SW: A Ascensão Skywalker – Prequel da crítica

Enquanto no novo – será mesmo o último? – episódio da saga da família Skywalker chega ao cinema, nosso Jedi sem midi-chlorians D.G.Ducci relembra a experiência dos episódios anteriores da nova trilogia, numa grande introdução à crítica principal do filme, em breve nas telinhas o Razão de Aspecto.

O texto abaixo é SEM SPOILERS de A Ascensão Skywalker, mas COM SPOILERS de O Despertar da Força e de Os Últimos Jedi

Que a Força esteja com ele!


 

UMA NOVA ESPERANÇA

Em 2012, quando foi anunciada a compra da Lucasfilm pela toda-poderosa Disney, e a vindoura realização de uma nova trilogia da saga dos Skywalkers, a empolgação foi grande. Era a garantia de retomada de fôlego da franquia por vários anos, além da realização de um velho fetiche sonho de rever os atores da franquia original de volta a papéis icônicos.  Mais do que isso:  com George Lucas fora da direção, o talentoso J.J.Abrams no comando e a mega estrutura da Disney unida ao know-how da Lucasfilm, possivelmente os filmes seriam melhores dos que o da trilogia prequel. A Força encontraria o equilíbrio novamente.

 

O ATAQUE DOS CLONES

A julgar pelo que George Lucas aparentemente queria fazer – introduzir os Whills, micróbios da Força que controlam o destino do universo – a ideia de se afastar de seu projeto para a terceira trilogia até que não foi ruim. Porém, em algum momento entre essa aparente boa notícia e a produção de O Despertar da Força (2015) uma decisão foi tomada – não sei por quem, nem importa – que teria impactos ao longo dos três filmes posteriores: o episódio VII – se não a nova trilogia inteira – seria uma releitura, ou talvez um remix, um sampler dos episódios IV, V e VI. Ao mesmo tempo em que se afastava das novas ideias do criador da saga, mergulhar-se-ia nas velhas ideias. As razões dessa decisão covarde picareta estratégica da Disney talvez ninguém saberá um dia. De toda forma, definido esse caminho, a semente do Lado Sombrio impasse estavam lançadas.

A história poderia, potencialmente, tratar de inúmeros temas:  da responsabilidade dos ex-rebeldes em montar um governo digno que não repetisse os erros da antiga República; o desafio de Luke com as novas gerações de Jedi; uma ameaça nova que juntasse Jedi e Sith; a incapacidade de algum personagem em amar e responder a seus deveres como líder ao mesmo tempo (sim, pensei em Rei Arthur)… qualquer desses temas abunda na mitologia. Quer tratar de temas atuais?  Preconceito contra uma determinada nova raça alienígena, por exemplo. Ou uma série de atentados terroristas pela galáxia para a República lidar. As possibilidades eram galácticas.

Mas não, vamos requentar. Eis que veio o novo filme e o estratagema ficou claro. Jovem sensitiva da Força, em um planeta desértico, com paternidade não-clara, se junta meio por acaso à batalha entre a Resistência e a Primeira Ordem – os nomes remixados de Aliança Rebelde e Império. Depois de muitas peripécias, os heróis têm de destruir uma arma mortal (Estrela da Morte/Base Starkiller), e um grande mentor morre (Obi Wan/Solo). Do outro lado, há um atrito entre o líder militar (Tarkin/Hux) e o aprendiz sith da vez (Vader/Kylo Ren), ambos à serviço do maioral do mal (Imperador/Snoke).

Plágio Cópia Inspiração exagerada à parte, a execução do filme, em si, foi muito boa. A nova turma central (Rey/Poe/Finn/BB8) era carismática, e os personagens conquistaram a plateia rapidamente e foram interpretados por atores muito mais gabaritados que os da trilogia original. Não houve na escolha de elenco qualquer erro grotesco, como os dos Anakins de George Lucas. Não havia o humor estúpido de um Jar Jar Binks. O ritmo do filme era excelente e o título era mais grandioso do que A Ameaça Fantasma ou Ataque dos Clones.  Tudo bastante promissor – mas sempre dependendo de o espectador perdoar o fato de ter sido enganado com essa refilmagem disfarçada.

 

CARAVANA DA CORAGEM

[Parêntese: nesse meio tempo, Rogue One, que bebia da trilogia original sem copiá-la, provar-se-ia o filme mais interessante da era Star-Wars-Disney]

 

A AMEAÇA FANTASMA

Para o filme seguinte, Os Últimos Jedi (2017), a armadilha em que a Disney se meteu ao resolver copiar o episódio IV gerou um desafio superável, mas complicado: o roteiro de Abrams deixava tudo tão previsível (caso se seguisse mesmo o arco do original) que era preciso dar uma inovada. A ideia de ter um diretor por filme era boa, e Rian Johnson tinha um currículo curto mas com bons filmes. Já a decisão de dar a ele a tarefa de se responsabilizar também pelo roteiro do filme iria criar uma nota totalmente fora do tom na enealogia. O resultado final foi, para dizer o mínimo, polêmico.

Pegadinha do Rian Johnson ié ié !

Os Últimos Jedi consegue ser ao mesmo tempo quase cópia (na estrutura) de O Império Contra-Ataca e distanciar-se enormemente do espírito da Força da saga. Vejamos: base da Resistência é invadida no início do filme e os heróis passam boa parte da trama empreendendo uma fuga difícil pela galáxia. Enquanto isso, jovem Jedi-to-be treina em planeta distante com mestre eremita, mas abandona o treino antes da hora para correr para ajudar os amigos. A esse roteiro excessivamente conhecido juntaram-se vários pontos, fortemente positivos e negativos, que fazem do filme o de reações mais extremadas por parte da audiência.

De um lado, uma fotografia belíssima; uma das melhores cenas sobre a Força, durante o treinamento de Rey; uma atuação de tirar o fôlego de Mark Hamill e um desfecho absolutamente espetacular. De outro, um humor bobo, que rivalizava com os piores momentos de Jar Jar Binks; um subtexto bem rasinho de engajamento social e relativização do bem e do mal, que fugiu completamente do que a série tinha sido até então (e para piorar, essa trama paralela no filme era longa e não tinha qualquer consequência prática para o desenrolar da história); resolução de cenas (Mary Poppins, alguém?) e tramas bem difíceis de engolir (o sacrifício de Holdo, por exemplo, e o amor repentino de Rose por Finn). Não por acaso, as reações de alguns dos atores, em especial de Hamill, chegaram a ser constrangedoras durante as entrevistas de divulgação. Houve até petição dos fãs mais afoitos para que o filme fosse desconsiderado do cânone.

O pior do episódio VIII seja talvez a necessidade sistemática do roteiro em descontruir ou ridicularizar ponto a ponto tudo o que o episódio VII havia construído. Não duvido que as chamadas “diferenças criativas” alegadas por Colin Trevorrow para abandonar a direção do capítulo final tenham a ver com o estado de terra arrasada deixado por Johnson. Não há que se iludir: é claro que Rian Johnson não tomou todas as decisões sozinho, nem teve carta branca da Disney. Mas quase conseguiu fazer o que Joel Schumacher fez com a franquia Batman pré-Nolan. O resultado da pataquada é justamente o filme que finalmente começarei a analisar…

 

(continua)

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 1    Média: 5/5]