Sandman – Sonhando no streaming

Foram quase 3 décadas de espera, com vários projetos de séries ou filmes iniciados, e nunca finalizados. Mas no dia 05 de agosto de 2022 finalmente tivemos a estréia de uma série baseada na história em quadrinhos Sandman. 

Para os quadrinhos Sandman é uma referência absoluta, a se colocar lado a lado com qualquer outra obra do gênero. Ao longo de 7 anos e 75 revistas acompanhamos, nos anos 80 e 90, o desenrolar de um épico moderno. Indo para o lado pessoal, Sandman foi a obra que me permitiu descer de minha falsa maturidade de um quase adulto de quase vinte anos e me reensinar a ler quadrinhos. Durante uns poucos anos eu quis me convencer que quadrinhos eram uma coisa infantil e tola, e que eu deveria superar esta baixa literatura de super-heróis unidimensionais e roteiros ingênuos e buscar narrativas elaboradas.

Felizmente a fase de aborrecência durou pouco. Em 1993 Prelúdios e Noturnos caiu no meu colo, e minha empáfia contra quadrinhos ruiu por terra. Graças a rica cosmologia criada por Neil Gaiman eu acabei voltando aos quadrinhos, e me permitindo conhecer clássicos imortais como Watchmen, O cavaleiro das Trevas, Maus ou Do inferno. Um novo mundo se reabriu para mim.

Devido a epifania que Sandman causou em mim, jamais serei capaz de ter qualquer coisa similar a objetividade ao analisar versões ou adaptações deste clássico. Mas de qualquer forma tentarei usar a oportunidade que esta adaptação da Netflix me oferece para tentar entrar novamente no Sonhar. E quem sabe incentivar a mais pessoas atravessarem os portões de marfim.

Para quem não conhece Sandman, a história se passa em um universo de fantasia similar ao mundo moderno mas onde existe magia, anjos, demônios, criaturas mitológicas e deuses. E além de tudo isto sete Perpétuos, entidades que representam e coordenam atividades, impulsos e características humanas: Destino, Morte, Sonho, Desejo e Desepero, Delírio e mais um (que por enquanto prefiro não nomear). O protagonista da série seria o Sonho, responsável pelos mundos que visitamos enquanto dormimos, bem como por nossas fantasias e medos. Quando este Sonho é aprisionado por um mago humano, quase por acaso, a saga começa.

A participação de Neil Gaiman (o roteirista criador de tudo isto) na produção da série garantiu a preservação do estilo narrativo, nada linear e as vezes beirando o caótico. E mesmo estando apenas na primeira temporada já podemos esperar aquelas pontas narrativas que começam em um episódio e permanecem no subterrâneo para voltar temporadas depois. 

Muito da identidade visual foi preservada, o que inclusive pode fazer alguns estranharem tantos sobretudos e cabelos questionáveis para quem não foi um jovem nos anos 1990. Mas graças a isto a série tem forte identidade visual e simbólica. Contudo não pense que a série é de um saudosismo oitentista, na verdade é bem moderna. Inclusive fiquei positivamente surpreso sobre como uma narrativa de 30 anos envelheceu tão bem. Para quase tudo 1990 ou 2020 é mero detalhe.

A qualidade de figurinos, cenários, objetos cenográficos e efeitos especiais está bem alta, com algumas poucas mas notáveis excessões. Destaco negativamente o rubi e as perucas de alguns personagens. E a extremamente preguiçosa caracterização de Desespero. No meio de entidades cosmológicas e muitas belas estranhezas Desespero foi… banal. Mas apesar de alguns momentos dissonantes, a qualidade de produção é bem alta. Destaques positivos para os Portões do Sonhar e o Elmo do Lorde dos Sonhos. 

A escolha do elenco foi bem complexa e não sem polêmicas, incluindo algumas mudanças de gênero, de cor de pele e etnia. Mas diria que nenhuma das possíveis polêmicas deve perseverar depois da estréia, pois nenhuma das mudanças representou qualquer rompimento com o material original. O que talvez pode vir a incomodar os mais puristas foi o aumento na relevância do Coríntio. Mas ao meu ver exceto por um diálogo desnecessário, esta mudança da personagem foi para melhor.

Quanto a qualidade dos atores, há muito espaço para elogios, e quase nenhum ponto baixo. Tom Sturridge conseguiu dar densidade e inumanidade nos tons corretos para o Sonho. E a similaridade visual muitas vezes impressiona. Boyd Holbrook esta um pavoroso pesadelo, em especial por seus quase sorrisos. A expressividade de seus lábios compensa a dificuldade imposta pela ausência dos olhos. 

Mas as interpretações que merecem os maiores elogios são as de Jenna Coleman, Stephen Fry e principalmente David Thewlis. Ouso dizer que o John Dee de Thewlis transformou o personagem mais fraco de toda a franquia em um dos mais interessantes. Se nos quadrinhos John Dee era um clássico supervilão desconectado com os demais, na série se transformou em uma loucura apavorantemente humana, vítima e algoz de sua própria miséria. Espero ansioso para ver mais de Kirby Howell-Baptiste. O pouco que ela aparece nesta primeira temporada me deixou ansioso para ver nas próximas.  O mesmo posso dizer de Mason Alexander Park, que nos entrega Desejo com uma poderosa androginia, no ponto certo do vale da estranheza entre o sensual e o odioso. Desejo por mais Desejo.

Infelizmente Gwendoline Christie não ficou a altura de seu papel. A presença física com certeza ajuda, mas seu Lúcifer Morningstar naufragou entre a simpatia e crueldade, não conseguindo alcançar nenhuma das duas características mais fortes da personagem. A peruca esquisita também não ajudou.

A primeira temporada abrange os dois primeiros arcos do quadrinho, Prelúdios e Noturnos e Casa de Bonecas. O episódio de transição foi o episódio 6, O som de suas asas. Para mim é o melhor episódio da temporada, mas é uma quebra um tanto brusca da narrativa que pode incomodar alguns. Os primeiros 5 episódios são centrados no aprisionamento, escape e recuperação do Sonho. Os últimos 4 episódios são bem mais fantasiosos, simbólicos e míticos. E no meio uma fábula sobre a relação entre a Morte, o Sonho e a humanidade. Se esta transição te causar estranheza, eu sugiro que dê tempo ao tempo. É parte do estilo narrativo de Gaiman, e no segundo ou terceiro momento que ele fizer isto, você passará a gostar.

Para finalizar, fica a recomendação: se você é fã dos quadrinhos, assista. É a adaptação que Sandman merece. Se não conhece os quadrinhos, aproveite. Veja a série, e depois leia os quadrinhos. Se não gosta dos quadrinhos, sugiro mudar de opinião. Lamento, é a única solução.

Nota do Razão de Aspecto

 

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