30 anos para fazer um filme. A maratona de Terry Gillian começou em 1989, mas somente em 1998 o diretor conseguiu angariar os fundos necessários e começar a fase de pré-produção. Mal sabia que a maratona havia apenas começado. Por diversos problemas, como equipamentos e cenários destruídos por uma inundação, atores adoecerem, problemas com seguro e outros tipos de contratempos fizeram a produção ser cancelada e reiniciada diversas vezes. Um documentário relatando estas dificuldades foi lançado em 2002. Lost in La Mancha era inicialmente um making-off, mas foi lançado de forma independente devido a mais um dos cancelamentos do filme.

Entre os envolvidos com o projeto estiveram Johnny Deep, Ewan McGregor, Jack O’Conell, Robert Duvall, Michael Palin e John Hurt. Somente com o envolvimento de Adam Driver, que ajudou a financiar a produção, que o filme atingiu sua versão final. Em junho de 2017 Terry Gillian termina as filmagens, 17 anos após o seu início. O lançamento ocorreu em Cannes, em maio de 2018, 29 anos após o início do projeto. Mesmo aí os problemas não acabaram. A distribuição mundial atrasou devido a algumas controvérsias legais, e por isto só foi lançado nos EUA em abril de 2019. E no Brasil estreou em poucas salas neste mês de junho.

Este verdadeiro calvário deixou marcas no filme. Já no início um letreiro informa o espectador que o filme foi realizado após vários anos e tentativas. E como tantas mentes criativas contribuíram ao projeto, há um exagero de vozes e estilos, uma consistência interna um tanto fragmentada. Um exemplo de como várias cabeças acabam sendo mais confusas que só uma. Mas isto não é ruim. Há beleza na loucura de O homem que matou Dom Quixote.

Não que a ideia de Gillian fosse fazer um filme linear e conciso, muito pelo contrário. Estamos falando de uma narrativa que brinca em ir para frente e para trás no tempo e na consistência o tempo todo. É uma estória propositalmente fragmentada. Acompanhamos Toby Grisoni durante as filmagens de uma peça publicitária para TV, com o tema de Dom Quixote. Mas estas filmagens acontecem próximas a um vilarejo onde o próprio Toby, 12 anos antes, filmou uma pequena produção independente com o mesmo tema. Em busca de inspiração, Toby volta ao local de filmagens de sua primeira produção, e ao encontrar parte do elenco original, acaba sendo transportado para uma mistura da Espanha do século XVII com o mundo atual, temperada com insanidades surreais bem ao estilo Terry Gillian.

Adam Driver surpreende bastante com um Toby realmente quixotesco, dando a dose certa de irracionalidade, espanto e desespero a Toby. Jonathan Pryce nos entrega um Dom Quixote primoroso. Ao mesmo tempo cavalheiresco e insano, brutal e singelo. A química entre Driver e Pryce é excelente, gerando os melhores momentos de humor do filme. E faz algo bem difícil, que é tornar verossímil as ações de Toby diante de Quixote. Infelizmente Joana Ribeiro não acompanha a qualidade do elenco, fazendo uma Angélica superficial, mera donzela em perigo sem carisma. Isto dificulta nos envolvermos com a missão cavalheiresca principal do filme.

Os figurinos e os cenários estão soberbos. A mistura entre tempo atual e fantasia cavalheiresca, o colorido em tons bastante tropicais, as roupas grotescas e singelas. A escolha das locações é perfeita, em especial nos pequenos vilarejos e no “castelo” dos imigrantes ilegais. A fotografia é bastante carnavalesca, em um bom sentido, dando um tom entre a farsa e pantomima, entre o insólito e o teatral.

Há problemas de edição, ou talvez um estilo de edição propositalmente problemático. Algumas transições entre cenas são um tanto abruptas e fragmentadas. As vezes ficamos nos indagando se depois de A realmente viria B. Percebemos os cortes narrativos e nos assombramos com isto. Não sei dizer se isto é positivo ou negativo, há um pouco dos dois aqui. Isto aumenta o tom quixotesco, mas quebra o ritmo e a fluidez. Sentimos que o filme tem mais de duas horas, e apesar de não haver uma barriga muito clara, o filme não desce completamente redondo.

O humor está presente a todo momento, mas sem produzir gargalhadas. Sentimos a piada, gostamos, mas ao mesmo tempo ela nos surpreende tanto em suas reviravoltas que o espanto supera a hilaridade. Fica claro que Terry Gillian continua ousado e desafiador. Continua o mesmo diretor de Brazil – O filme, com a mesma audácia. Mas há um clima de autorreferência e auto-irreverência com o projeto e seus fracassos. A história da produção é tão ou mais quixotesca que o próprio roteiro. E isto é citado o tempo todo durante o filme.

O homem que matou Dom Quixote é uma fábula sobre a dificuldade de fazer filmes. Sobre o esforço e o dano que a arte demanda do artista. Sobre o quão insólito, surreal, cruel e superficial é o mundo artístico. E principalmente sobre como isto tudo se aplica especialmente a O homem que matou Dom Quixote. Como a serpente Ouroboros, que devora a própria cauda.

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O Homem Que Matou Don Quixote

20182 h 12 min
Overview

Um executivo de publicidade salta para trás e para frente no tempo entre Londres do século 21 e La Mancha do século 17, onde Don Quixote o confunde com o seu amigo Sancho Pança.

Metadata
Director Terry Gilliam
Writer
Author
Runtime 2 h 12 min
Country  Belgium United Kingdom France Portugal Spain
Release Date 19 maio 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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