O Farol (The Lighthouse, 2019)

Os fãs de bons filmes de terror psicológico têm o que comemorar em 2019 (ou no início de 2020, caso do Brasil).  Após Ari Aster lançar seu angustiante Midsommar (cuja crítica do Razão você pode ler aqui), é a vez de Robert Eggers mostrar que toda a aclamação de seu filme anterior, A Bruxa (2015, crítica aqui) não foi por acaso. Em O Farol (The Lighthouse), escrito em parceria com seu irmão Max, Eggers comprova seu imenso talento para produzir inquietação na audiência. Ainda que os riscos tomados e os desafios auto impostos pelo diretor aqui sejam ainda maiores, o resultado é de altíssimo nível. Entretanto, assim como ocorreu A Bruxa, não será um filme fácil e para todos os públicos.

Para entender essa suposta dificuldade do filme, basta mencionar que se trata de um filme alegórico. Assim como em Mãe! (2017, crítica aqui), de Darren Arronovsky, o que se passa na tela tem mais de um sentido, e o entendimento de certas chaves simbólicas dá ao filme ainda mais camadas do que ele transmite a quem apenas observa a sequência dos fatos. Além O Farol tem como um dos elementos da narrativa a perda da noção de tempo pelos personagens e a progressiva perda de sanidade, que passa a mistura delírios e realidade, motivada pelo prolongado período de confinamento e pelo consumo de álcool.  Para ajudar razoáveis e razonettes, o Razão de Aspecto lançará em breve um outro post, com spoilers e explicações sobre o filme.

Por hora, basta saber que O Farol conta a história de Ephraim Wislow (Robert Pattinson) e Thomas Wake (Willem Dafoe). Ambos são designados para trabalhar por quatro semanas em um farol, numa ilha isolada na costa da Nova Inglaterra, por volta do fim do século XIXséculo XX.  Os dois não poderiam ser mais diferentes: Wislow é jovem, calado, evita bebidas alcóolicas e gosta de leitura. Wake é um velho falastrão, beberrão e peidorreiro, além de apaixonado (talvez demais?) pelo mar e suas superstições. Rapidamente se estabelece uma relação desbalanceada entre os dois homens: Wislow toma conta de todas as atividades braçais do serviço, enquanto Wake é o único a ter acesso direto à luz do farol. O que unirá os dois, além do farol, é a escalada de comportamentos excêntricos e a perda gradual de sanidade, campo fértil para diálogos e atuações de tirar fôlego.

Eggers retoma aqui temas como o do isolamento por inadequação e o da escalada da desconfiança, já presentes em A Bruxa. A diferença principal é que, enquanto em seu longa de estreia o foco era muito mais no feminino, nos conflitos da puberdade e na busca por sobrevivência em uma sociedade que estigmatiza a mulher, O Farol é um filme predominantemente masculino. O próprio diretor resumiu o filme como “nada de bom pode acontecer quando dois homens estão presos dentro de um falo gigante”. Há disputas, tanto veladas quanto explícitas por espaço, por poder, por acesso ao conhecimento, pela definição dos rumos da história. Desde a primeira noite juntos há pequenos conflitos (como no exemplo do brinde antes do jantar), que se intensificarão ao longo da projeção, chegando ao próprio conflito de identidades. Aos poucos, há momentos de aproximação e de afastamento entre os dois personagens, carentes, mas prontos para transformar um momento de potencial afeto mais direto em violência – física ou psicológica. E, por estranho que possa parecer, O Farol é um filme que traz altas doses de erotismo – um erotismo bizarro, fantasias improváveis e uma sofreguidão desgastante e às vezes incompreensível.

Como mencionado, o diretor ousa aqui mais do que em sua obra anterior, a começar da escolha do equipamento de filmagem. Para dar à obra aparência de filme antigo, o diretor escolheu utilizar câmeras e lentes das primeiras décadas do cinema, além de filtros que simulassem o cromatismo do final do século XIX. Essa opção vai além do mero “filmar em preto e branco”: gera uma proporção de tela (razão de aspecto, ahá!) de 1:19:1 – o que significa que a tela é praticamente quadrada.  Com isso, a impressão de confinamento e de opressão, essenciais ao roteiro, são intensificadas.  Soma-se a isso um destaque à verticalidade do farol muito maior do que se a película tivesse sido filmada no widescreen tradicional do cinema contemporâneo. Por fim, um último bônus visual: a fotografia em tons de cinza reflete o caráter dúbio de ambos personagens:  não há um herói e um vilão, um mocinho e um bandido. Se acompanhamos a história sobretudo pelos olhos de Wislow, a medida em que vamos conhecendo mais o personagem é reforçada a imprensão de que não há com quem simpatizar no filme. Que Netuno e as maldições marinhas caiam sobre a Academia se Jarin Blaschke (retomando a parceria de A Bruxa com Eggers) não for indicado pela fotografia de O Farol!

Eggers aproveita esse recurso e o talento de seus dois atores, ora com closes e tomadas frontais, para aproximar a plateia e os personagens, ora colocando-os como elementos menores, meio nas sombras, em meio ao ambiente da ilha e do farol que fazem temporariamente às vezes de protagonistas. Já muito longe de Harry Potter e da saga Crepúsculo, Robert Pattinson comprova uma vez mais que é um ator com bons recursos dramáticos, já comprovados em filmes como Cosmópolis (2012), Z: A Cidade Perdida (2016) e Bom Comportamento (2017, crítica aqui). Mas o show é mesmo de Dafoe, que alcança todos os nuances do personagem com a maestria costumeira. Sotaque, imponência, insanidade, poder, fanfarronice e desfaçatez: é impossível apreender totalmente seu Thomas Wake, e isso é ótimo para o filme. Há uma possível uma indicação ao Oscar no horizonte por sua interpretação.

Dois outros elementos que colaboram para a imersão do espectador na ambientação proposta é o som do filme e a trilha sonora de Mark Korven (mais um que retoma a parceria com Eggers). Há uma certa mistura entre eles, e os sons do vento implacável, da chuva e do mar bravio não raro se confundem com a trilha sonora composta sobretudo por instrumentos de sopro, metais e harmônicas de vidro. Essa alquimia sonora ajuda a compor um ambiente praticamente onírico onde o limite entre realidade e devaneio torna-se embaçado. Há, ainda, ruídos do próprio maquinário do farol, que, em sua repetição constante, representam mais um elemento de incômodo para personagens e espectadores.

O Farol não é o tipo de horror que se baseia em sustos ou sequências de mortes violentas, ou em ritmo acelerado. O público médio possivelmente imporá alguma resistência a seu canto de sereia. A melhor sugestão é esquecer a busca por explicações racionais para cada passagem do filme e mergulhar fundo nessa viagem de mitologia e insanidade.

 

por D.G.Ducci

=> em breve: Uma luz sobre O Farol ! – entenda melhor os simbolismos do filme. Aqui no Razão!

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O Farol

20191 h 50 min
Overview

Dois homens vão tomar conta de um farol em uma ilha remota e misteriosa da Nova Inglaterra, no fim do século XIX, e vivem uma experiência hipnótica e alucinatória.

Metadata
Director Robert Eggers
Writer Robert Eggers, Max Eggers
Author
Runtime 1 h 50 min
Release Date 18 outubro 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

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