Os Miseráveis (Les Misérables, 2019) – Indicado ao Oscar – Crítica
Os Miseráveis

Os Miseráveis foi o escolhido da França para representar o país no Oscar e a escolha deu certo: o filme é um dos cinco finalistas, ao lado de Dor e Glória, Corpus Christi, Honeyland e (o favoritaço) Parasita. Na minha crítica de O Retrato de uma Jovem em Chamas eu disse que se Os Miseráveis fosse melhor, ele estaria de parabéns. De fato, considero O Retrato melhor, contudo, Os Miseráveis está também de parabéns. O longa dirigido por Ladj Ly (no primeiro longa da carreira, ele inclusive tem um curta homônimo no qual se baseou aqui) é digno de vários elogios.

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Ele começa, com uma câmera inquietante retratando uma inquietante população no auge de uma comemoração que abarca parte dos habitantes em uma comunhão: a vitória em uma Copa do Mundo, no caso 2018. Neste quase prólogo é possível perceber algumas características que permearão todo o filme: a principal delas somos jogados no meio da ação em um processo quase imersivo daquela realidade.

Os Miseráveis

Contudo, não tarda para termos o real foco, acompanhamos as pessoas na periferia de Paris em vários núcleos envolvendo questões religiosas/étnicas, policiais/criminosas, etárias e outras estruturas conflitantes. O protagonista Stéphane (Damien Bonnard) é um novato na divisão policial e vem com um olhar de fora (também, de certo modo, o olhar do público). Ele tem que presenciar atitudes erradas dos colegas de corporação, baderna das crianças e toda a estrutura do crime organizado, um quase governo paralelo.

Vale tirar o leão elefante o comentário que a história não tem relação direta com a escrita por Victor Hugo. Mas o título não é à toa. Seja na questão geográfica, seja na óbvia porém certeira posição de que somos todos miseráveis – Ly tem um trabalho até ousado de não efetuar julgamentos e não estabelecer um vencedor na “competição” de quem é mais miserável. Ao ter uma certa noção do todo, o público naturalmente poderá refletir sobre o tema. Outro acerto é Os Miseráveis ter um recorte claro. Não lidamos aqui com causas e consequências. A reflexão surge a partir daquele ponto escolhido por Ly que assina o roteiro ao lado de Giordano Gederlini e Alexis Manenti. Pode-se considerar que isso por si só é uma interferência, mas ainda assim considero válido pois afinal não dá para abarcar toda a história das mazelas da humanidade em pouco mais de 1h40. E ao tirarmos um retrato temos um desenho de um momento específico.

O mote, um roubo de um filhote de leão e ação policial em cima deste ato, conduz a trama com sagacidade entre os grupos, com o foco claro em Stéphane e os companheiros. Há até uma opção curiosa de não deixá-los sem uma camada a mais, em uma tentativa de humanizar. Seria fácil vilanizar à la desenho da Disney. Mas o mundo real é um pouquinho diferente.

De modo bem orgânico, com sentido narrativo, há imagens de drone que se justificam devido a um personagem usar tal câmera. E as repercussões disso escalonam de uma maneira impactante. Mas mesmo na câmera “normal”, o uso é cirúrgico e nas cenas de perseguição em ambientes abertos ou exatamente no oposto, naqueles mais claustrofóbicos, conseguimos perceber a intensidade e tensão do momento, o senso de urgência é vívido.

A violência não é poupada em Os Miseráveis. Há cenas que podem até causar algum desconforto em plateias mais sensíveis. Os diversos tipos de violência são bem reproduzidos. Fazendo a gente se questionar e vivenciar um mosaico onde a parte quebrada é justamente a sociedade.

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Les Misérables

20191 h 42 min
Overview

Stéphane (Damien Bonnard) é um jovem que acaba de se mudar para Montfermeil e se junta ao esquadrão anti-crime da comuna. Colocado no mesmo time de Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djibril Zonga), dois homens de métodos pouco convencionais, ele logo se vê envolvido na tensão entre as diferentes gangues do local.

Metadata
Director Ladj Ly
Writer Giordano Gederlini, Ladj Ly, Alexis Manenti
Author
Runtime 1 h 42 min
Country  France
Release Date 14 novembro 2019

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