Doentes de Amor (The Big Sick, 2017)

Doentes de Amor chega ao Brasil nesta quinta-feira, 19 de outubro, como a comédia romântica que rendeu, em 2017, a segunda maior venda da história do Festival de Sundance, ao ser comprado pela Amazon Studios por US$ 12 milhões. O filme foi um grande sucesso no festival e, posteriormente, na circuito comercial dos EUA e ganhou a fama de comédia romântica inovadora e subversiva. Em termos de inovação, fica difícil contestar uma obra que consegue fazer uma comédia sobre uma pessoas em estado de coma sem cair e piadas politicamente incorretas. Em termos de subversão, Doentes de Amor brinca com as expectativas do espectador, ao tratar os arquétipos, ou, no caso de uma comédia, os estereótipos na posição inversa. Essa subversão, entretanto, está diretamente vinculada à cultura social estadunidense, o que diminui o peso da narrativa para uma audiência como a brasileira.

Em Doentes de Amor, discute-se o entre-lugar dos imigrantes, e dos filhos dos imigrantes, na sociedade dos Estados Unidos. O conflito entre os valores culturais muçulmanos, como o casamento arranjado, e a vida de um jovem imigrante em uma cultura cosmopolita, os conflitos coma família e as dificuldades de relação com os “nativos” dos Estados Unidos são tratados com leveza e graça, mas evitando o discurso de racismo invertido, por exemplo. No filme, Emily, uma americana branca, sofre preconceito por parte de uma família paquistanesa, enquanto estamos acostumados a comédias e dramas que tratam desse tema em relação ao preconceito contra os negros, cuja epítome é o clássico Adivinhe Quem Vem para Jantar (1967). Essa inversão de valores é engraçada por si só, ainda que tenha mais força em sociedades nas quais a segregação racial formal e informal é declarada, e não dissimulada e negada, coma na nossa falsa “democracia racial”.

Para além do tema do conflito de culturas, Doentes de Amor constrói uma boa narrativa sobre os relacionamentos modernos e o grau de maturidade e comprometimento das pessoas. A doença de Emily é o catalisador de um processo de amadurecimento e de aceitação de Kumail Nanjiani (quem interpreta a si mesmo), mediante sua aproximação dos pais de sua então ex-namorada, interpretados por Ray Romano e Holly Hunter. A construção da relação entre quatro personagens resulta em um arco tragicômico e denso, no qual o desespero e a tristeza são situacionalmente engraçados, porém sem apelação ou escracho de qualquer tipo.

O ponto fraco de Doentes de Amor reside em toda a subtrama envolvendo os bastidores do comedy club onde Nanjiani faz suas performances de stand up.  Para além do local onde os casal principal se conheceu e de uma cena tocante no último ato, o comedy club traz apenas alguns personagens desinteressantes, que, se fossem excluídos do filme, não fariam nenhuma diferença. Por isso, o filme fica mairo do que deveria e, mais uma vez, perde peso cômico e dramático- neste caso, para todas as audiências. Não sou do tipo que acredita em filme longo ou curto apenas pelo tempo de duração- cada narrativa tem seu tempo, e um filme fica longo somente quando há conteúdo sem função, mal colocado ou mal desenvolvido,  o que, infelizmente, acontece neste caso.

O ponto forte de Doentes de Amor é, sem dúvida, a química entre Kumail Nanjiani e Zoe Kazan, que rede algumas cenas hilárias pela simplicidade e pela verossimilhança. A despeito das claras limitações de Nanjiani como ator, o casal funciona e faz que nos importemos com o seu destino.

Doentes de Amor funciona bem como comédia e como drama, o suficiente para me provocar algumas lágrimas furtivas na sequência final, apesar dos altos e baixos no ritmo da narrativa.  E se uma comédia dramática nos faz rir e chora, significa que atingiu seu objetivo. Neste caso, sem nenhuma apelação.

 

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Doentes de Amor

20172 h 09 min
Overview

Um aspirante a comediante paquistanês, cria instantaneamente uma ligação com uma jovem estudante, Emily, depois de um espetáculo de stand-up. O que ambos esperavam como apenas um momento numa noite, transforma-se rapidamente em algo mais profundo, o que vem a entrar em conflito com o que os pais de Kumail, muçulmanos tradicionais, perspectivam para ele. Quanto Emily é internada com uma misteriosa doença, Kumail é forçado a ultrapassar esta crise médica, juntamente com Beth e Terry, os pais de Emily, que ainda não conhecia, ao mesmo que trava uma guerra emocional entre a sua família e o seu coração.

Metadata
Writer Kumail Nanjiani, Emily V. Gordon
Author
Runtime 2 h 09 min
Release Date 23 junho 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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