Drácula (1931) – Drácula no cinema – Parte 3
Posters para "Drácula"

Drácula, filmado em 1931, dirigido por Tod Browing e estrelado por Bela Lugosi marcou como imaginamos os vampiros em geral, e Drácula em particular, de forma definitiva. Tanto no livro de Bram Stoker quanto principalmente no excelente Nosferatu de Murnau Drácula foi retratado como uma figura monstruosa e repulsiva. O conceito do vampiro elegante, charmoso, hipnótico e até sensual apareceu em alguns textos de pouco impacto anteriores a Stoker, mas é em Drácula que este arquétipo surge para o cinema, e se firma no imaginário coletivo.

A imagem de Bela Lugosi com sua capa preta com forro de veludo vermelho e gola alta, com seu sotaque aristocrático e olhos hipnóticos acabou por virar sinônimo de vampiro. A partir de Lugosi praticamente todos os vampiros, no cinema e na literatura, tomam por referência ou por antítese esta imagem. Drácula é um dos principais sucessos do primeiro universo compartilhado da história do cinema: A franquia d’Os Monstros Clássicos da Universal, também conhecida como Dark Universe.  Também é o primeiro longa metragem falado de terror fantástico.

Início do cinema falado

Para entender a estética de Drácula temos que entender o momento histórico pelo qual o cinema passava em 1931. Os filmes falados eram uma novidade bem recente (The jazz singer é de 1927) e a linguagem do cinema, a tecnologia e até as salas de exibição ainda não tinham se adaptado plenamente a esta grande mudança.

Por causa disto, a Universal produziu não apenas um, mas três filmes Drácula em 1931, todos baseados no mesmo roteiro e filmados nos mesmos sets. Primeiro temos uma versão muda, para ser exibida em salas que ainda não tinham sistemas de som. Infelizmente nenhuma cópia desta versão sobreviveu aos dias de hoje. Depois temos a versão totalmente falada em espanhol do filme, dirigida por George Melford, e com elenco completamente diverso. Enquanto Tod Browing e sua equipe filmavam durante o dia, Melford e companhia usavam os mesmos sets a noite. A produção de um filme paralelo falado em espanhol era comum à época, pois ainda não havia a tecnologia para a dublagem de filmes, e o mercado latino americano era muito importante para Hollywood.

Mas este não é o único impacto do filme ter sido produzido na época de transição entre o cinema mudo e falado. Se assistimos hoje Drácula podemos estranhar como as interpretações são exageradas e caricaturais. Isto é um resultado da época. Os atores de cinema ou vinham do cinema mudo ou dos palcos de teatro. Ambas as mídias dependem do exagero de gestos e expressões para funcionar.

Isto acaba por criar um estilo de época de atuações com gestos amplos, poses para a câmera, falas mais pausadas e teatrais. Normalmente isto gera uma certa estranheza junto ao público atual, mas em Drácula temos este estilo dando um ar gótico aos diálogos. Percebemos isto principalmente nas atuações de Dwight Frye e Bela Lugosi. A risada insana de Frye é realmente incômoda, e seus trejeitos esquizofrênicos estão no ponto certo entre o alívio cômico e o pavoroso. E o que falar de Bela Lugosi?

Lugosi não foi nem o primeiro nem o segundo ator a ser cotado para o papel. Durante a fase de pré-produção o único ator cogitado para o papel era a estrela d’Os Monstros Clássicos da Universal, Lon Chaney, o homem de mil faces. Devido ao sucesso do ator em filmes mudos como O Corcunda de Notre Dame e O Fantasma da Opera Chaney seria uma escolha mais que natural para o papel. Mas o falecimento do ator em 1930 o impediu a participar da produção. Mais de 7 atores foram cotados para substituir Chaney. Lugosi até então nunca tinha estrelado em nenhum filme. Era um ator de teatro húngaro, com forte sotaque (no início de sua carreira decorava suas falas foneticamente, por não saber falar inglês). Mas ele era o ator que fazia Drácula na peça de teatro que deu origem ao roteiro do filme. Somente devido um forte lobby do próprio Bela Lugosi, e por que o autor aceitou um cachê significativamente abaixo do mercado, que tivemos a atuação memorável. É notável que os anos de Lugosi interpretando o Drácula nos teatros o deixou mais que confortável na pele (ou na capa?) do personagem.

As atuações não são o único elemento teatral no filme. O roteiro foi inspirado na peça de teatro também influencia neste sentido. Os personagens gostam de falar, os diálogos são um tanto pomposos e algumas vezes artificiais. Juntando a origem teatral com a auto-censura do cinema da época, temos a presença de diversos diálogos expositivos.

Não há uma única gota de sangue durante todo o filme. Nenhuma mordida diante das telas, nem sequer uma luta. E quase nenhum fenômeno sobrenatural é mostrado. Todos estes elementos são descritos pelos diálogos dos personagens. O peso da censura é tamanho que até a cena da morte de Drácula acontece off-screen. Vemos Van Helsing erguer o braço para dar o golpe final, e a câmera se afasta. Sabemos da morte pelos gritos de Drácula e pela reação de Mina. E durante décadas até mesmo os gritos de Lugosi foram censurados.

