Coragem é a palavra chave. Tanto para Dan Torrance encarar seus demônios de infância quanto principalmente para Mike Flanagan filmar Dr. Sono. Afinal se trata da continuação não de um, mas de dois clássicos. O iluminado não é apenas um dos livros mais cultuados de Stephen King, como também um dos melhores (na minha opinião, o melhor) filme de terror de todos os tempos. E para dificultar a continuação, o filme O iluminado é bastante diferente do livro, em especial no final. Então Mike Flanagan teve a difícil tarefa de ter de agradar aos fãs de duas histórias ao mesmo tempo.

E milagrosamente consegue. Para tanto Flanagan resolveu nem emular King nem Kubrick, mas seguir um caminho próprio e autoral. Isto sem deixar de usar (e talvez passar do ponto nisto) de várias referências visuais e narrativas das obras em que se baseia. O diretor já tem bastante familiaridade com o terror (Hush – A morte ouve, a série A maldição da residência Hill, entre outros) e até uma excelente adaptação de outro livro de King, Jogo Perigoso. Flanagan já demonstrou no passado saber usar muito bem a linguagem visual e de câmera para retratar aspectos de fantasia e sobrenatural. Isto se repete em Dr. Sono. Os melhores momentos do filme são os embates psíquicos entre os vários iluminados e como isto é mostrado imageticamente. A combinação de uma boa fotografia, boa edição, efeitos práticos e CGI nos permite uma ótima imersão nos eventos sobrenaturais da trama.

Ao contrário do filme de Kubrick, Dr. Sono não se prende exclusivamente ao gênero terror. O primeiro ato é basicamente um drama, onde os conflitos e traumas de um Dan Torrance adulto são apresentados ao público. No segundo ato temos um tom de aventura, quase de super-heróis, onde o confronto entre heróis e vilões com seus poderes é o centro. Há duas cenas do segundo ato com elementos gore, mas o terror propriamente dito aparece somente no terceiro ato. Esta escolha de se distanciar do tom e dos temas da obra de Kubrick é o segredo de se livrar do peso de repetir o sucesso do clássico. Mas isto não faz com que Dr. Sono deixe de ser uma continuação de O iluminado, em todos os sentidos possíveis. Inclusive se você não assistiu ao filme de 1980 irá perder muito do filme de 2019.

O terceiro ato é uma enorme homenagem ao filme de Kubrick. E ao se aproximar do filme original, Flanagan se perde um pouco. Há várias cenas que estão lá somente para fazer referências e fan service. A solução para o confronto final é bastante previsível e um tanto forçada.

Há uma considerável expansão do universo de O Iluminado, em especial com a introdução do Verdadeiro Nó, um grupo de criaturas quase imortais que sugam o vapor dos iluminados. Estes antagonistas são retratados em riqueza de detalhes, em especial Rose the Hat. São cruéis, desumanos, mas acreditamos nas motivações e ações deles. Talvez eles fossem mais ameaçadores se a garota Abra não fosse tão poderosa. Dificulta sentir tensão quando a vítima de um culto de monstros é mais poderosa que as criaturas que a ameaçam.

As interpretações do trio principal de atores está excelente. Ewan Mcgregor nos entrega um Dan Torrance traumatizado com seu passado e em conflito com seus fantasmas, e com o álcool. Quando ele se vê forçado a assumir a função de tutor de Abra percebemos toda a sua insegurança em detalhes. Kyliegh Curran mostra um contraste com uma Abra que beira o excesso de confiança e a arrogância, mas também ingênua. Faltou um pouco de trabalho sobre as perdas que ela sofre. Devido ao excesso de poder, Abra parece invulnerável. E Rebecca Ferguson está deslumbrante. Ela passeia diante das telas como uma criatura de milhares de anos de idade, uma força da natureza. E quando confrontada com a derrota e a mortalidade, se torna ainda mais perigosa.

A trilha sonora é bastante presente, com muita referência ao filme de Kubrick, e muito eficiente nas cenas de tensão e violência. O uso das batidas de coração nos coloca no estado de tensão exata que o diretor deseja, nos manipulando de forma brilhante. O ritmo lento da narrativa permite uma imersão no personagem de Dan Torrance, mas por vezes se faz sentir um pouco, em especial no segundo ato. Em especial a parte da narrativa que justifica o título do filme é arrastada e um tanto irrelevante.

Mas no balanço final, temos uma continuação competente e corajosa, que ousa trilhar caminhos bem diversos do filme original. Não se apequena diante do gigante que é O iluminado. Seria covardia querer comparar Dr. Sono com seu antecessor em termos de qualidade e impacto, mas com certeza é uma continuação para lá de competente.

Nota do Razão de Aspecto

 

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