Entre facas e segredos (Knives Out, 2019)

Entre facas e segredos (Knives Out, 2019) é entretenimento dos melhores, e essa talvez seja a melhor síntese do novo filme escrito e dirigido por Rian Johnson.  Depois de cometer a heresia-vsf-tnc-tomara-que-morra-mil-vezes Os últimos Jedi (The Last Jedi, 2017) – cujos problemas, é justo que se diga, estão no roteiro, e não na direção – Johnson começa a se redimir com essa mistura de thriller de detetive, no melhor estilo Agatha Christie, e fartas doses de comédia, entregues por um elenco estelar e afiadíssimo.

O filme traz a investigação da morte de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), escritor de livros de mistério famoso em todo mundo. Em princípio, parece se tratar de um suicídio, mas o excêntrico investigador Benoit Blanc (Daniel Craig) é contratado porque há a suspeita de um possível assassinato. E o culpado poder ser alguém da própria família ou muito próximo de Thrombey… É nesse contexto que Entre facas e segredos ganha sua maior força:  o elenco com inúmeras caras conhecidas, que compõe os parentes e agregados do escritor, parece estar participando de uma grande brincadeira em seus papéis – e isso não só transparece para a audiência como colabora com o clima de semi-galhofa (mas sem chegar ao besteirol) que permeia o filme.

Craig é um poço de carisma – e embora seu sotaque pareça mais o cockney dos pilantras de Michael Kaine na década de 1970 do que o propriamente aquele do sul dos Estados Unidos que tenta emular – em todas as cenas ele atrai os olhares de personagens e do público. Bem mais relaxado do que na média de seus papéis, Craig mostra um bom talento para comédia. E destacar-se não é fácil em um filme que traz Jamie Lee Curtis (filha de Thrombey), Don Johnson (genro), Michael Shannon (filho), Toni Colette (nora), Chris Evans (neto), Jaeden Martell (neto) e Katherine Langford (neta), sem falar na nova queridinha da vez, a atriz cubana Ana de Armas de Blade-Runner 2049 e Sem tempo para morrer,  que interpreta Marta, uma imigrante latina que trabalhava como cuidadora/enfermeira do morto. Completam o elenco principal LaKeith Stanfield e Noah Segan, como a dupla de policiais que acompanha o caso.

Outro bom atributo do filme é seu ritmo (o que, no geral, é sinal de uma montagem de qualidade): à exceção de uma pequeníssima barriga aproximadamente no meio da história, Entre facas e segredos é daqueles filmes que prendem a atenção do espectador, seja pelo interesse em descobrir novos desdobramentos da história, seja pelo humor… afiado [ahá!].  Há, por exemplo, uma espécie de “detector de mentiras” tão absurdo na trama que só se encaixa organicamente [ahá!] justamente porque o filme não se leva tão a sério assim.

Para fãs de livros policiais, o filme abunda em referências deliciosas:  desde o detetive de comportamento e linha de raciocínio exóticos, eco dos Holmes e Poirots da literatura (e esse nome afrancesado, Blanc, de onde veio?), passando pela própria casa – que, com sua decoração e arquitetura labiríntica, é quase um personagem à parte -, até o roteiro em que todos os personagens são suspeitos e em que há reviravoltas quando menos se espera – aliás, uma bela ousadia nesta obra é que não é exatamente quem matou o escritor a maior curiosidade para a plateia.

Rian dá continuidade aqui a seu engajamento social de botequim: perceba a construção de personagens em que os homens são incompetentes, traidores, fracassados ou extremistas (neste último caso, vide o jovem alt-right de Martell). Por outro lado, temos mulheres fortes e batalhadoras (Curtis), de origem humilde e bom coração (Armas) ou estudantes engajadas e cheias de empatia (Langford). A exceção fica por conta de Toni Colette, que é quase que exclusivamente um alívio cômico – mas ela se dá bem no papel e mereceo descanso, depois de sofrer tanto nas telas em seus últimos papéis (vide Hereditário). Há também um sub(?)texto sobre imigração na Era Trump e outro sobre a obsessão com a mídia e com o sucesso (um dos personagens quer adaptar os livros de Thrombey para o cinema, contra a vontade do autor). Haja vontade de agradar millenial, Johnson.

Mas a qualidade do que é apresentado na tela deixa essas muletas lacradoras de Johnson em segundo plano, uma vez que os elementos narrativos funcionam muito bem em praticamente todas as cenas (e a seleção de canções merece também uma menção). Johnson aqui coloca todas suas armas à mostra [ahá!] e acerta em cheio em um filme que pode ser sintetizado como superdivertido.

—> Quer mais Rian Johnson no Razão de Aspecto?   Assista a Mesa Quadrada sobre Star Wars: Os últimos Jedi

Por D.G.Ducci

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Knives Out

Hell, any of them could have done it.

20192 h 10 min
Overview

Quando o renomado romancista Harlan Thrombey é encontrado morto em sua propriedade, logo após seu 85º aniversário, o curioso e afável detetive Benoit Blanc é misteriosamente recrutado para investigar o caso. Da família disfuncional de Harlan à sua equipe dedicada, Blanc penetra uma rede de pistas estranhas e mentiras egoístas para descobrir a verdade por trás da morte prematura de Harlan.

Metadata
Director Rian Johnson
Writer Rian Johnson
Author
Runtime 2 h 10 min
Release Date 27 novembro 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

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