Outra influência notável da transição entre o cinema mudo e falado é a questão da trilha sonora. Devido a novidade do discurso falado, os cineastas subutilizavam do recurso de músicas para criar ambientes. A trilha só se fazia presente nos letreiros de abertura e término, ou nos momentos onde a cena pedia a presença de uma música diegética (como na cena do Concerto Musical de Drácula).

Nenhuma trilha foi composta originalmente para o filme. Ouvimos apenas breves trechos de composições clássicas. Em 1998 Philip Glass e o Quarteto Kronos foram contratados para compor e executar uma trilha para o clássico. Trilha esta que foi utilizada para o relançamento de Drácula em VHS, em 1999. As atuais versões do filme em DVD e Blu-Ray normalmente permitem ao usuário escolher que trilha ouvir: a original, sem músicas, ou a de Philip Glass. Para quem não está acostumado a filmes silenciosos, sugiro assistir com a nova trilha.

A versão em espanhol

Existe um certo folclore em torno da versão em espanhol de Drácula. Muito dizem que o filme de George Melford é melhor e mais moderno que o filme de Tod Browing. Para mim isto é uma meia-verdade, baseada não apenas nas diferenças entre as duas versões, mas principalmente na aura cult ao redor da versão menos conhecida e celebrada.

O filme de Melford foi considerado perdido, até que uma cópia foi encontrada em 1970. Mesmo assim, o lançamento em home video só foi acontecer em 1992. Apesar de hoje a versão espanhola estar presente como extra em muitos dos DVDs e Blu-Rays, continua sendo pouco conhecida e ainda menos vista. Talvez por isto, por este ar de preciosidade, acabe encontrando tantos defensores.

Não se engane, não estou dizendo que se trata de um filme ruim. É um excelente filme, com excelente roteiro e settings. E realmente há pontos onde Melford supera Browing. Parte disto se deve ao fato que as filmagens de Browing aconteciam de dia, e as de Melford aconteciam de noite. Assim a segunda produção tinha acesso aos copiões da primeira, e com isto podia optar por seguir as mesmas escolhas ou tentar melhorar as escolhas de câmera e iluminação.

A câmera na versão espanhola se movimenta mais e ousa mais. Mas também escolhe composições de imagens não tão inspiradas, como nas cenas da primeira aparição de Drácula ou da famosa risada de Renfield no porão do navio. As influências do expressionismo alemão, em especial a de Nosferatu, são muito mais notáveis no filme em língua inglesa.

Outro ponto é que a pressão da censura é nitidamente menor na versão dedicada para o mercado latino-americano. A sensualidade é praticamente ausente no filme de Lugosi, apenas sugerida e de forma muito sutil. Já Melford se permite dar camadas sensuais as personagens Lucia e Eva (correspondentes a Lucy e Mina, em inglês). A Eva de Lupita Tovar é realmente muito mais humana que a Mina de Helen Chandler.

Por fim, por contar com quase 20 minutos a mais de filme, temos nesta versão algumas cenas melhor explicadas e melhor detalhadas. Em especial o destino final de Lucy/Lucia, negligenciado na versão inglesa. Mas isto é uma benção e também uma maldição. Com diálogos mais alongados, temos mais teatralidade, mais exposição e mais artificialidade.

Por fim, exceto por Lupita Tovar, todo o elenco esta menos inspirado. Carlos Villarías parece um fã imitando Lugosi. E considerando que muito da mística ao redor de Drácula gira ao redor das interpretações, em especial de Bela Lugosi, é para mim estranho considerar a versão espanhola como superior.

Mas assistir as duas versões é uma experiência deliciosa. Me senti visitando cômodos desconhecidos de uma casa já conhecida. Comparar os dois filmes enriquece a experiência, e nos ajuda a entender melhor o peso e a influência de diretores diferentes trabalhando o mesmo roteiro e as mesmas locações.

Legado

O principal motivo para continuarmos vendo e revendo Drácula é sua enorme importância histórica. O mundo dos vampiros jamais foi o mesmo depois deste filme. Apesar de alguns poucos defeitos, e de uma linguagem cênica um pouco datada, a figura de Bela Lugosi é imortal. Todos os Dráculas depois dele a ele se referem, ou a ele se opõe. Pode não ser o melhor filme sobre o Conde, mas é o Drácula definitivo.

Se você não viu nossas primeiras críticas ao vampiro mais famoso do mundo, não deixe de conferir nossas análises sobre o livro que deu origem a tudo, e ao clássico do expressionismo alemão, Nosferatu.

E aguarde a próxima mordida.

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Drácula

A mais estranha história de amor que o mundo já conheceu

19311 h 15 min
Overview

Erguendo-se ameaçadoramente por entre as sombras dos Cárpatos, o castelo de Drácula aterroriza os habitantes das aldeias da Transilvânia. Renfield tem de lá ir para preparar a transferência do Conde para Londres, e fica sob o seu poder. Já na capital britânica, Drácula transforma a jovem Lucy Seward numa vampira após sugar-lhe o sangue, e vira depois a sua atenção para Mina. Só o Doutor Van Helsing poderá tentar pôr fim à tragédia.

Metadata
Director Tod Browning
Writer Louis Bromfield, Tod Browning, Louis Stevens
Author
Runtime 1 h 15 min
Release Date 12 fevereiro 1931

Nota do Razão de Aspecto

 

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