Eu, Tonya – Crítica (indicado a 3 Oscars)
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Muitas vezes os vilões são mais fascinantes que os heróis. São falhos, imperfeitos, e quando bem construídos conseguimos adorar odiá-los. Eu, Tonya conta a história real de uma das maiores vilãs da história do esporte olímpico. Semanas antes das Olimpíadas de Inverno de Lillehammer (1994), a principal atleta da patinação artística dos Estados Unidos, Nancy Kerrigan,  é agredida com um cassetete no joelho. Apesar da agressão ter sido cometida por um desconhecido, o mandatário do crime foi Jeff Gillooly, ex-marido da principal concorrente de Kerrigan, Tonya Harding. O nível de envolvimento de Tonya Harding nunca ficou plenamente esclarecido.

Craig Gillespie baseou-se em uma série de entrevistas de Tonya Harding, Jeff Gilloly, LaVonna Golden (mãe de Tonya) e outros envolvidos no crime. Ou seja, o filme é narrado sob o ponto de vista dos agressores, e não da vítima. E desde o início a narrativa deixa claro que o que está sendo contado não é a verdade, mas versões pessoais do ocorrido. Apesar de centrado na agressão contra Nancy Kerrigan, o filme aborda toda a carreira de Tonya Harding como patinadora, bem como sua vida pessoal e seus conflitos.

Eu, Tonya desafia os limites entre a ficção e o documentário. Se assemelha aos mockumentários por exibir entrevistas e cenas encenadas. Mas os fatos narrados de fato ocorreram, e as entrevistas encenadas são inspiradas em entrevistas reais. É uma mistura entre biografia romanceada, documentário encenado e mockumentário. Uma escolha ousada, mas que gera alguns problemas. Há várias quebras de ritmo, com as entrevistas cortando as encenações e colocando o público consciente de estar vendo um filme. Algumas das vezes os próprios personagens se tornam conscientes de estarem fazendo parte de um filme, dialogando com a câmera e com o público. Quando usado para lembrar o público que se trata de várias versões dos fatos, é um recurso ótimo. Mas infelizmente o roteiro abusa do recurso e muitas vezes a quebra da quarta parede soa gratuita e sem sentido.

Apesar deste malabarismo narrativo, os demais elementos do filme funcionam muito bem. Temos uma excelente trilha sonora, não só com boas canções, mas com a música traduzindo os momentos emocionais e psicológicos de Tonya. É interessante ver as músicas da infância, adolescência e juventude, e como elas dialogam com os eventos. A linguagem de câmera é excelente, em especial nas cenas de patinação, que ficaram primorosas. O inevitável uso de dublês para os movimentos mais complexos ficou quase imperceptível. E Margot Robbie treinou por meses patinação, para fazer o maior número de cenas ela mesmo. Mas o principal destaque vai para o movimento das câmeras, acompanhando não só a coreografia, mas a emoção da protagonista.

Uma cena merece destaque neste sentido. É a cena do Triplo Axel. Este o movimento colocou Tonya Harding no estrelato, sendo na época (1991 a 1994)  a única patinadora no mundo capaz de executá-lo. O movimento é tão complexo que nem mesmo as dublês patinadoras contratadas para o filme eram capazes de executá-lo. Para filmar a manobra foi necessário a combinação de várias tomadas, truques de câmera e computação gráfica. O resultado ficou belíssimo. Destaco a cena não só pela dificuldade técnica (do salto e da filmagem), mas pela importância narrativa. Se a agressão a Nancy Kerrigan é o Waterloo de Tonya, o Triplo Axel é seu Austerlitz.

As interpretações de Margot Robbie e Allison Janney estão excelentes. Margot consegue dar uma fisicalidade a Tonya muito convincente, tanto nos patins quanto fora deles. Não parece uma atriz interprentando uma atleta, parece uma atleta. E o lado redneck de Tonya está na dose certa. Agressiva, orgulhosa, tosca, e nada caricata. Não deve vencer o Oscar (aposto em Frances McDormand por Três anúncios para um crime), mas a é indicação justa. Já Allison Janney talvez leve a estatueta para casa. A LaVonna Golden de Janney é quase o arquétipo de mãe dominadora e abusiva. Uma torrente de insultos, reprovação e menosprezo. Mas vemos no fundo que isto vem da incapacidade de expressar orgulho. Um exemplo que amar pode ser algo doentio e destrutivo. E que nem sempre gostamos de quem amamos.

Confira a lista de nossas críticas dos indicados ao Oscar!

A escolha de narrar um dos piores eventos do esporte mundial sob o ponto de vista dos agressores tem seu preço. Há uma glorificação exagerada de Tonya. Quem vê o filme sem conhecer a atleta terá a impressão de que ela era uma patinadora superior ao real. Sim, foi uma patinadora olímpica, com um curto auge, e esteve entre as melhores do mundo por alguns anos. E não um gênio injustiçado por preconceitos e falta de oportunidade.

Além disto, o retrato da vida familiar conturbada e violenta de Tonya pode servir como tentativa de justificar o crime por ela cometido. E a profundidade do ato de tentar destruir a perna de uma concorrente para conseguir uma vaga olímpica é suavizada na narrativa. Tonya pode ter sido vítima de uma mãe abusiva e de um marido truculento. Mas curiosamente a história nada fala da maior vítima, Nancy Kerrigan. Lembremos contudo que o filme afirma no início e no fim que é a versão de Tonya dos fatos. Até que ponto isto é um problema, fica a cargo do espectador.

Nem sempre ousadia é recompensada. O melhor de Eu, Tonya está no ortodoxo. Personagens realistas bem interpretados, música compondo emoção e biografia, câmera reforçando movimento e agressividade. Mas onde Craig Gillespie resolve ousar, o resultado não é tão bom. Uma narrativa truncada pela alternância entre encenação e pseudo-entrevistas, e uma escolha de narrador que retira profundidade dramática e distorce a moralidade dos fatos. Curiosamente os narradores evitam os termos agressão, ataque, crime. Chamam o ato de atacar com cassetete uma concorrente, com intuito de inutilizá-la, de incidente. Não custa relembrarmos do crime:

 

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I, Tonya

Overview

A história de Tonya Harding, patinadora olímpica de origem humilde e família conturbada, que se envolve com um controverso caso de agressão contra uma de suas maiores competidoras.

Metadata
Director Craig Gillespie
Writer Steven Rogers
Author
Runtime
Release Date 8 dezembro 2017

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