A favorita (The favourite, 2018)

 

A carreira do cineasta grego Yorgos Lanthimos, após começar a filmar em língua inglesa, apresenta apenas filmes de grande qualidade. Em O Lagosta (2015), temos uma ficção científica com um humor negro muito peculiar. Já em O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), Lanthimos conduz um filme de suspense incômodo – no melhor dos sentidos – mesmo para quem está acostumado com filmes do gênero.

Lanthimos agora dirige A Favorita (2018), baseado em fatos que ocorreram no início do século XVIII na Inglaterra. Superando os trabalhos anteriores, o filme arrebatou 10 indicações para o Oscar, incluindo as de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original (Deborah Davis e Tony MCNamara), Figurino, Desenho de Produção, Fotografia, Edição e Melhor Atriz – tanto na categoria principal com duas vezes na categoria de coadjuvantes. Essas indicações se juntaram a outras no BAFTA (“Oscar” britânico) e no Globo de Ouro (levou o de Melhor Atriz em Comédia, e podia ter levado mais….).

E o filme merece. Para onde se olha em A Favorita, vê-se qualidade cinematográfica. Na parte visual, o fato de ter sido filmado em locações de época (Hatfield House e Hampton Court) confere a grandiosidade e o requinte necessários. A escolha do fotógrafo Robbie Ryan por utilizar em boa parte do filme a luz possível na época (seja do sol entrando pelas janelas, seja de velas acesas) remete a Barry Lyndon (dissecado brilhantemente nesse post do Razão).  A figurinista Sandy Powell (indicada também este ano por O Retorno de Mary Poppins) acerta em cheio nos figurinos quase de época, com uso de alguns tecidos e cortes anacrônicos que combinam com a ligeira(?) estranheza causada propositalmente pelo filme.

Assim, em um visual que consegue, de fato, transportar o espectador ao século XVIII, o autor insere uma cena com uma coreografia de dança absolutamente caricata, uma trilha sonora pós-moderna propositalmente irritante em determinados trechos tensos da história ou uma cena em que uma das personagens repete um palavrão seguidas vezes – algo que provavelmente uma dama da Corte não faria. A Favorita é classificado como uma comédia, mas não se engane: não é um humor leve e de gargalhadas, e sim de pontadas ferinas e de desgraça alheia. Algumas escolhas de posicionamento de câmera são particularmente geniais, como, por exemplo, no diálogo entre as duas primas em que armas de fogo estão presentes na cena, em que a angulação dá a entender que uma delas está apontando a arma para a outra, refletindo o duelo pela influência junto à rainha.

Mas a possível causa principal do sucesso dessas escolhas… inusitadas… de Lanthimos está no elenco, principalmente o trio principal. Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone dão um pequeno show de interpretação, cada uma ao seu estilo. Colman interpreta a Rainha Anne, uma mulher frágil fisicamente, extremamente carente e aparentemente despreparada para governar. Quem de fato toma as decisões, interage com o Parlamento e tenta acalentar (e usar) a Rainha é Lady Sarah Churchill (Weisz), sua amiga de infância, mulher séria e que não se furta em rude com a monarca quando acha necessário. O equilíbrio sem mantém até a chegada de Abigail (Stone), prima distante de Lady Sarah, que é esperta o suficiente para começar a ascender nas preferências da Corte, com métodos nem sempre muito ortodoxos, e extremo carinho e doçura para com a Rainha. Cabe citar ainda Nicholas Hoult (a Besta de X-Men), no papel de Lord Harley, parlamentar Tory que tenta evitar que seja aprovada uma lei que aumentará os impostos em nome do esforço de guerra inglês contra a França no contexto da Guerra de Sucessão Espanhola.

As três atrizes não foram indicadas ao Oscar por acaso. Colman consegue demonstrar a decadência física de sua personagem ao mesmo tempo em que tem um arco de fortalecimento psicológico. Weisz e Stone defendem suas personagens com vigor e entrega, ainda que a primeira seja claramente uma atriz bem mais madura que a segunda.  Resulta que, embora ligeiramente mais longo do que precisaria, A Favorita dá vontade de ver mais e mais do trio principal em ação.

Algumas das curiosidades do filme incluem o fato de que lagostas e cervos são servidos para a Corte em determinadas cenas, animais que remetem a obras anteriores de Lanthimos. E há uma cena de Rachel Weisz mexendo em uma estante de livros que acariciará os fãs de seu trabalho em A Múmia (1999).

Lanthimos consegue uma proeza em A Favorita: ao mesmo tempo em que conta uma história baseada em fatos reais, razoavelmente fiel aos fatos (embora ignore alguns personagens) e extremamente fiel ao espírito, às disputas políticas e às tramoias da Corte Britânica da época, ele claramente satiriza e grita ao espectador de que estamos diante de um filme.  Não se trata de um filme de época respeitoso: a utilização da câmera olho-de-peixe, com sua imagem distorcida, em diversos momentos, invade a história para nos lembrar de quão bizarros podem soar, para nós, os hábitos daquele espaço e tempo, e, além disso, para nos colocar ao mesmo tempo próximos e distantes da história – algo que combina com o estilo do roteiro.

A cena final (sem spoilers aqui) pode dividir opiniões, por não ser a mais cartesiana das conclusões possíveis. Entretanto, não rouba de A Favorita sua qualidade como um dos melhores filmes de 2018, e merecidamente reconhecido nos diversos prêmios do ano.

E se você gosta de filmes envolvendo monarcas ingleses, não perca o especial do Razão de Aspecto: Que rei sou eu?

 

por D.G.Ducci

 

PS:  COM SPOILERS COM SPOILERS COM SPOILERS PÓS FIM DO FILME

 

-> para quem achou o final da personagem de Rachel Weisz triste ou injusto, saiba que ela deu à volta por cima e voltou a ter influência na Corte durante a dinastia Hannover. Ganhou seu palácio em Blenheim, tornou-se uma das mulheres mais ricas da Europa e morreu aos 84 anos. Isso o Lathimos não mostra!

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A Favorita

20182 h 00 min
Overview

Inglaterra, século XVIII. Na corte da rainha Anne, duas mulheres disputam as atenções da monarca enquanto o país está envolvido em uma guerra.

Metadata
Director Yorgos Lanthimos
Writer Deborah Davis, Tony McNamara
Author
Runtime 2 h 00 min
Release Date 20 novembro 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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