Medida Provisória
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Medida Provisória é a estréia de Lázaro Ramos como diretor de ficção. Fora dos cinemas o filme é marcado por polêmicas. Apesar de lançado em 2020, sua estréia no circuito comercial nacional sofreu uma série de dificuldades e adiamentos junto a Ancine. Muitos consideram que estes entraves ocorreram por má vontade por parte do governo Bolsonaro. Em especial o Presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, chegou a declarar que o filme era uma tentativa de usar recursos públicos para associar Jair Bolsonaro ao racismo. 

Contudo apesar do forte teor político, Medida Provisória não tem nenhum caráter partidário. A história do filme é de uma distopia propositalmente absurda, onde um governo brasileiro fictício editaria uma Medida Provisória que deportaria todos os brasileiros negros para a África. Mas o retrato feito deste governo brasileiro fictício é tão genérico e abstrato que, no entender deste crítico, fazer um paralelo com governos específicos é sem sentido. A crítica social feita pelo absurdo se direciona mais ao racismo estrutural brasileiro do que a governantes específicos.

Mas esquecendo as polêmicas políticas, em termos de cinema, como Medida Provisória se sai? Relativamente bem, mas com percalços. O filme é uma adaptação do livro Namíbia, não!, de Aldri Anuciação. O livro foi aclamado pela crítica, e recebeu o Prêmio Jabuti em 2012. O diretor Lázaro Ramos já tinha adaptado o livro para o teatro, com o mesmo título do livro. 

Esta primeira adaptação ao teatro se faz notar na versão cinematográfica. O roteiro carrega várias marcas teatrais. Os núcleos específicos dos personagens estão sob os holofotes, mas as transformações que ocorrem em larga escala são retratadas en passant. As mudanças de legislação e as convulsões sociais que se seguem são súbitas demais, o que dificulta acreditarmos e nos envolvermos com estes eventos. A transição entre racismo estrutural para segregação explícita e caos nas ruas é feita sem nenhuma preparação. 

A reviravolta final torna-se anticlimática exatamente por este descompasso. Os dramas em escala pessoal são convincentes, mas os dramas políticos e nacionais não. E com isto o último ato é bastante banal.

Outro ponto que não seria problema em uma peça de teatro, mas não funciona no cinema são os diálogos que se transformam em discursos. Algo um pouco pior que diálogos expositivos. Volta e meia os personagens descrevem os dilemas raciais quase como em palanque. No teatro isto funciona, mas no cinema o ideal é permitir que os eventos nos mostre o absurdo criado. Mostre, não conte.

Além disto o filme trabalha muito bem os personagens negros, mas é bastante caricato nos demais personagens. Não apenas nos racistas brancos, como também nos de outras etnias. Faltam bons antagonistas. Os políticos e burocratas são completamente dispensáveis ao filme. Uma excessão cabe a vizinha dos protagonistas, interpretada por Renata Sorah, uma racista bem típica, das que podemos encontrar em qualquer condomínio brasileiro.

Os personagens negros, no entanto, são excelentes. Ótimas atuações, bons diálogos (exceto nos momentos expositivos) e uma diversidade de personalidades e conflitos. Os três atores principais foram muito bem escolhidos. Alfred Enoch nos apresenta um Antônio disposto a lutar contra o preconceito, mas ao mesmo tempo evitando confrontos e construindo consensos. Seu Jorge, carismático como sempre, serve de contraponto. Um ativista contra o racismo, tão envolvido emocionalmente na causa que acaba entrando em parafuso quando o pior ocorre. E Taís Araújo se destaca ainda mais por ser apenas uma médica que tenta construir sua vida da melhor forma possível. Até que o racismo a arremessa em uma distopia plena. 

A trilha sonora é forte e bem pontuada. A cenografia, no entanto, sofre com o baixo orçamento, ficando aquém das melhores novelas televisivas. Outro ponto que dificulta comprarmos  os acontecimentos de escala mais ampla. 

Mas o que realmente salva o filme é a excelente distopia. Medida Provisória sabe ser uma distorção absurda de um problema bem real. É uma ficção exagerada, mas de algo que cada vez mais fica exposto a céu aberto. O que exige de certos grupos esforços maiores para ignorar o óbvio. 

O filme não aponta para o bolsonarismo ou qualquer outro grupo específico. Mas aponta para o racismo estrutural. E isto explica a reação de figuras como Sérgio Camargo. Muitos se incomodarão sobre como o absurdo total de uma distopia insana parece ressoar tanto com algo que eles sabem ser verdadeiro, mas não conseguem admitir. Impossível que um filme destes não revolte os negacionistas do racismo nacional.

Por isto Medida Provisória infelizmente não será um marco no cinema nacional, mas ainda assim tem enorme importância como obra artística que retrata os estranhos tempos que vivemos.

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Medida Provisória

20221 h 34 min

Nota do Razão de Aspecto

 

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