A Comédia Divina (2017) – Crítica

A Comédia Divina, além da brincadeira com o livro de Dante Alighieri, baseia-se fundamentalmente no conto de Machado de Assis intitulado: “A Igreja do Diabo”. Só pelo título já temos uma quase sinopse: o Diabo insatisfeito sobre como andam os negócios resolve fundar ele mesmo uma igreja na Terra.

A premissa (do conto e um pouco no longa) se desdobra em um estudo das atitudes da humanidade e as repercussões do bem e mal. No filme, contudo, vemos uma romantização com triângulos amorosos, discussões rasas e uma história sem sutileza.

As melhores frases e a boa ideia central carregam um mérito externo, o do texto machadiano. O filme consegue apenas arranhar no trato das qualidades. As angústias do tinhoso ficam na superfície e as repercussões na humanidade são às vezes ausentes. No lugar destes arcos vemos a história do relacionamento de Raquel (Monica Iozzi) com Lucas (Thiago Mendonça) e Mateus (Daton Vigh), além de personagens secundários que estão lá para estar lá….

Essa opção causa um descompasso que fica claro nos três atos: o começo é charmoso, inteligente, instigador. Já o final se rende a clichês de uma comédia romântica genérica e a virada reflexiva perde toda a força. O meio beira um misto de vazio com repetição de fórmulas e ideias.

Na abertura temos uma série de entrevistas com populares, algumas delas parecendo/sendo reais, onde o povo é sondado sobre a presença do diabo na Terra. As respostas são bem simpáticas e divertidas. Mas mesmo no promissor início vemos algumas escorregadas. O prólogo ágil e que contextualiza sem mastigar logo se trai e cai na narração mais banal – e sem fundamento. Tire esse elemento. Será que o público não entenderia o que está se passando? Ou então a presença da narração acrescenta algo?

No final, há um erro semelhante. O personagem do ascensorista aguarda uma resposta do diabo e tal questão poderia ou ficar no ar ou ser apontada de forma mais sutil. Porém ela vem com todas as letras – no caso literalmente, já que se trata de palavras cruzadas.

No geral, as piadas se pautam muito em trocadilhos com o divino e com o diabólico. Apesar de pouco criativas, elas funcionam dentro desse tipo de humor. Quando a coisa envereda mais para as desventuras dos personagens e caras e bocas dos atores, aí caímos em uma mesmice não tão bem-vinda.

Mas o que atrapalha mesmo é o ritmo. Muitos acontecimentos se atropelam ao mesmo tempo que há um arrastar inexplicável para o gênero. O segundo ato poderia ser muito enxugado ou reformulado. Há duas cenas do diabo pregando na igreja que acabam redundantes. E há muitos movimentos que soam como elipses estranhas. Denotando pouco cuidado na montagem. Com isso, seja a piada ou seja o arco dramático, nada consegue se estabelecer no tom.

O visual também tem inconsistências. Os efeitos, principalmente do fogo, soam falsos e gritam toda vez que aparecem. O recurso poderia ser melhor trabalhado ou sequer existir. Já o design de produção merece elogios. Também artificial, é verdade, e com um nível de detalhe simples, porém estiloso e condizente com a proposta. O céu, a igreja e o inferno merecem destaque neste sentido.

A ideia de adaptar livremente o conto foi boa, mas faltou fôlego. A Comédia Divina não é um desastre completo, contudo o filme foi me perdendo e se rompeu por completo no final. Boas ideias jogadas fora e um excesso de personagens, que deveriam ter sido jogadores fora, limitam muito o resultado.

 

 

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A Comédia Divina

Overview

Em crise, um programa jornalístico demite uma repórter e em seu lugar contrata Raquel (Mônica Iozzi), jornalista recém-formada, caso do âncora garanhão, Mateus (Dalton Vigh). Incomodada pela convivência com Lucas (Thiago Mendonça), um inconformado ex-namorado que trabalha na produção, ela vê sua carreira decolar graças a um furo: o Diabo (Murilo Rosa) acaba de abrir sua própria igreja na Terra.

Metadata
Director Toni Venturi
Writer
Author
Runtime
Country  Brazil
Release Date 12 outubro 2017

Nota do Razão de Aspecto

 

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