FRAGMENTADO (SPLIT, 2017) – CRÍTICA
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Em todas as críticas sobre Fragmentado, você, caro leitor, lerá alguns parágrafos sobre os altos e baixos da carreira de M. Night Shyamalan, sobre como O Sexto Sentido e Corpo Fechado foram os únicos filmes de qualidade incontestável de sua carreira. Vou poupá-lo desse excesso de parágrafos introdutórios e responder logo a pergunta que não quer calar: sim, Fragmentado é um bom filme de suspense. Podemos afirmar que, neste momento, Shyamalan é como um jogador de futebol que estava em má fase, descuidado, fora de forma, mas que agora começa a recuperar seu desempenho. Não é aquilo que já foi, mas já está muito melhor do que na maioria de seus últimos trabalhos. Em A Visita, o diretor já havia dado Sinais (tundunts!) de que estava voltando à velha forma.

Na direção, Shyamalan faz um trabalho competente. O filme é tenso, e o suspense se mantém ao longo de toda a projeção, às vezes de forma menos intensa, mas sempre presente. Os elementos fundamentais da narrativa são a prisão e a claustrofobia, muito bem retratada nos ambientes e pelo uso da câmera para demonstrar a prisão interior e/ou psicológica dos personagens. Com alguns planos que a crítica atribui à influência de Kubrick, por terem sido usados em O Iluminado, mas que, na verdade, são criação de Hitchcock, Shyamalan cria tensão mesmo quando nada está acontecendo, aparentemente, mas estamos convencidos de que algo vai acontecer a qualquer momento… E aí vem a grande surpresa:  quando ou se acontece, não se trata de um jump scare. Neste caso, uma escolha melhor do que aquelas do diretor em A Visita. Se nenhuma cena Fragmentado alcança o nível de tensão do cerco à casa, em Sinais, certamente se comparam à cena do porão, em A Visita – e esta cena é de deixar qualquer pessoa mais sensível de cabelos em pé.

No roteiro,  Shyamalan fez um trabalho mediano ou medíocre, com algumas boas qualidade e alguns problemas que quase comprometem a experiência por completo. A ideia das 24 personalidades relacionada ao conceito de horda teve bom resultado, e a construção dos personagens de James McAvoy (o professor Xavier, de X-MEN: Apocalipse) foi precisa e inteligente. Por outro lado, a personagem da psiquiatra é tão mal desenvolvida que, por vezes, quase coloca o filme a perder com suas escolhas estúpidas e com alguns atitudes convenientes e injustificáveis. Além disso, o uso de flashbacks para a construção da personagem Anya Taylor Joy (de A Bruxa) causaram controvérsia, embora eu discorde, em grande medida, das críticas a esse recurso. O que salva o roteiro é o ato final, quando esperamos o grande plot twist característico dos filmes do diretor, e o filme nos entrega uma sequência tensa, assustadora e “redondinha” com o roteiro. Algumas coisas que não esperamos acontecer acabam acontecendo, outras que esperamos que vão acontecer não acontecem, e disso vem a surpresa. Particularmente, eu gostei da escolha de Shyamalan para o desfecho, inclusive com um grata surpresa na última cena. Tudo seguia aquele caminho, e, felizmente, desta vez, Shyamalan resolveu não inventar mais do que deveria.

O grande ponto forte de Fragmentado, que, certamente, o eleva de um filme médio a um filme bom, é a interpretação de James McAvoy. Apesar de não vermos as 24 personalidades, McAvoy interpreta pelo menos oito, incluindo a 24ª, a Fera, que luta para sair da escuridão. Qualquer erro no tom dessa interpretação poderia transformar o filme em uma piada pior que Fim dos Tempos, mas McAvoy demonstra uma capacidade impressionante de assumir cada uma daquelas personalidades, especialmente quando uma delas tenta de passar por outra, e apenas um gesto sutil pode ajudar o público a identificar a encenação. Dificilmente haverá interpretações mais complexas e tão competentes quanto esta em 2017, mas também é difícil imaginar a Academia indicando um filme de gênero, de um diretor quase renegado, para o Oscar de Melhor Ator. Felizmente, há pouco tempo, ninguém imaginaria que um filme sobre um negro, pobre  e homossexual poderia vencer o Oscar… Então, ainda há esperança. McAvoy é alma de Fragmentado, Fragmentado é McAvoy.

