Depois do excelente Corra!, todos aguardavam com ansiedade o novo filme de Jordan Peele. Estreando em 22 de março, Nós já se confirma um sucesso de bilheteria, e tem recebido elogios quase unânimes pela crítica. E motivos para isto não faltam.

Acompanhamos a história de uma família de negros norte-americanos em uma viagem de férias para uma casa de praia. Mas o que deveria ser um repouso tranquilo se transforma em uma espiral de violência quando sua casa é atacada por um grupo de estranhos. Estranhos que tem aparência idêntica ao da família. O conceito de doppelgänger, de clones malignos, está muito presente no folclore de vários povos, e já foi assunto de diversos filmes, contos, séries, etc. Entre outros podemos citar o clássico Invasores de corpos e suas refilmagens. Peele pega este velho conceito e dá uma nova roupagem, fazendo da história uma metáfora para a sociedade norte-americana de 2019.

Em uma sociedade onde cada vez mais o medo do diferente, do estranho, do estrangeiro se torna presente nas mentes e corações, fica fácil apontar o dedo para o outro e culpá-lo das mazelas do mundo. Mas toda vez que você aponta um dedo na direção de alguém, três dedos apontam de volta na sua direção. Peele convida a todos para, ao invés de olhar para o outro buscando o monstro, voltemos os olhos para nós mesmos.

Para tanto ele constrói uma das narrativas mais tensas do ano. Segue uma clássica estrutura de três atos, típica de filmes de terror. No primeiro ato temos a apresentação da família em um terreno familiar e cotidiano, e nos afeiçoamos aos personagens a medida que os conhecemos. Com a chegada dos estranhos, o segundo ato se inicia, e tudo parece indicar que veremos um filme de invasão da casa, de violência no ambiente familiar. Mas logo esta expectativa se perverte para algo de escala muito maior. E por fim, no último ato, temos o confronto da protagonista com a antagonista, uma grande revelação e uma cartarse final.

Isto tudo apoiado em uma primazia técnica rara de se ver. A começar pelas interpretações. O quarteto principal de atores está iluminado. Todos eles tiveram o desafio de interpretar dois personagens. A versão normal e a versão maligna. Winston Duke consegue fazer um Gabe cômico, desajeitado, bonachão, e ao mesmo tempo um Abraham que parece um tanque de batalha. O porte físico aqui ajuda nos dois personagens. O grandão desajeitado e o terrível grandalhão. Os dois atores infantis dão um tom especialmente desconfortável a suas versões malignas. O sorriso de Umbrae me fará ter pesadelos com o rosto de Shahadi Wright Joseph. E Evan Alex nos entrega um Pluto realmente animalesco. Mas a atuação de Lupita Nyong’o rouba os holofotes, apesar de tudo. Sem ela o filme realmente não funcionaria, pois a trama depende e muito da dinâmica entre Adelaide e Red. A carga emocional e física que a atriz dá as duas personagens é realmente impressionante.

Junte isto a uma trilha sonora competente, mas um tanto lugar comum, e com a edição de cenas memoráveis e temos tudo para um filme memorável. Como não se encantar/apavorar com o balé mortífero entre Adelaide e Red no final do filme? Mas infelizmente o filme carrega problemas, e não são pequenos.

A metáfora, a analogia, é um tanto frouxa, e esticada ao limite. Há dezenas de elementos simbólicos que são arremessados na trama, e permanecem sem conexão com a metáfora central ou com outros elementos. Inúmeras perguntas importantes para o conflito ficam em aberto. E não são o tipo bom de interpretações em aberto, que convergem para algum ponto. São questões em aberto que enfraquecem a verdade que se pretende contar.

Toda boa ficção é boa por usar mentiras para contar verdades. Um conto de fadas não é importante por nos contar que dragões existem, mas sim por nos contar que dragões podem ser derrotados. A ideia de se usar o doppelgänger para que consigamos olhar para o monstro dentro de nós é uma bela verdade. Mas há milhões de elementos estranhos a este centro, que enfraquecem a metáfora. E a estória acaba por não nos ensinar nada sobre como acharmos nossos monstros internos. O que são os coelhos? Qual o sentido da corrente humana? Há uma série de detalhes dentro da complexa mitologia do filme que não possuem lógica interna.

Também cansativo e fraco foi a repetição de um erro comum em filmes de terror. As cópias monstruosas são verdadeiras máquinas assassinas de figurantes e coadjuvantes. Trucidam sem pensar e pestanejar. Mas ao lidar com protagonistas, estranhamente postergam o golpe final para criar suspense barata. Isto acaba por matar a sensação de risco quando percebemos que, mesmo completamente subjugados, os protagonistas permaneceram vivos por serem protagonistas.

O plot twist final é um segredo de polichinelo. Em cinco minutos de filme já é possível desconfiar da grande peripécia, e de certa forma passamos a torcer para estarmos enganados, para que a revelação final seja outra. Não é. E o momento de revelação ocorre da maneira mais preguiçosa e barata. Um longo monólogo do vilão explicando a trama. Peele foi incapaz de criar uma cena final que mostrasse a chave para entender a história, e então opta por usar Red para contar para nós a explicação. Diálogos expositivos sempre são ruins, mas são mais venenosos quando ocorrem para explicar o centro do filme.

O balanço final? Um filme com grandes méritos, e grandes defeitos. A experiência de assistir é agradavelmente tensa, e funciona como filme de terror. Muito. Mas peca como narrativa de suspense, e fracassa na analogia que pretende construir. Toda arte deve correr riscos, e aqui Peele arriscou mais que em Corra! Tentou fazer algo mais complexo. Espero que tenha ganho experiência com seus erros.

Há, é claro, o risco que eu não tenha entendido perfeitamente a analogia, e que exista uma coerência maior dos símbolos e narrativa. Mas lendo as declarações do próprio diretor, não me parece o caso.

Nota do Razão de Aspecto

 

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