Como Nossos Pais (2017) – Crítica

Como Nossos Pais tem um importante e necessário foco feminista. Contudo, por vezes ele comete um dos grandes pecados de filmes com um tema forte: deixa a mensagem engolir a obra. A grande porém do longa é que ele clama por uma naturalidade, mas fica artificial em vários momentos.

A trama serpenteia por diversos dramas de Rosa (Maria Ribeiro), ela com o marido, filhas, mãe, pai, vida pessoal, profissional, etc. Novamente vemos uma tentativa de emular o dia a dia normal – afinal nós temos diversos núcleos que temos que lidar – contudo, cinematograficamente eles se perdem. Ao não possuírem a devida força ou simplesmente serem abandonados pelo roteiro.

Na cena inicial temos o estabelecimento de uma tensão familiar. Um almoço bem servido que se transforma em alfinetadas. Até aí, algo plenamente comum em praticamente todas as famílias que eu já conheci. Contudo, o texto parece não bater, os diálogos ficam tortos. Recomendo fortemente atenção nessa cena. Não se prendam ao tema do que está sendo dito, mas no como.

Após esse inquieto momento, não tarda para termos uma grande revelação. Esse fato gera repercussões, porém o longa vai em uma descendente no trato da questão. Rosa tem um emotivo diálogo com o irmão (Cazé Peçanha) – irmão este que praticamente some da história – a relação de Rosa com o pai Homero (Jorge Mautner) tem uma bagagem prévia que é explorada de maneira conveniente em uma cena com fantoches, ícone que fica solto depois. A presença de Herson Capri é em uma cena um tanto quanto duvidosa: Rosa visita o Ministro da Casa Civil, deslocando-se pelo local de maneira inverossímil. Quando o encontro efetivamente acontece, foca-se em uma semelhança explícita em cada diálogo, um mímico talvez fosse mais sutil.

Taí outro ponto que Como Nossos Pais destoa: não há sutileza. Rosa vai com a mãe comprar sapatos, momentos assim, mais mundanos são raros. A todo instante parece que o filme estanca para vender o peixe. Rosa, nua, diante de uma janela para denotar a liberdade ou então dela tirando a roupa no meio da rua tal qual Pedro (Felipe Rocha) fez ficam sobrando. Muitos podem comemorar aquela atitude, mas não soa natural. Novamente: não é que o corpo da mulher não é natural, porém dentro do contexto narrativo aquilo fica com as tintas carregadas.

O contraponto de Dado (Paulo Vilhena), o marido egoísta “que entende da organização social de uma tribo, mas não olha pra própria família”, e Pedro, um homem desconstruído, é outro signo que falta a tal da sutileza. A ideia era expor como certas atitudes dos homens são ridículas e como seria o homem ideal, mas será que a diretora e roteirista Laís Bodanzky não conseguia dar contornos mais implícitos?  O máximo nesse sentido vai na linha capitu de “traiu ou não traiu”, fórmula batida….

Toda a explicação da história (do filme, metonimicamente a de Rosa) no teatro soa como se Laís duvidasse da inteligencia do próprio público. Esse arco é a síntese da obra: há uma tentativa de abraçar todos os temas que preocupam o público feminino, porém só vemos pinceladas. A opção pela visão panorâmica não se sustenta.

A câmera de Bodanzky abusa do bom artifício de se afastar, ficando em outro cômodo, com um olhar distante do cenário. Essa forma simboliza uma espécie de convite a olharmos de fora. No longa de Anna Muylaert, o Que Horas Ela Volta?, essa ferramenta é muito bem utilizada nas cenas da cozinha, ao impor também um distanciamento das classes sociais representadas. Aqui, utilizado na cena em que o pai está em um quarto, enquanto Rosa e as filhas estão em outro, funciona. A redundância dessa opção, em outras cenas, tira força.

Como Nossos Pais tem um tempo meio que padrão, 1h40. Muitas cenas soam descartáveis, mesmo não sendo. A conferência em inglês, a palestra que Rosa é tradutora, todo mini arco com a adolescente e até o irmão e pai (já que era para usar dessa forma, então era melhor não ter). Mesmo tendo essas falhas macros, um momento foi sublime. A montagem, mais para o final do filme, de Clarice (Clarisse Abujamra) ao piano é das coisas mais bonitas. Outro ponto alto, fica no movimento que vemos em uma cena de sexo.

Como Nossos Pais foi amplamente premiado. Contudo, apesar de uma boa ideia, pequenas pílulas de destaque positivos, o tom geral é de um auto boicote. Talvez a boa recepção se dê pelas discussões posteriores, pela conscientização de homens ou até por mulheres assumindo um lugar de direito, do que pelos méritos cinematográficos em si.

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Como Nossos Pais

Overview

Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, é uma mulher que se encontra em uma fase peculiar de sua vida, marcada por conflitos pessoais e geracionais: ao mesmo tempo em que precisa desenvolver sua habilidade como mãe de suas filhas, manter seus sonhos, seus objetivos profissionais e enfrentar as dificuldades do casamento, Rosa também continua sendo filha de sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), com quem possui uma relação cheia de conflitos.

Metadata
Director Laís Bodanzky
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 31 agosto 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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