Kursk – A Última Missão foi concluído e lançado em 2018, rodou três dezenas de países e só agora, em 2020, chegou ao Brasil. O longa, dirigido pelo dogmático Thomas Vinterberg, narra a história (baseada em fatos reais) de um desastre marítimo envolvendo o “personagem” título, ocorrido no começo dos anos 2000 na costa russa. Para tal, ele opta por três arcos que ocorrem simultaneamente: o do acidente, o das famílias dos marinheiros e a trama política. O resultado, como definiu o  Keith Uhlich do The Hollywood Reporter, é um melodrama de ação.

O longa tem vários truques para atrair o público, quando percebemos tais elementos a coisa fica um tanto marcada e, portanto, óbvia. Quem não antecipar poderá se emocionar em diversos níveis e em vários momentos. Logo no início somos apresentados a alguns personagens de forma muito esquemática. Tem o núcleo familiar de um, o casamento de outro, a irmandade dos amigos… a tranquilidade e a humanidade aqui servem para tornar a tormenta mais intensa e relevante posteriormente.

Kursk - A Última Missão

Há uma variação da razão de aspecto que é contra intuitiva, mas que funciona. Ela começa quadrada quando dos marinheiros fora do submarino e assim que eles submergem, amplia-se. Sendo que o costumeiro, para retratar uma claustrofobia, seria o oposto. No terceiro ato, retoma-se o artifício. Além de melhor aproveitar a tela para os planos do mar, mostrando a solidão, podemos interpretar que aqueles homens se sentiam livres nas missões e ali era um ambiente mais fluído e amigável – essa ironia traz um suave tempero.

O jumpscare é usado em pelo menos dois momentos. O primeiro sustinho tem chance de pegar o público desprevenido, contudo, o segundo, ao repetir todo o trajeto da construção da cena anterior, perde força. Ou seja, de modo algum condeno a ferramenta, mas o como ela foi usada. Por outro lado, apesar do tempo ser algo crucial aqui, Kursk – A Última Missão não apela para o relógio para estabelecer um senso de urgência. Repare como a ideia temporal permeia todo o filme, mas sem nunca usar aquela bobagem saturada de contagem regressiva. Ponto para o longa. A ausência de trilha também torna-se um acerto, o que poderia enveredar para uma forçação, deixa o som mais ensurdecedor falar por si: o silêncio – quebrado por momentos diegéticos quase sempre bem pontuados.

Kursk - A Última Missão

Os papéis de liderança, nos três arcos, são vislumbrados de alguma maneira. Contudo, os liderados têm pouca expressão. Tornando a abordagem capenga. Os confrontos da Tanya Averina (Léa Seydoux) com o corpo militar soam amadoras. Os incentivos de Mikhail Averin (Matthias Schoenaerts)  beiram o brega. E a consistência dada por Colin Firth como comandante é esvaecida. Muito mais orgânico está o humor de Oleg Lebedev (Magnus Millang) que tem a melhor cena do filme ao contar uma história sobre um urso polar.

Eu não conhecia o fato real. Isso poderia despertar em mim uma curiosidade pelo final. Contudo, a tensão foi diluída por uma montagem truncada perto do fim. O clímax parece torto. E há um quase epílogo que serve para fechar um arco que entra naqueles truques que mencionei no começo. De acerto, o filme se limita a uma frase para contextualizar o fato real. Quem tiver interesse que pesquise posteriormente.

Como viram, para cada elogio, há um senão e para cada ponto negativo, é possível pensar em algo que funcionou. Kursk – A Última Missão acaba sendo uma experiência agridoce. Há um filme muito bom aqui, mesmo sabendo que poderia ser muito pior.

POSSÍVEIS SPOILERS DE Kursk – A Última Missão A SEGUIR PARA QUEM NÃO CONHECE O FATO REAL:

Kursk - A Última Missão
*
*
*
O filme deixa claro que o incidente foi uma sucessão de erros. Eles inclusive batem demais nessa tecla. À la Chernobyl, que inclusive é citado aqui, a tragédia poderia ser evitada.

 

Confira as nossas outras críticas dos lançamentos de 2020 no Brasil:

Frozen 2
O Caso Richard Jewell
O Farol
Ameaça Profunda
Adoráveis Mulheres
Retrato de uma Jovem em Chamas
Os Miseráveis
O Escândalo
Um Espião Animal
1917
A Divisão
A Possessão de Mary

Not rated yet!

Kursk

20181 h 57 min
Overview

Em 2000, o K-141 Kursk, submarino nuclear da Classe Oscar-II, pertencente à Marinha Russa, afundou no Mar de Barents. A 10 de agosto de 2000, Kursk – um submarino duas vezes maior que um avião Jumbo e mais comprido que dois campos de futebol -, o orgulho “inafundável” da frota norte da Marinha Russa, embarcou num exercício naval. Foi o seu primeiro exercício numa década e as manobras implicaram 30 navios e três submarinos. Dois dias depois, duas explosões internas e poderosas o suficiente para surgirem em sismógrafos do Alasca, fizeram afundar o submergível. Suspeita-se que a proa do mesmo tenha explodido, sendo essa a causa mais coerente, no entanto, não há forma de saber.

Metadata
Writer
Author
Runtime 1 h 57 min
Country  Belgium Luxembourg
Release Date 7 novembro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 0    Média: 0/5]