Antologia da Cidade Fantasma (2019) – Crítica
Antologia da Cidade Fantasma

[Há pequenos spoilers no texto] Antologia da Cidade Fantasma começa de um jeito abrupto: um acidente de carro ocasionando a morte do condutor. Logo vemos como este evento vai repercutir na pequena cidade de pouco mais de 200 habitantes, Iréné-les-Neiges, no interior do Canadá. Lidar com o luto para muita gente é algo complicado, em uma cidade dessa proporção coisa toma outro peso, “aqui nós não estamos acostumados com a morte” diz uma das personagens. Como se não bastasse, um novo elemento entra no jogo: Simon, o jovem que morreu, começa a aparecer para algumas pessoas e a coisa escalona de uma maneira que lembra o livro do Érico Verissímo: Incidente em Antares (com a diferença que aqui reina um aterrorizante silêncio). Sim, temos aqui um típico exemplo de realismo fantástico.

Vários outros elementos não vivos são quase personagens aqui: o frio, a cidade ou a consciência coletiva. Já para as figuras humanas temos uma diversidade de olhar (sobre elas e sobre o ocorrido). Eu senti uma sensação dupla: vontade de ficar ali e conhecer mais daqueles seres e ao mesmo tempo pegar o carro e sair correndo, algo que é feito ao longo do filme aliás….

Antologia da Cidade Fantasma

Filmado em 16mm, temos um visual sujo, por vezes “errado”, dando um ar que se solta no tempo ou que foi esquecido por ele – tal qual aquelas pessoas?. Esse fator se relaciona perfeitamente com o projeto, tal qual a fotografia dessaturada que tira a vida da tela. A quase ausência de trilha sonora não diegética também nos transporta para aquele não-lugar. Corroborando então o gélido isolamento que é colocado de uma maneira a deixar as relações um tanto tortas. Há uma tentativa dos personagens serem calorosos, mas em geral falhas. Vide o misto de “a vida continua” com o lamentar o ocorrido em plena comemoração do ano-novo.

Os tipos variam entre o irmão e pais do falecido que, por motivos óbvios, tem uma relação especial com o caso. Uma prefeita durona. Um casal com mais idade que só conversa entre si. Um casal mais jovem com anseios diferentes. E alguns poucos viventes externos que surgem quase de forma destoante dos demais ali presentes.

Há algumas estruturas que fogem do óbvio, não espere muitos jumpscares (os que tem são precisos e sem apelação), mas sensações esquisitas. O jeito como as aparições surgem ou o como os personagens reagem dá uma margem a mais do que normalmente se tem por aí. Muitas perguntas e poucas respostas dão o tom deste terror psicológico/alegórico – temos muita abertura temática. Além do lidar com os próprios fantasmas, pode-se discutir preconceito, maturidade, memória, depressão. Aliás, independente da qualidade, curiosa a quantidade e variedade de produções no gênero lançadas neste começo de ano no Brasil: O Farol, Ameaça Profunda, A Possessão de Mary, Os Órfãos, O Grito e agora Antologia da Cidade Fantasma.

Se no início a coisa tem um ritmo bem arrastado, condizente com o local, no terço final temos uma certa aceleração. E neste ato tudo tende a ficar mais explícito e até expositivo, mas sem perder completamente o viço. Há uma reunião que dialoga com a inicial que não precisava ser tão verborrágica. Ainda assim as pontas soltas são mais interessantes que esses pequenos escorregões.

Confira as nossas outras críticas dos lançamentos de 2020 no Brasil:

FILMES DE FEVEREIRO:

Dilili em Paris
Maria e João – O Conto das Bruxas
O Preço da Verdade – Dark Waters
Sonic
O Grito
Quem me Ama, me Segue!
Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa
A Chance de Fahim
Jojo Rabbit

FILMES DE JANEIRO:
Açúcar
E Agora? Mamãe Saiu de Férias!
Com Amor Van Gogh – Um Sonho Impossível
Testemunha Invisível
Bad Boys Para Sempre
Os Órfãos
Judy: Muito Além do Arco-íris
Adoniran, Meu Nome é João Rubinato
Frozen 2
O Caso Richard Jewell
O Farol
Ameaça Profunda
Adoráveis Mulheres
Kursk – A Última Missão
Retrato de uma Jovem em Chamas
Os Miseráveis
O Escândalo
Um Espião Animal
1917
A Divisão
A Possessão de Mary
O Melhor Verão das Nossas Vidas
Um Lindo Dia na Vizinhança

Not rated yet!

Répertoire des villes disparues

20191 h 37 min
Overview

Em uma pequena e distante cidade do interior do Canadá, um homem morre em um acidente de carro sob circunstâncias misteriosas. Enquanto os poucos habitantes do local permanecem relutantes em debater as possíveis causas da tragédia, a família do falecido e o prefeito Smallwood começam a perceber estranhos e atípicos eventos que mudam suas concepções de realidade.

Metadata
Director Denis Côté
Writer Denis Côté
Author
Runtime 1 h 37 min
Country  Canada
Release Date 24 março 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

O que você achou?

 
[Total: 0    Média: 0/5]