Autodeclarado – Bem mais que um filme sobre cotas.
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Antes de tudo gostaria de manifestar meu repúdio aos críticos do Razão de Aspecto, que estão demorando semanas para escrever críticas até mesmo para filmes “prata da casa”. Lamentável a desídia do crítico responsável… Nem direi quem fui.

Mas finalmente irei me debruçar sobre o mais recente documentário de Maurício Costa, Autodeclarado. Maurício Costa já havia dirigido suas câmeras para a política internacional brasileira nos governos de Lula em #EradosGigantes, e depois se desloca para o tema do transporte urbano com #UberXTáxis. Agora ele parte para um problema ainda mais complexo, que milhões de brasileiros sentem na pele.

Autodeclarado parte da questão das cotas raciais para universidades e concursos públicos e as Comissões de Verificação de Cotas mas não se restringe a isto. Na verdade usa o tema polêmico das cotas raciais para expandir o debate para o significado de termos como preto, pardo e negro. E com isto abordar um tema muito específico do racismo estrutural brasileiro, o colorismo.

A questão parece simples. Qual é a melhor pessoa para analisar quem sofre preconceito racial além dela própria? Em um mundo ideal de gente linda elegante e sincera a autodeclaração seria um instrumento mais que adequado para definir quem merece ser beneficiado por ações afirmativas. Contudo infelizmente isto abre espaço tanto para fraudes quanto para polêmicas, onde pessoas que muitos julgam não serem negras tentam o acesso as cotas.

A solução mais comum tem sido as Comissões de Verificação de Cotas, grupos criados para avaliar se o candidato seria “negro o bastante” para merecer usufruir de uma cota. O que pode até resolver a questão das fraudes, mas abre uma caixa de pandora. Existiria alguma forma objetiva de medir quem sofre descriminação racial? Ou será que buscar uma metodologia para tal não apenas seria uma distorção de como o preconceito realmente ocorre como, ainda pior, seria uma forma de oficializar o colorismo? Como evitar que uma Comissão de Verificação se transforme em uma espécie de Tribunal Racial?

Maurício Costa usa novamente a estrutura de intercalar várias entrevistas costurando um intertexto entre elas, e unificando isto com pequenas intervenções de um narrador, conduzindo o fio narrativo. Contudo, de modo diverso de seus outros documentários, aqui a identidade visual criada não é uma emulação das redes sociais. Escolha que fica clara já no título, que desta vez não é uma hashtag. Em Autodeclarado temos o uso da cor parda e da textura de papel pardo como tema visual, o que funciona não apenas em um nível estético.

A escolha dos entrevistados novamente foi bastante variada e rica. Temos acadêmicos, membros de Comissões de Avaliação, lideranças do Movimento Negro e pessoas alvo das cotas raciais. E ainda uma dramatização de como seria uma avaliação de uma candidata a cota.

Entre novidades e repetições estilísticas, Autodeclarado é o documentário mais ousado tanto em forma quanto em conteúdo de Maurício Costa. E também o mais bem realizado.

E espero que tenha o mesmo efeito sobre você que teve sobre meu pequeno círculo familiar. Minha companheira começou a questionar sobre qual grupo étnico ela e seus parentes realmente pertenceria. O que sem dúvida deve ser o melhor resultado possível de um documentário: nos tirar de nossa zona de conforto, e nos obrigar a rever nossos conceitos.

Um documentário para ver em grupos, e debater. Aguardo ansioso o próximo filme de Maurício Costa.

 

 

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Autodeclarado

Autodeclarado

Overview

O terceiro documentário de Maurício Costa é também o mais ousado dos três. Tanto em tema quanto em estética. E vai te fazer repensar sobre o racismo brasileiro.

Metadata
Director Maurício Costa
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 11 julho 2022
Actors
Starring: —

Nota do Razão de Aspecto

 

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