A grande jogada (2017) – Crítica (indicado para o Oscar de Roteiro Adaptado)
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Se me perguntassem qual seria o meu sonho como jogador de poker, provavelmente eu responderia encontrar uma mesa com celebridades e milionários que não sabem jogar. A ideia de achar uma mesa com fishs de bolso recheado é uma espécie de Eldorado de todo jogador recreativo e amador. No mundo real, sabemos que se o jogo é high stakes, então a mesa estará recheada de profissionais. Exceto nas raras e secretas mesas privadas, que apenas ouvimos falar sobre.

Uma das mais famosas destas mesas privadas era o jogo organizado por Molly Bloom, a “princesa do poker”. Ex-esquiadora olímpica, Molly Bloom organizou mesas de cash game high stakes  entre 2004 e 2011. Entre os frequentadores regulares estiveram Tobey Maguire, Ben Affleck e Leonardo DiCaprio. Mas após um dos empresários que frequentavam a mesa de poker decretar falência devido a um esquema de pirâmide, o FBI passou a investigar o jogo. E descobriu não apenas um jogo clandestino de valores milionários, mas também o envolvimento de Molly com drogas e com a máfia russa.

Durante o processo legal Molly Bloom publicou um livro, Molly’s Game (mesmo título original do filme). Apesar da pressão das editoras e do FBI para Bloom divulgar o nome dos envolvidos e suas histórias, a “princesa do poker” se recusou a divulgar informações, exceto as que já haviam se tornado públicas. Isto para preservar a integridade profissional de Bloom, bem como a reputação de todos os envolvidos.

Esta história real, de uma mulher conquistou fama e dinheiro em um universo totalmente masculino, e preservou sua integridade mesmo sob ameaça da máfia e do FBI, foi a escolha de Aaron Sorkin para sua estreia como diretor. Como roteirista Sorkin sempre gostou de personagens dominantes, diálogos mordazes e conflitos de egos. E temos isto de sobra em A grande Jogada. Já na primeira cena Sorkin apresenta a psicologia de Bloom de maneira magistral: a protagonista descreve sua breve carreira como esquiadora de forma contundente, e percebemos o lado competitivo, agressivo e eficiente da personagem. E com um pequeno extra para nós, brasileiros, ao descrever o que nós consideramos a pior experiência do esporte.

Jéssica Chastain foi uma escolha muito acertada para interpretar Bloom: carismática, sexy, dominadora e mordaz. É impossível não ser hipnotizado pela presença dela. Para contracenar com Chastain, Sorkin escolheu outro ator de peso: Idris Elba. Seu personagem, o advogado Charlie Jaffey, é um adversário a altura de Bloom. Adversário no sentido do confronto pela dominação do ambiente. Apesar de Jaffey ser o advogado de Bloom, há várias cenas onde eles se digladiam verbalmente. Os melhores momentos do filme são diálogos e monólogos de Chaistain e Elba.


Assim como no livro de Bloom, Sorkin opta por não revelar o nome das celebridades envolvidas, alterando nomes, mesclando algumas pessoas, etc. Mas um dos jogadores era dominante demais e ótimo material dramático, e foi muito pouco alterado. O antagonista do filme, principal jogador da mesa, é chamado misteriosamente de Jogador X. Infelizmente não pudemos ter o prazer de ver Tobbey Maguire interpretando o personagem. Não seria difícil para o ator interpretar a si mesmo. O papel ficou com Michael Cera.

A narrativa salta com habilidade na cronologia, avançando e retrocedendo no tempo de forma dinâmica e orgânica. Para evitar confusão, temos a narrativa em off de Chastain como eixo. Um recurso que poderia ser usado de forma descritiva e preguiçosa. Mas a narrativa não é usada para explicar ou descrever, e sim dar o contexto psicológico e o ordenamento de idéias. A história não é narrada cronologicamente, e sim internamente. Com isto o espectador acaba por compactuar com a protagonista, mesmo em seus momentos mais questionáveis.

