1917 (2019) – Um prodígio técnico de Sam Mendes

O cineasta britânico Sam Mendes estreou em longas metragens em 1999 e de cara já levou o Oscar de Melhor Diretor, com seu clássico instantâneo Beleza Americana. Seguiu emendando bons filmes, como Estrada para a Perdição (2002), Soldado Anônimo (2005), Foi apenas um sonho (2008),  e dois exemplares da franquia 007: Skyfall (muito bom) e Spectre (mais fraco). Agora foi a vez de Mendes que já foi casado com minha amada Kate Winslet voltar à lista de melhores do ano com 1917, filme inspirado em relatos de seu avô Jaca Palladium Alfred H. Mendes durante a Primeira Guerra Mundial. Como grande diferencial do filme, a promessa de uma forte experiência de imersão da plateia no ambiente retratado.

A ideia de levar à audiência para dentro do combate não tem nada de nova. Já no primeiro prêmio Oscar, em 1927, o filme Asas levou o prêmio principal, em grande medida pela capacidade do diretor  William A. Wellma, veterano piloto de guerra, de transmitir a excitação dos cockpits e das batalhas aéreas. Em 1998, o diretor Steven Spielberg apresentou ao mundo cerca de vinte e quatro minutos que mudariam a experiência da guerra no cinema: a sequência de abertura de seu O Resgate do Soldado Ryan jogava o espectador em meio ao caos do Dia D da Segunda Guerra Mundial, cercado de tiros, explosões, amputações, soldados pegando foto e passando mal – além de toda a mistura de insanidade e bravura dos envolvidos.

Em seu primeiro filme também como roteirista, Mendes vai um pouco além e se aproveita da tecnologia existente e da nova parceria com o virtuoso fotógrafo Roger Deakins (“apenas” de Blade Runner 2049, Sicário e outras obras visualmente incontestáveis) para convidar o público a acompanhar, em tempo real e com apenas um corte de câmera evidente, a jornada de dois soldados britânicos com a missão de entregar uma carta com instruções para que determinado ataque seja cancelado, sob risco de condenar todo um batalhão a ser massacrado sob os tiros alemães.  É dessa opção narrativa – dos longos planos-sequências – que nasce tudo o que o filme tem de especial, mas também de problemático (o quê, felizmente, não é muita coisa).

Contando com curtas participações de grandes atores britânicos da atualidade (Colin Firth, Andrew Scott, Mark Strong, Benedict Cumberbatch e Richard Madden) como cerejas no bolo do elenco, os dois soldados protagonistas – vividos por Dean-Charles Chapman (o Tommen de Game of Thrones) e George MacKay (o Bodevan de Capitão Fantástico) – partem de sua própria trincheira, atravessam a temida “Terra de Ninguém” (área entre os territórios dominados por exércitos oponentes na Grande Guerra) e seguem em sua missão.  Com dez ou quinze minutos de filme, já se tem a noção de que 1917 merece um grande reconhecimento e todos os elogios possíveis pelo planejamento da minucioso da produção, pelo apuro técnico e pelo sucesso frente às dificuldades de se filmar os longos segmentos e disfarçar os cortes de câmera.  O uso do falso plano sequência é manjadíssimo no cinema, e talvez o filme mais famoso a utilizar a técnica seja Festim Diabólico (1948), do gênio Alfred Hitchcock. Mais recentemente, Birdman (2015) de Alejandro González Iñárritu usou a mesma proposta de filmagem. Mas Mendes e Deakins fazem algo muito mais desafiador, que é utilizar o mesmo truque a céu aberto, com as mudanças de luminosidade do dia para a noite e de volta para o amanhecer, e com uma movimentação de câmera e atores muito mais complexa.

Essa característica do filme pode gerar efeitos distintos, e talvez resida justo aí o maior ou menor impacto de projétil no público. Por um lado, pode-se mergulhar na proposta narrativa e vivenciar o que é mostrado na tela de forma intensa, mais como uma experiência sensorial do que propriamente devido a uma trama super elaborada. Por outro lado, passada a fascinação estética inicial, o foco na história pode acabar sendo desviado para a coreografias da câmera (muito mais presentes que em filmes tradicionais) e para os possíveis cortes disfarçados – ou seja, para o COMO as coisas estão sendo mostradas, e não para as coisas em si. Outras possibilidades residem no gosto pela linguagem de videogames com a qual o filme flerta – que pode encantar ou ao longo de quase duas horas, cansar quem assiste.

Com todo esse show técnico, resta saber se 1917 é um filme datado tem alma, além de um cadáver visual bonito e das mágicas de edição. A resposta é positiva, com ressalvas. Mendes consegue, por exemplo, dizer muito sobre a realidade da Primeira Guerra nos detalhes de composição de ambientes, e mostrar a precariedade e a falta de higiene das trincheiras, a desolação das áreas mais afetadas e a beleza macabra dos fogos da guerra na noite europeia. Do ponto de vista humano, há momentos dedicados ao temor e à coragem, à perda e à continuidade da vida mesmo em meio à mortandade desenfreada.  Em um dos encontros ao longo do percurso, a plateia aprende em poucos minutos sobre o companheirismo dos soldados e sobre a existência de diversas etnias lutando ombro a ombro pelos Aliados. Tudo isso é mostrado sem ser explicado de forma redundante pelos diálogos, o que é sempre bem-vindo.

Por outro lado, há pelo menos dois ou três momentos em que há uma dispersão/desconcentração relativamente alongada por parte de um dos protagonistas, além de escolhas de roteiro que facilitam ou dificultam certas resoluções mais do que a verossimilhança recomendaria.  Como exemplos, temos um regimento motorizado que chega sem fazer barulho ou certos tiros fáceis errados por parte de soldados alemães [que me lembraram do porquê do termo stormtrooper ter surgido nessa época]. No cômputo geral nada disso prejudica muito o resultado final, mas tira a nota máxima do filme.

Outro ponto a ser pensado é a trilha sonora de Thomas Newman (compositor indicado nada menos que 15 vezes ao Oscar, sem ter levado a estatueta ainda). A música ajuda a dar um clima épico a algumas passagens do filme, criando peso dramático em cenas que talvez fossem apenas de transição entre um encontro e outro da jornada. Entretanto, fica a dúvida se a imersão proposta por 1917 filme não ganharia ainda mais intensidade caso não houvesse uma trilha sonora extradiegética (ou seja, de fora do ambiente da história).

Embora não retrate qualquer das principais batalhas reais da Primeira Guerra Mundial (como Verdun ou Somme, ocorridas no ano anterior ao retratado), 1917 entra na lista de filmes obrigatórios para os interessados em filmes de guerra, em especial sobre um conflito bem menos retratado no cinema do que a guerra mundial de 1939 a 1945. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático, para surpresa de alguns, o novo filme de Sam Mendes é ao mesmo tempo um homenagem familiar e um prodígio técnico, ainda que lhe falte um algo a mais para chegar a ser uma obra-prima.

 

por D.G.Ducci

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1917

20191 h 59 min
Overview

Durante a Primeira Guerra Mundial, dois soldados são incumbidos de a missão difícil de entregar uma carta com instruções que evitarão o massacre de um regimento Aliado.

Metadata
Director Sam Mendes
Writer
Author
Runtime 1 h 59 min
Release Date 10 dezembro 2019

Nota do Razão de Aspecto

 

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