O mal não espera a noite: Midsommar (2019)

Quando um diretor de cinema estreia em longas como o fez Ari Aster, a expectativa pelos seus trabalhos seguintes passa a ser mais alta do que o normal. Após lançar, em 2018, Hereditário, clássico instantâneo de terror que o Razão assistiu na première mundial ,  Aster retorna este ano com Midsommar (assim mesmo, em sueco, que ganhou no Brasil o desnecessário substítulo “O Mal Não Espera a Noite”).  A boa notícia é que, mesmo um pouco abaixo de seu predecessor, o filme traz as mesmas grandes doses de incômodo, tensão e insanidade que já se identificam com seu criador.

Em certa medida, vários temas de Hereditário são aqui retomados: temos uma protagonista que sofre uma grande perda pessoal; a dúvida sobre o quanto essa perda pode afetar sua sanidade;  e um misto de pulsão pela busca de um sentido/equilíbrio em um ambiente em que muito acontece além do conhecimento e do controle dos personagens principais. A principal diferença está no visual: enquanto Hereditário é um filme escuro, de visual triste e opressivo, em Midsommar a narrativa perturbadora é construída em um ambiente claro e multicolorido do verão escandinavo. Prepare-se para vários momentos de deleite visual com a fotografia de Pawel Pogorzelski, que repete aqui a parceria com Ari Aster.

O filme lembra muito outros exemplares de terror pagão, em especial O Homem de Palha (The Wicker Man, 1973) e, mais recentemente, O Apóstolo (Apostle, 2018), disponível na Netflix [aliás, embora seja um tema ótimo, está bom de demonizar o paganismo em pleno 2019, hein, cineastas….]. Há uma comunidade pagã sendo visitada, há estranhamento misturado com fascínio pelos belos rituais, e há toda uma realidade não esperada e não acessível aos visitantes em um primeiro momento. O foco, aqui, é diferente: em vez de focado em descobrir o paradeiro de pessoas desaparecidas, como nos dois exemplos, trata-se aqui, como o próprio diretor esclareceu, de filme sobre relacionamentos e sobre términos. Há uma mistura de new age perversa, fetiche e sororidade… bem peculiar.

Apesar da pouca idade, Florence Pugh já provou que é uma atriz com densidade e segurança interpretativa (e recomendo desde já conhecerem sua Katherine de Lady MacBeth, filme de 2016). Assim como Toni Collette em Hereditário, Pugh é o coração do filme, e conduz sua Dani por estados de humor instáveis, por um luto profundo, afetos diversos, ansiedade, choque e vingança. Jack Reynor (do delicioso Sing Street, de 2016), interpreta o namorado de Dani, Christian, que nem sabe muito bem o que fazer com uma namorada profundamente trise e abalada, por quem ele já não nutre um interesse tão intenso. Quem mais destoa é Will Pouter (do famoso episódio interativo de Black Mirror, Bandersnatch), cujo personagem – Mark – possui um tom único de fazer comentários inapropriados, resultando mais em um clichê ruim de filme de terror adolescente do que em um personagem com um mínimo de interesse.

Midsommar é mais um exemplo bem-vindo de um tipo de terror – do qual também faz parte o maravilhoso A Bruxa, de 2015 – que deixa o jump scare e as sequências de assassinatos de lado, e aposta na evocação de um mal estar crescente. Não se trata de uma obra para se ver despreocupadamente numa matinê: o filme tem cenas graficamente fortes e muita nudez. Aliás, talvez seja esse um dos riscos que o filme corra: há alguns momentos que exigem do espectador a compreensão da ritualística envolvida, sob o risco de gerar mais risos do que pavor.  De toda forma, para quem gosta de terror com conteúdo, é obra para ser vista e revista.

por D.G.Ducci

Not rated yet!

Midsommar

20192 h 27 min
Overview

Casal em crise viaja com amigos para uma comunidade rural pagã na Suécia, para participar do festival de solstício de verão. As férias aparentemente idílicas acabam se transformando em uma sequência de eventos bizarros e aterrorizantes em meio ao culto pagão.

Metadata
Director Ari Aster
Writer
Author
Runtime 2 h 27 min
Release Date 3 julho 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 3    Média: 5/5]