Mas precisamos falar de Kevin Costner. Temos mais uma vez Costner interpretando uma figura paterna sábia, porém intensa demais. Larry Bloom, pai de Molly, é o arquétipo do pai exigente, entre a indiferença e a crueldade. A pressão paterna para a excelência de seus filhos se repete no personagem de Elba, mas é muito mais intensa em Costner. E a influência dúbia desta pressão sobre Molly é um dos principais motores dramáticos do filme. Temos um pai que endureceu a filha, que se torna assim dominante dentro do mais masculino dos mundos, mas quase se auto-destruindo no processo. Drama de primeira qualidade. Mas…

Temos o momento final. Não consigo entender o motivo do diálogo final entre Costner e Chastain. Tudo o que Molly Bloom não precisava era de uma orientação paterna próxima de um mansplaining. Os três anos de terapia em três minutos soam razos, banais e completamente incompatível com a personagem construída. A busca da catarse final, da salvação de Molly, foi desnecessária e entregue da pior forma possível. Difícil de aceitar que a princesa do poker, capaz de dominar até mesmo Tobbey Maguire o Jogador X, precisasse de lições de almanaque de Kevin Costner.

Apesar deste grave deslize, A Grande jogada  é uma excelente história, narrada com maestria e interpretada com intensidade. Merece o Oscar de roteiro adaptado, e ainda mereceria ser lembrado em outras categorias. Confira as nossa críticas dos filmes indicados ao Oscar.

Normalmente minha crítica se encerraria aqui, mas acho que alguns detalhes da trama possam ter ficado obscuros para quem conhece pouco de poker. Apesar de bastante popular no Brasil, o público brasileiro é muito menos familiarizado com o jogo que o americano. Então vamos a uma breve explicação para quem não entendeu parte da história. A PARTIR DE AGORA O TEXTO CONTEM SPOILERS.

Qual infração penal Molly Bloom cometeu? E quando?

Ao contrário do que possa parecer a princípio, Molly Bloom não foi condenada por organizar jogos de poker. Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, organizar jogos de poker não é infração. A infração é a exploração econômica de jogos de azar (no Brasil), sem a devida autorização (nos EUA). Apesar de haver enorme estudos e jurisdição que comprovam que o poker não é um jogo de azar, ainda assim, por se assemelhar a jogos de cassino, muitas vezes a legislação trata como se fosse.

Mas mesmo os jogos de azar não são proibidos. O que é proibido é a exploração econômica deles. Como isto se liga a história do filme? No início, Molly Bloom lucrava única e exclusivamente com as gorjetas oferecidas voluntariamente pelos jogadores. Há uma tradição no meio do poker dos vencedores doar gorjetas (o famoso capilé) para os funcionários da casa. Mas isto é feito de modo informal e voluntário.

Além disto os cassinos e casas de poker cobram o chamado rake, que é um percentual retirado de cada inscrição (no caso de torneios) ou de cada mão (no caso de cash games). Aqui a cobrança não é voluntária, e sim automática. A cobrança do rake é o que garante o lucro da casa no poker. Então se um organizador de jogos de poker não cobra rake, ele não está explorando economicamente o jogo.

Molly Bloom inicialmente não cobrava rake. Legalmente ela apenas hospedava o jogo, sem exploração econômica. É a partir do momento em que ela passa a cobrar rake, sem o alvará de casa de jogos, que ela infringe a lei.

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Evento de Abertura – A mesa do diabo 

Main Event – Cartas na mesa

High Rollers – Maverick

Second Chance – The grand

Last Chance – All in: the poker movie

 

 

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Jogo da Alta Roda

20172 h 20 min
Overview

Molly Bloom, jovem esquiadora e antiga esperança olímpica, torna-se uma empreendedora de sucesso e alvo de uma investigação quando cria um jogo internacional de póquer com altas apostas. Entre os jogadores encontravam-se celebridades de Hollywood, estrelas do desporto, titãs do mundo dos negócios e a máfia russa. Apór ser detida pelo FBI, o seu único aliado é o advogado de defesa Charlie Jaffrey (Idris Elba), que descobre em Molly muito mais do que os tabloides tinham feito parecer.

Metadata
Director Aaron Sorkin
Writer Aaron Sorkin
Author
Runtime 2 h 20 min
Release Date 21 dezembro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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