade, é justamente para chamar a atenção para uma escolha acertada dos realizadores, bem como para alertar os espectadores que esperam ver a mesma mediocridade narrativa de Bohemian Rhapsody (2018), desta vez focada na carreira do cantor, pianista e compositor inglês Elton John. Rocketman é muito mais ousado e criativo do que o filme sobre o Queen, e, na maior parte do tempo, acerta nessas decisões.

Escrito por Lee Hall, o mesmo de Billy Elliot (2000) e Victoria e Abdul (2017), Rocketman trata da vida do músico biografado desde sua infância em Pinner, no noroeste de Londres, até o início da década de 1980. A história é contada em flashback por Elton John (interpretado por Taron Egerton, da franquia Kingsman e do catastrófico Robin Hood: A origem) a partir de uma sessão de reabilitação contra seus diversos vícios (drogas, álcool, sexo, compras…).

Os grandes arcos narrativos do filme são a ascensão e turbulências da carreira de Elton John, e, em paralelo, sua complicadíssima relação com os pais. Essas duas grandes linhas são contadas em uma intercalação de narrativa tradicional e de números musicais.  Com isso, o filme ganha ao menos duas armas poderosas:  a possibilidade de não contar a história em uma ordem cronológica rígida dos acontecimentos da vida de Elton John, e a de utilizar canções, coreografias, figurinos e outros elementos de cena, para falar muito a respeito do cantor e de sua sensibilidade criativa, além de avançar a narrativa sem precisar de longos diálogos explicativos, erro tão comum no cinema mainstream.

Do ponto de vista visual, a fotografia, o figurino e a maquiagem tem em mãos um material ótimo, e aproveitam a explosão de cores dos anos 1970 e a conhecida preferência de Elton John por visuais excêntricos para ao mesmo tempo reconstruir a época e seu personagem central com exagero calculado.

Egerton faz, talvez pela primeira vez na carreira, um papel digno de nota [ahá]). Embora não seja fisicamente muito parecido com Elton John (especialmente nas cenas sem camisa, sua musculatura destoa demais do porte físico do cantor), Egerton faz bom uso de sua caracterização, ademais de cantar ele próprio as canções de Elton John. Além de não passar vergonha, ele acerta no timbre e nos trejeitos, sem parecer uma caricatura saída da Escolinha do Professor Raimundo, como Rami Malek fizera em Bohemian Rhapsody. Jamie Bell (como Billy Elliott cresceu!) está bastante bem no papel de Bernie Taupin, eterno letrista de Elton John. O ator convence como parceiro inabalável, sempre preocupado com bem-estar do amigo.

Bryce Dallas Howard (bem diferente aqui de outros papéis, como Jurassic World e Black Mirror) e Steven Mackintosh interpretam, respectivamente, Sheila e Stanley, os pais de Elton John. Aqui o filme incomoda um pouco pela falta de modulações dos dois, mostrados a todo momento como absolutamente odiáveis no tratamento com Elton John. Essa “vilanização”, por mais que encontre ecos na vida real, soa caricatural em alguns momentos. Completa o elenco central Richard Madden (o Rob Stark de Game of Thrones) que interpreta John Reid, empresário e amante de Elton John, no mesmo papel vivido por Aidan Gillen e, Bohemian Rhapsody. A julgar pelos dois filmes, Reid não deixou muito carinho na memória dos artistas com quem trabalhou.

A homossexualidade do cantor, além de seus momentos de fraqueza e decadência trazidos pelo sucesso e consequente solidão, são mostrados de forma bem mais explícita e corajosa que em sua contraparte fredmercuryniana. Há muita bebida, droga, sexo e inspirações musicais organicamente inseridas na trama. O que nos traz de volta à questão da música. O diretor Dexter Fletcher (o mesmo que foi chamado para finalizar Bohemian Rhapsody após a demissão de Brian Singer) demonstra aqui grande competência de inserir elementos musicais na narrativa. Não que Rocketman seja particularmente inovador:  todas as opções utilizadas já foram vistas antes em musicais.

Mas, nem por isso, o resultado final deixa de ser delicioso. Ao longo do filme, as músicas de Elton John não são utilizadas apenas diegeticamente, em ensaios ou no palco. Elas são cantadas por Elton John e por outros personagens para demonstrar seus pensamentos e sentimentos, além de utilizadas na trilha sonora instrumental em novos arranjos. Mais do que isso, há diversos momentos de um certo realismo fantástico, em que se capta muito mais na tela o espírito do que está acontecendo do que propriamente o fato (a cena de estreia de Elton John no Troubador, em Los Angeles, é apenas um exemplo disso).

Para os espectadores que não são fãs da linguagem cinematográfica de musicais, Rocketman pode acabar sofrendo alguma resistência. Para os demais, trata-se de um filme cujo foco não são os fatos do começo da carreira de Elton John – claramente as coisas não aconteceram daquela forma –  e sim a própria alma e obra musical do artista.

=> Uma Mesa Quadrada inteira só sobre filmes a respeito de músicos e bandas você pode ver aqui. 

por D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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