The Cincinnati Kid (A mesa do diabo) – 1965
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E começa agora o RASOP – Razão de Aspecto Series of Poker. Ao longo desta semana teremos críticas de filmes com a temática poker. Como Evento de Abertura escolhemos o clássico A mesa do diabo (The Cincinatti Kid),  um filme de 1965 que, se não for a primeira grande produção cinematográfica a falar sobre poker, é uma das primeiras, e das poucas a ter sucesso antes da recente popularização do jogo de cartas no século XXI.

O filme de Norman Jewison (diretor de O furacão) se destaca por sua simplicidade e pela qualidade de suas interpretações. A trama é linear, direta, e o diretor não perde tempo em abordá-la. Já na primeira cena percebemos a competitividade e ânsia por vitória de Eric The kid Stoner, personagem de Steve McQueen. Em poucos minutos entendemos que The Kid é um jogador de poker em ascensão, e que inevitavelmente terá que enfrentar Lancey Howard, The Man, tido como o melhor jogador de poker no momento, pelo status de melhor jogador.

Daí já deduzimos que The Kid The man irão se enfrentar em uma mesa de poker, e o grande clímax será uma mão em que um deles irá se impor sobre o outro. Mas, mesmo sabendo deste inevitável desfecho já de início, o filme surpreende em uma série de quesitos. Apesar de colocar toda empatia do público ao lado de The Kid, a batalha entre os dois jogadores não é uma batalha entre bem e mal. Lance Howard não é um vilão, muito pelo contrário, é uma das figuras com menos problemas morais de todo o filme. E o garoto de Cincinnati não é nem de perto um exemplo de moralidade. Torcemos para o protagonista por seu talento e juventude, apesar de seus graves problemas e dilemas.

A narrativa visual de Jewison se foca muito nas expressões faciais, com closes em momentos dramáticos, lembrando muitas vezes Sergio Leone e os filmes de spaghetti italiano. Em especial as expressões de Steve McQueen e Ann-Margret (que interpreta Melba, uma femme fatale que desafia a fidelidade de The kid) são exploradas. De certa forma McQueen duela mais com Ann-Margret do que com Edward G. Robinson (ator que interpreta The man).

Mas não se iluda, o filme não é um romance amoroso. Nesta história o jogo é o poker, mais especificamente 5 card Stud, uma modalidade de poker que já foi muito popular, e hoje é praticamente esquecida. As principais reviravoltas dramáticas acontecem ou nas mesas de carteado ou em eventos ligados a ela. E apesar de, como em quase todo filme que aborda o poker, o tema da trapaça estar presente, o filme faz um retrato razoavelmente positivo do jogo, se focando na habilidade dos jogadores, no estudo e disciplina. The KidThe Man são personagens heróicos não por terem sorte ou serem espertos trapaceiros, mas por jogarem limpo, confiarem nas suas habilidades para suplantar a tudo e a todos.

Os jogadores de poker de hoje vão estranhar muito de como o jogo é retratado. Na maioria das vezes notas de dinheiro são usadas ao invés de fichas, e os jogadores apostam valores além do que estava na mesa no início da mão. Não sei dizer se isto é uma distorção ou uma mudança do que acontecia na época para o que acontece hoje nas mesas.

Há um certo moralismo no desfecho final, mas é inegável o impacto dramático quando as duas últimas cartas ocultas são reveladas. O foco nos olhares dos personagens, o crescendo da trilha sonora, tudo nos prepara para uma bomba, que explode dramaticamente em um final digno de uma tragédia grega.

E o principal mérito é que toda a carga dramática que acontece enquanto as cartas e os montes de dinheiro correm pela mesa são percebidas até por quem nem sequer sabe o que é um flush. Obviamente o jogador de poker irá perceber mais coisas que o leigo, mas nada que seja essencial ao filme.

É importante ressaltar que algumas coisas irão incomodar a sensibilidade política de parte da audiência de hoje. O filme se passa em New Orleans da década de 1930, e há várias cenas que retratam a música negra e a comunidade negra em geral de uma forma bastante estereotipada. O que piora a sensação de estranheza para o público de hoje é que estas cenas pouco contribuem para o desenrolar da trama, servem mais como ambientação e para dar um ar meio de “pessoa vinda debaixo” para o protagonista, um talentoso jogador de poker, branco. Apesar do tom claramente racista para o público de hoje, estas cenas servem pelo menos para destacar a ótima canção tema do filme, composta por Ray Charles. Em especial a relação entre o personagem de Steve McQueen e um engraxate negro irá incomodar a plateia de hoje com mais consciência de questões raciais.

A forma como as duas personagens femininas principais são retratadas, e suas relações amorosas também irá incomodar muita gente. O Cincinnati Kid tem um conflito amoroso entre o estereótipo de mulher ideal (submissa, interiorana, recatada, moralista) e uma desequilibrada femme fatale com seu desviante comportamento de sensualidade, independência, etc.

Infelizmente o moralismo, o sexismo e o racismo presentes no filme retira um pouco (ou bastante) do seu brilho, mas mesmo assim A mesa do diabo tem qualidade suficiente para abrir o nosso RASOP, sendo o mais antigo dos filmes de qualidade que falam de poker.
Amanhã teremos o Main Event do RASOP, com a crítica de Cartas na mesa, tido por muitos, eu incluso, como o melhor filme de Hollywood já feito sobre poker.

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A Mesa do Diabo

Um duelo de gerações pelo título de melhor jogador de poker.

1965Duration unknown
Overview

Em New Orleans na década de 1930, Cincinnati Kid, um jovem jogador de stud poker que salta de um grande jogo para outro, e de uma garota para outra, é desafiado pelo lendário campeão nas cartas Lancey Howard para um jogo de pôquer com altas apostas.

Metadata
Director Norman Jewison
Writer
Author
Runtime Duration unknown
Release Date 15 outubro 1965

Nota do Razão de Aspecto

 

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