Maverick (1995) – RASOP – Evento 3 – High Rollers
Posters para "Maverick"

Maverick é uma escolha destoante de todos os outros filmes escolhidos para o RASOP. Nesta série tentei escolher filmes que, além de serem bons filmes sobre poker, retratassem o jogo de um modo realista e positivo. Contudo, ao se analisar como a sétima arte retrata o poker, é importante reconhecer que, na maioria das vezes, teremos um filme  sobre trapaças. E muitas vezes, um western, onde o que não se resolve nas cartas se resolve com balas. Eu estava entre dois filmes para ilustrar esta visão clássica, mas errônea, do poker. Jogada decisiva (A big hand for the little lady), de 1966, seria uma escolha tão boa quanto Maverick, então, confiando na sorte, joguei uma moeda para decidir qual dos dois filmes eu iria criticar. Nada melhor que deixar a sorte escolher sobre que filme de trapaças com poker analisar.

Maverick é um filme de Sessão da Tarde (talvez até já tenha passado lá, não sei), mas no melhor sentido. Leve, descontraído, e acessível a toda família. Apesar de envolver tiroteios, trapaças e coisas similares, é tudo em uma linguagem pasteurizada e palatável. E com um roteiro capaz de fazer você, seu pai e seu filho rirem juntos.

Richard Donner fez toda uma carreira bem sucedida dirigindo filmes “de sessão da tarde”. Tem a honraria de ter dirigido o primeiro filme de super-herói moderno (Superman, de 1978). Goonies é sua obra prima, mas seu maior sucesso foi com a franquia Máquina Mortífera. Em Maverick ele retorna sua parceria com Mel Gibson (na época um ator carismático e querido do público, e não um diretor polêmico e persona non grata da Academia).

Contracenando com Mel Gibson, que interpreta o personagem que dá nome ao filme, temos Jodie Foster (de Silêncio dos Inocentes, e Taxi Driver). Ambos são uma mistura de jogadores de poker, ladões e trapaceiros, e acabam por desenvolver uma relação de meio parceria, meio competição. O envolvimento amoroso/sexual se torna inevitável, e a química entre os dois atores (e ambos futuros diretores) é o ponto forte desta comédia. A constante competição de quem consegue enganar quem seria cansativa e previsível nas mãos de atores menos talentosos.

Completando o elenco temos James Garner (de Fugindo do Inferno) e Alfred Molina (de Os caçadores da arca perdida), ambos em atuações competentes, mas sem brilho. Cabe destacar ainda uma breve aparição de Danny Glover, que gera uma hilária citação ao Máquina Mortífera.

A fotografia do filme é belíssima, e propositalmente clichê. O filme não se leva a sério, sendo um pastiche do gênero Western. Temos algumas desconstruções criativas de lugares comuns, como a tribo indígena no topo da colina ameaçando missionários, ou o cowboy que luta contra cinco e sai vitorioso, ou ainda a carruagem desgovernada e o cowboy tendo que parar os cavalos. Tudo isto com a câmera usando de tudo o que você já viu antes. A trilha sonora acompanha este espírito de paródia, com temas bem familiares, e funcionais.

O pecado do filme é o excesso de reviravoltas, que se tornam cansativas e esperadas. A cada surpresa nos preparamos para qual será a próxima reviravolta, qual será a trapaça escondida, o plano secreto a ser revelado. Apesar de essencial para o roteiro desta comédia, algumas vezes isto retira a tensão e a surpresa. Em um mundo onde todos são espertos demais, a trapaça se torna trivial, e monótona. Mas isto apenas em um ou outro momento de exagero, em especial no último ato.

Note que até o momento eu quase não falei de poker, e estamos na RASOP. Então, Aniello, por que Maverick foi escolhido como o evento High Rollers? Para quem não é do meio do poker, explico: um torneio High Rollers é um torneio cujo valor da inscrição é especialmente elevadao.  Poucos participantes se inscrevem, aumentando o número de jogadores profissionais. São eventos caros, e um show a parte.

Escolhi Maverick primeiro por ser um bom filme, que tem como personagens principais jogadores de poker, e como principal evento do roteiro um torneio de poker. Mas também escolhi este filme para mostrar como Hollywood costuma a tratar o tema em suas grandes produções. Cartas na Mesa e The Cincinnati Kid são excessões. A maioria dos filmes que falam de poker, em especial as grandes produções, falam de grandes trapaças, de desonestidade, crime, etc. E não de um jogo de habilidade, raciocínio, matemática, psicologia. Também é muito comum vincularem o poker ao Velho Oeste, uma terra sem lei e com tolerância a pessoas que seguiam uma vida a margem dela. Isto, por muito tempo, glamurizou o poker como um jogo marginal, do submundo, algo muito distante da realidade do que o poker é hoje. Esta visão pode gerar boas histórias, sejam de paródias como Maverick, ou histórias de crime como Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. Mas não é nada similar ao jogo que aprendi a amar.

Felizmente há uma certa tendência no sentido oposto, e já temos algumas produções atuais que retratam o poker de um modo mais moderno. Filmes como Bem vindo ao jogo ou Negócios e Trapaças mostram o poker de modo bem mais fidedigno, e sem a glamourização da desonestidade. Por isto, como Evento Second Chance escolhi o mais interessante dos filmes desta nova geração, pós-Cartas-na-mesa, que retratam  o poker como jogo de habilidade: The Grand (2007).

Perdeu algum dos eventos anteriores do RASOP? Confira o nosso Evento de Abertura e o Evento Principal. Tem algum filme que fala sobre poker que gostaria de ver nossa crítica? Ou alguma sugestão para outro evento temático de críticas (filmes sobre xadrez, sobre escritores, sobre comida, etc)? Deixe seu comentário que nós atenderemos dentro de nossos limites.

 

Nota do Razão de Aspecto

 

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