Ad Astra – Rumo às estrelas (2019)

Desde que estreou em longas-metragens em 1994 com Fuga para Odessa, o cineasta novaiorquino James Gray estabeleceu uma carreira de poucos (sete até agora) e bons filmes. Quatro desses filmes foram indicados à Palma de Ouro do Festival de Cannes (Caminho sem volta, 2000; Os donos da noite, 2007; Amantes, 2008 e Era uma vez em Nova York, 2013). Seu filme anterior foi a pérola Z: A cidade perdida (2016), que recebeu à época muito menos atenção do que deveria. Trata-se, portanto, de um diretor que passa bem acima da curva da mediocridade. Em 2019, Gray se reúne ao astro (ahá!) Brad Pitt e traz Ad Astra – Rumo às estrelas (e por que o subtítulo mesmo, Brasil?).

No filme, Pitt interpreta o astronauta Roy McBride, que é enviado para Marte com a missão de tentar contatar o cientista-chefe do projeto Lima, desaparecido há dezesseis anos perto de Netuno. Suspeita-se que o projeto possa ter relação com um fenômeno ondas energéticas que vem afetando naves e estações espaciais por todo o sistema solar. O detalhe, que move o foco do filme da ficção científica para o drama pessoal, é que o cientista perdido em questão é nada menos que H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), pai do personagem principal.

Do ponto de vista técnico, Ad Astra é um prazer absoluto. Efeitos digitais e visuais de altíssimo nível, uma fotografia que sabe explorar a vastidão do espaço, as amplas e monótonas paisagens lunares e o vermelho opressivo de Marte, ao mesmo tempo em que contrapõe os espaços fechados das naves espaciais e os closes e hipercloses de Brad Pitt. Não há que se surpreender com o primor visual do filme se levarmos em conta que o suíço Hoyte Van Hoytema, responsável pela fotografia, tem em seu currículo, por exemplo, Interestelar (2014) e Dunkirk (2017). Aposta fácil para indicação ao Oscar.

Outro que pode ser lembrado é o próprio Brad Pitt, que emplacou um 2019 excelente na carreira, e pode concorrer como ator principal por Ad Astra e como coadjuvante por Era uma vez em… Hollywood!. Seu Roy McBride é um astronauta contido, sempre com batimentos cardíacos controlados e a mente concentrada para as missões. Agora, vendo-se sob a possibilidade de recontactar o pai, McBride lentamente vai sendo afetado, e Brad Pitt passa essa desconstrução interna com olhos ligeiramente marejados em um semblante que tenta se manter impassível. À medida que vai sendo impactado pelas consequências de suas ações, Pitt/McBride junta obstinação, incômodo e frustração, tudo isso sem apelar para caras e bocas exageradas. O elenco traz ainda nomes de peso como Ruth Negga (da série Preacher) e Donald Sutherland. Mas o filme é todo de Pitt: a câmera passeia pelo macrouniverso do sistema solar e pelo microuniverso das expressões do ator.

Completam a lista de primores do filme o tratamento (edição e mixagem) do som do filme, bem como a trilha sonora de Max Richter. Esta última mistura vários elementos eletrônicos aos instrumentos tradicionais, e consegue, ao mesmo tempo, estar presente sem ser exageradamente intrusiva, além de apontar para trilhas futuristas dos anos 1970 e 1980 sem parecer um pastiche.

Descrito assim, Ad Astra parece ser uma obra-prima, o que está longe de ser o caso. Escrito pelo próprio James Gray, em parceria com Ethan Gross, no roteiro do filme residem seus pés de barro. A trama revisita o tema da afirmação da identidade pessoal frente ao peso da fama dos pais. Perceba que, em muitos momentos, Roy é reconhecido primeiramente como filho de Clifford do que pelos seus próprios feitos (talvez um ator mais novo coubesse melhor no papel de Pitt, nesse caso).  O roteiro traz ainda o clássico tema dos “pecados dos pais” – o quanto os filhos devem pagar pelos erros de seus progenitores. O problema aqui é que tudo é tratado de forma não muito original, sem trazer enormes novidades ou soluções particularmente instigantes. Há, ainda, vários momentos em que o filme verbaliza sentimentos que já estão sendo mostrados, o que é um ponto negativo. Mais para próximo do final, há um ou dois exageros na suspensão da descrença, e o encerramento é particularmente piegas.

O filme tem agradado à crítica mais do que ao público. Não vá ao cinema esperando um filme de ação passado no espaço: Ad Astra é um drama com pitadas de thriller psicológico. Seu ritmo é lento (mas muito longe de ser arrastado) e interessado mais no personagem central do que em qualquer peripécia. James Gray acrescenta mais um bom filme à sua carreira, mas ainda estamos longe de um novo clássico da ficção científica.

 

por D.G.Ducci

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Ad Astra

20192 h 04 min
Overview

O astronauta Roy McBride embarca em uma missão através do sistema solar para descobrir a verdade sobre su pai desaparecido em uma expedição 30 anos antes, que pode ameaçar o destino da humanidade.

Metadata
Director James Gray
Writer
Author
Runtime 2 h 04 min
Country  Brazil China United States of America
Release Date 17 setembro 2019

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