Fragmentado é um filme que nos faz pensar, por isso, é a hora de discuti-lo com spoilers:

ALERTA DE SPOILER: A PARTIR DO PRÓXIMO PARÁGRAFO, O TEXTO DISCUTIRÁ INFORMAÇÕES SOBRE A SOLUÇÃO DA TRAMA. SIGA POR PRÓPRIA CONTA E RISCO!

Nesta discussão do filme com spoilers, vou organizar o texto de acordo com os principais tópicos.

1- Os flashbacks: muitas críticas tratam o uso desses flashbacks como desnecessários para o desenvolvimento da trama. Neste caso, temos uma pequena armadilha: sem eles, o roteiro seria criticado por não explicar como a personagem de Anya Taylor Joy sabia atirar, com eles, o roteiro é criticado por ter sido óbvio ao fazer uso desse recurso. Tivemos um Arma de Chekov pouco sutil, digamos assim. Além disso, os flahsbacks criam o vínculo entre o sequestrador a sequestrada em relação à questão do abuso, que é um ponto chave para o desfecho da narrativa. Sem eles, como se poderia chegar ao desfecho? Por isso, acredito que, no saldo geral, eles foram úteis.

2- A questão do abuso e da pedofilia: há quem defenda que a questão do abuso é irrelevante para a narrativa, portanto desnecessária. Mais uma vez, discordo. O transtorno dissociativo de personalidade resulta da vivência de abuso repetido, e a passividade da vítima de sequestro também se explica pela experiência do abuso. Neste ponto, Shyamalan acertou, inclusive em situações que são supostamente inverossímeis. “Ninguém reagiria dessa maneira” é a forma mais incorreta de definir essas situações. Ninguém sabe como reagiria em uma situação de perigo, menos ainda como sua experiência anterior influenciaria a reação. Além disso, a empatia salva a vida de uma das três vítimas, e isso não significa uma apologia ao abuso, em nenhum nível. Trata-se de um compartilhamento de experiência traumática. Acredito que a raiva contida e a falta de capacidade de reação quando criança deram à personagem a força necessária para reagir a uma nova situação. O plano final da personagem de Anya Taylor Joy é, neste ponto, uma preciosidade da ambiguidade em relação ao futuro.

3- A Fera: the beast is real” é o que Hedwig nos conta. Sim, a Fera era real. Não houve uma virada patética no roteiro. Ao contrário de muitos críticos, gostei dessa solução. Primeiro, ela confirma a tese da psiquiatra de que o corpo se modifica biologicamente de acordo com a personalidade. Segundo, Também gostei do fato de a Fera REALMENTE devorar suas vítimas. Isso deu ao filme um tom de horror ausente até o último ato. Terceiro, a Fera subindo paredes e tendo força desproporcional é o que proporciona a ligação com Corpo Fechado na última cena. Estamos, então, no universo dos quadrinhos e de pessoas com super poderes, ainda que não em um universo de mutantes, por exemplo. Por isso, a Fera não somente não me incomodou, como também se mostrou a melhor solução narrativa.

4- A Psiquiatra: esta é a pior personagem, mais mal construída, com escolhas totalmente estúpidas e incoerentes. Se ela sabia como “aprisionar” as personalidades dissociadas, por que diabos se deixou matar, para deixar um bilhete totalmente bizarro para as vítimas? Não podia pronunciar o nome do sujeito em voz alta? Tudo bem, a personagem devia ser uma espécie de gênio incompreendido, morreu para provar a sua tese. Mas que foi desenvolvida de forma rasa e muito, muito imbecil, foi.

5- O Zoológico: um recurso narrativo simples, mas muito inteligente e eficiente para explicar o surgimento da Fera.

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Fragmentado

Kevin tem 23 personalidades distintas. A 24ª vai ser revelada.

20171 h 57 min
Overview

As divisões mentais daqueles que sofrem de transtorno dissociativo de identidade há muito tempo que fascinam e iludem a ciência, e acredita-se que algumas dessas pessoas possam manifestar atributos físicos únicos para cada personalidade, um prisma cognitivo e fisiológico dentro de um único ser. Embora Kevin tenha evidenciado 23 personalidades à sua psiquiatra de confiança, Dra. Fletcher, existe ainda uma oculta, preparada para se materializar e dominar todas as outras. Forçado a raptar três adolescentes, incluindo a obstinada e observadora Casey, Kevin inicia uma guerra pela sobrevivência, juntamente com todos os que estão contidos dentro dele – bem como com todos os que estão à sua volta – quando as paredes entre os seus compartimentos se quebram.

Metadata
Writer M. Night Shyamalan
Author
Runtime 1 h 57 min
Release Date 19 janeiro 2017

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