Animais Noturnos

No último final de semana de 2016, chega aos cinemas brasileiros Animais Noturnos, um excelente suspense escrito e dirigido por Tom Ford, com potencial para figurar nas listas de melhores filmes do ano. Embora não tenha integrado a lista dos 10 melhores filmes de 2016 do Razão de Aspecto, na minha lista pessoal, certamente ficará entre os dez melhores. Como fã de filmes de suspense, acompanhei as notícias sobre Animais Noturnos desde a sua produção até o seu lançamento nos grandes festivais de cinema europeus. A expectativa era grande e, felizmente, foi preenchida.

Animais Noturnos tem uma narrativa complexa, em forma de boneca russa. Há três camadas narrativas: o presente – no qual a protagonista insatisfeita com o seu casamento, interpretada por Amy  Adams, recebe do ex-marido, interpretado por Jake Gyllenhaal, um romance dedicado a ela, depois de quase vinte anos de afastamento; o passado, quando se revela a natureza da relação daquele casal e suas consequências;  e o romance de ficção lido pela protagonista, que, por meio de uma história sobre medo, morte e desesperança, simboliza os sentimentos do ex-marido. Cada uma dessas camadas tem uma atmosfera distinta, e as três convergem em um terceiro ato no qual a tensão acumulada ao longo das duas horas de projeção explode na cara do espectador, em um clímax espetacular e perturbador.

Animais Noturnos é tecnicamente impecável. A direção de arte compôs ambientes visualmente lindos, e o figurino por vezes clássico, por vezes vanguardista, a depender da camada narrativa de que faz parte, criam uma experiência visual ímpar- e não poderia ser diferente em um filme cujo diretor é um estilista de sucesso. A fotografia contrasta as três narrativas na paleta de cores e na escolha dos enquadramentos. Em alguns momentos, Tom Ford faz uso de alguns recursos visuais narrativos quase óbvios, mas mesmo assim eficientes, como na cena em que a protagonista não reconhece um quadro de sua galeria, e esse quadro apenas decifra toda a motivação da narrativa que estamos acompanhando.

A a montagem, por sua vez, é precisa e certeira, o que não é pouco para uma narrativa tão complexa. Nas mãos de um montador menos competente, Animais Noturnos teria grandes possibilidades de se tornar um filme confuso e fracassar como narrativa de suspense; felizmente, o filme tem potencial para ser um dos candidatos ao Oscar da categoria.

 

Para além dos méritos técnicos, o que faz de Animais Noturnos uma das grandes realizações do cinema em 2016 são as interpretações. Amy Adams se provou a grande atriz de 2016, com duas interpretações dignas de premiação -neste filme e em A Chegada -; Jake Gyllenhaal em mais uma grande trabalho (não entendo como a academia tem ignorado o talento do ator desde Os Suspeitos, O Homem Duplicado e O Abutre); e Michael Shannon nos entrega um verdadeiro e cru anti-herói de um noir moderno, em uma interpretação que pode merecer, no mínimo, a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Sem dúvidas, Animais Noturnos é um forte candidato às premiação do sindicatos dos atores para melhor elenco, por exemplo – categoria que não existe no Oscar.

 

 

Animais Noturnos funciona em todos os quesitos, baseado na direção segura  e no roteiro competente de Tom Ford, que mostrou amadurecimento como cineasta em seu segundo longa metragem. Acerta no tom, acerta na ousadia, acerta no visual, acerta na trilha sonora. Se se trata de um filme complexo, também se trata de um filme que faz pensar sobre as nossas escolhas e suas consequências e em como um passo em falso pode ser o caminho para a perdição.

Sentimos a a narrativa pulsar como o coração dos personagens.

 

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Animais Noturnos

20161 h 57 min
Overview

Há vinte e cinco anos, Susan Morrow deixou Edward Sheffield, o seu primeiro marido. Um certo dia, recebe na casa em que mora, com os filhos e o segundo marido, um embrulho que contém o manuscrito do primeiro romance escrito por Edward, ‘Nocturnal Animals’. Ele pede-lhe que leia o livro: Susan sempre foi a sua melhor crítica, justifica. Ao iniciar a leitura, Susan é arrastada para dentro da vida do personagem Tony Hastings, um professor de matemática que leva a família de carro para a casa de verão no Maine. Quando a vida comum e civilizada dos Hastings, é desviada de seu curso de forma violenta e desastrosa, Susan vê-se novamente às voltas com o seu passado, obrigada a encarar a própria escuridão e a dar um nome para o medo que corrói o seu futuro e que lhe vai mudar a vida”.

Metadata
Director Tom Ford
Writer
Author
Runtime 1 h 57 min
Release Date 4 novembro 2016

Nota do Razão de Aspecto

 

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