A Esposa (The Wife, 2018) – Crítica

Baseado no livro The Wife, da autora estadunidense Meg Wolitzer, A Esposa narra a história de Joan (Glenn Close), casada com o famoso escritor Joe Castleman (Johathan Pryce), que, logo no início do filme, é informado de que acaba de receber o Prêmio Nobel de Literatura. Quase tudo parece certo com o casal: eles estão juntos há anos, têm dois filhos e um neto em gestação. O prêmio eternizará Castleman, que claramente trata sua esposa com carinho e faz questão de anunciar a todos ser ela o amor de sua vida e grande inspiração para sua obra.

Ainda assim, o roteiro deixa transparecer aqui e ali que algo não está totalmente bem. O menor dos problemas é a relação de Castleman com o filho David (Max-filho-do-Jeremy-Irons), escritor iniciante e inseguro que entra em conflito com o pai. Mas, acima disso, Joan, apesar de excelente esposa e mãe, atenciosa nos detalhes de cuidado com o marido, parece viver algum incômodo. Os três viajam para Estocolmo para que Castleman receba o Nobel. Outro personagem que perturbará essa relação é Nathanael Bone (Christian Slater), jornalista que almeja escrever uma biografia – autorizada ou não – sobre o famoso autor, e apresenta, em diversos momentos, um comportamento de stalker.

Talvez essa seja a grande qualidade de A Esposa: além de revelar, paulatinamente, as razões do incômodo de Joan, bem como a história de como o casal se conheceu – em flashbacks não excessivamente numerosos, e muito importantes -, o filme deixa um ar de suspense sobre o que acontecerá de inesperado durante a viagem. São vários elementos colocados pontualmente no filme que constroem possibilidades de um final dramático (na melhor acepção do termo!). Tudo isso enquanto faz um estudo não exaustivo dos personagens. Aliás, é ótimo perceber que não há simplificação nas relações entre eles: são humanos com qualidades e falhas – e, embora a audiência tenda a simpatizar mais com determinado lado da história, naturalmente, não há uma vilanização rasteira do outro lado.

Mas talvez A Esposa resultasse em um filme bom, mas comum, não fossem as atuações do elenco – com a exceção de Irons, quase caricatural em boa parte do seu tempo em tela. Os atores que interpretam o casal na juventude – Harry Lloyd e Annie Starke (filha de Glenn Close na vida real!) dão conta do recado. O veterano Jonathan Pryce (o High Sparrow de Game of Thrones) interpreta com segurança um Castleman com várias camadas: espirituoso, mulherengo-mas-apaixonado-pela-esposa, glutão e impaciente com o filho. Sua dinâmica com a parceira de cena é perfeita. Mas o show é quase todo de Glenn Close – que, não por acaso, ganhou recentemente o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Movie Awards de melhor atriz.

Próximo ao desfecho do filme, há várias cenas em que Glenn Close extravasa todo o sentimento guardado ao longo de anos por sua personagem. Mas a genialidade da atriz não está aí: é quando  Close NÃO se expressa verbalmente que sua interpretação arrebata público e crítica. O silêncio, a abnegação e o estoicismo de Joan grita dores não ditas, sonhos calados e uma cumplicidade matrimonial em ruptura. A personagem exige diversos tipos de emoções, e Close mostra novamente ser uma atriz de repertório completo.

Mesmo sem oferecer grandes inovações ou ousadias, a direção do sueco Björne Runge apresenta boas ideias e sabe deixar o espaço principal para seu elenco aparecer. Há algumas cenas em que a câmera passeia junto o casal, como se o espectador estivesse presente naquela intimidade. Em outra, há uma escolha inteligente de enquadramento – com Joan à distância enquanto Castleman flerta com mais uma mulher. Em vários momentos, a câmera demora-se um pouco mais nos closes em Close (ahá!), mesmo após o fim de um diálogo, para mostrar sua reação ao que se passa ao seu redor.

Junte-se a isso a bom roteiro de Jane Anderson. Preste muita atenção nos pronomes usados por Castleman em duas cenas de celebração, que criam uma rima visual alegre e dolorida ao mesmo tempo, e na última cena de Glenn Close, que abre espaço para mais de uma interpretação – todas coerentes com o filme. A única derrapada é um flashback que mostra algo que um personagem acabara de contar, o que acaba soando redundante. Outro destaque vai para a trilha sonora de Jocelyn Pook (compositora nada menos que da maravilhosa trilha de De olhos bem fechados), que acompanha e dá intensidade ao filme, sem invadir ou antecipar a trama.

A Esposa prova que filmes dramáticos não precisam ser necessariamente arrastados ou recheados de melodrama. Inclui, sem intenções panfletárias, temas como o machismo, as relações familiares e a vaidade da fama. Com todos os elementos da produção mostrando competência e uma atriz principal em um dos melhores trabalhos de sua carreira, A Esposa garante lugar entre os favoritos do ano.

 

por D.G.Ducci

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A Esposa

20181 h 40 min
Overview

Joan Castleman (Glen Close) é uma mulher bonita e inteligente e durante anos foi a mulher perfeita. Sacrificou o seu próprio talento para ajudar o marido a seguir em frente na sua carreira. Joan é casada com o famosos escritor Joseph Castleman (Jonathan Pryce), que é laureado com o prémio Nobel da literatura. Ignorando as infidelidades do marido, Joan faz um pacto com Joseph que a leva a um ponto sem retorno.

Metadata
Director Björn Runge
Writer
Author
Runtime 1 h 40 min
Release Date 2 agosto 2018

Nota do Razão de Aspecto

 

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