Duas Rainhas (Mary Queen of Scots, 2018)

Embora tenha concorrido a dois prêmios Oscar (figurino e maquiagem – mas merecia mais), Duas Rainhas não teve uma recepção muito positiva nem por parte da crítica, nem por parte do público. Talvez uma das razões seja a inevitável comparação com A Favorita (cuja crítica você do Razão você pode ler aqui), filme também histórico, também de 2018 e também a respeito da corte britânica. Enquanto este é um filme acima da média, aquele acaba sendo um filme mais comum:  bem feito, com excelentes valores de produção, mas sem grande brilhantismo narrativo.

A história da rainha Maria da Escócia já foi objeto de outras adaptações cinematográficas, sendo a melhor delas Mary Stuart, Rainha da Escócia (1971), estrelado por Vanessa Redgrave [aliás, o Razão de Aspecto fez um apanhado dos principais filmes sobre a monarquia inglesa, no especial “Que rei sou eu?”]. Em Duas Rainhas, Mary é interpretada pela atriz Saoirse Ronan (de Lady Bird e Brooklyn). Nascida na Escócia, mas criada na França, Mary retorna a seu país de origem em 1561, após tornar-se viúva do Delfim Francis II.

Ao assumir o trono escocês, Mary tem de enfrentar intrigas e oposições vindas de diversas origens: o fato de ser uma mulher em posição de comando incomoda a sociedade da época; o fato de ser católica em um período de profundos conflitos com os protestantes é outro problema – e as pregações de John Knox, fundador do presbiterianismo (David Tennant, quase irreconhecível e muito bem no papel) alimentam ainda mais esse sentimento; por fim, o fato de ser a primeira na linha de sucessão ao trono inglês, ocupado por sua prima, a Rainha Elizabeth I (Margot Robbie, de Esquadrão Suicida e Eu, Tonya) faz de Mary uma mulher a um tempo temida, desejada e odiada. O título dado no Brasil pode enganar um pouco o espectador: de fato, há duas rainhas no filme, e ambas são personagens fortes. Mas o filme não pretende equilibrar as narrativas de Mary e Elizabeth: o foco da história é claramente a rainha escocesa.

Quanto às interpretações, ambas as atrizes se entregam aos papéis com competência. Um pequeno problema quanto à Ronan – que provavelmente não será percebido pelo público médio – diz respeito ao sotaque da personagem: criada na França, Mary não teria tantas marcas típicas da Escócia na fala. Além disso, ao tentar falar com sotaque escocês, Ronan escorrega para sua origem irlandesa (e, para quem conhece as diferenças, isso aparece e fragiliza a composição final). Embora tenha menos tempo de tela, Robbie está mais interessante: sua Elizabeth é bem diferente do que estamos acostumados a ver – como, por exemplo, no excelente Elizabeth (1998): enfeada como consequência da varíola, insegura e invejosa quanto à juventude, beleza e fertilidade da prima e tendo em William Cecil (um Guy Ritchie felizmente mais contido) seu único confidente. Sua personagem tem mais nuances e passa por um amadurecimento dolorido que renderam à Robbie algumas indicações importantes como Melhor Atriz Coadjuvante, como nos casos do Bafta e do Sindicato dos Atores.

O que une as duas personagens, e torna-se o foco temático do filme, é a dificuldade de inserção e sobrevivência das mulheres em um ambiente tradicionalmente masculino, como a política. Mesmo na condição de rainhas, o mais alto posto, Mary e Elizabeth têm dificuldade de expressar suas ideias e precisam resistir às imposições e tramoias dos homens de suas cortes. Elizabeth resume a situação quando se espanta com “como os homens são frios”. Aliás, a diretora estreante no cinema (embora com vasta experiência no teatro) Josie Rourke faz questão de trazer a questão das minorias e dos empoderamentos para o filme, ao escalar alguns atores negros como nobres da Inglaterra elisabetana e ao mostrar um homossexual como único amigo viável das mulheres.

Essas escolhas se, por um lado, são tematicamente interessantes, comprometem a historicidade do filme, que já padece por outros motivos. Além do já mencionado problema com o sotaque de Mary, a própria relação entre as duas rainhas não reflete o a documentação histórica sobre a época: elas jamais se encontraram pessoalmente, e uma certa amizade e admiração demonstrada em certos momentos do filme não foram além da cordialidade e formalidade entre rivais. A sororidade leve e informal entre Mary e suas aias é igualmente improvável. Uma outra pequena curiosidade histórica: Mary é chamada de “Rainha da Escócia” várias vezes durante o filme, quando, na verdade, o termo da época seria “Rainha dos Escoceses” (daí o “Queen of Scots” do título original). Mas trata-se de uma pequena imprecisão, que por si só não impacta o filme. De toda forma, filmes de época normalmente não se propõem a ser documentários detalhados, e sim a evocar fatos/períodos marcantes e – especialmente se o filme for bom – a correlacionar temas recorrentes na história.

Do ponto de vista visual, o filme é absolutamente lindo: a enormidade das paisagens escocesa e a escuridão de sua corte são mostrados com uma paleta acinzentada e com pouca saturação: são cenas grandiosas, mas ao mesmo tempo frias – como o clima do país e o coração dos homens. A corte de Elizabeth é mais colorida e rica. A fotografia de John Mathieson (de excelentes trabalhos como Logan e Gladiador) aproveita a iluminação indireta dos castelos e cria composições de cena belíssimas, que, em muitos momentos, evocam inclusive o estilo de pintura do século XVII. Há que se destacar ainda o paralelismo entre cenas das duas rainhas, sendo o mais impactante o que compara o parto de Mary com a confecção de um presente por parte de Elizabeth. Em termos de figurino e maquiagem, as indicações ao Oscar foram mais do que merecidas.

A trilha sonora do alemão Max Schifer é outra pequena pérola menos reconhecida do que merece: ela consegue ser pomposa como uma corte real em alguns momentos, utiliza canto coral para cenas de cunho religioso e/ou intimista, e se vale de tambores e de outros instrumentos de época que encorpam cenas mais densas. Não se trata de uma obra-prima em criatividade, mas é um trabalho extremamente bem feito.

Duas Rainhas merecia um trabalho de montagem melhor, e peca também por um roteiro sem grandes ousadias narrativas. Quando o faz, normalmente prejudica sua historicidade. De toda forma, é um filme belíssimo do ponto de vista estético, e merecia uma atenção e uma receptividade mais positivas do que teve.

 

por D.G.Ducci

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Duas Rainhas

20182 h 04 min

Nota do Razão de Aspecto

 

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