Ruptura (Severance): Uma estranha mistura de Dark Mirror com Dilbert
Ruptura (Severance): Uma estranha mistura de Dark Mirror com Dilbert

Ruptura (Severance)

Imagine se você pudesse, ao sair de seu trabalho, esquecer completamente o que aconteceu durante o seu expediente? Todo o estresse, todos os conflitos profissionais, a hipocrisia dos colegas, as fofocas e políticas de escritório, as traições, etc. Parece tentador? Talvez você seja um dos poucos felizardos que trabalham em um ambiente agradável e que se sentem realizados com aquilo que faz durante seu expediente, mas para parte significativa da população atual seria uma benção se conseguíssemos apagar de nossas mentes o que acontece durante nossos trabalhos.

Um dos maiores conflitos do trabalhador moderno é conciliar o trabalho e a vida pessoal. E muitos de nós acabam por tentar uma ruptura, criando duas personas, uma que trabalha, a outra que vive. Lembro quando eu escolhi a carreira que até hoje paga as minhas contas, que adotei o lema “eu não sou o meu trabalho” como um símbolo desta escolha.

A nova série da Apple TV, Ruptura, é uma visão literal desta divisão. Em um futuro próximo, a empresa de tecnologia Lumon oferece a seus colaboradores uma experiência de trabalho única. Através de um implante de um chip em seu cérebro, sua memória é completamente apagada no início do seu expediente e restaurada no final.

O resultado? Uma mistura da tirinha Dilbert com a paranóia tecnológica de Black Mirror. Do lado Dilbert temos um ambiente de trabalho completamente desumanizado, com relacionamentos infantilizados, total irracionalidade e uma espécie de culto a empresa. Além disto, a atividade laboral em si é sem nenhum sentido aparente, e as recompensas oferecidas vazias e sem sentido.

Mas por detrás desta superfície temos o uso da tecnologia por parte de uma grande corporação que abusa da tecnologia para atingir fins obscuros, não se importando com as vidas que inevitavelmente serão destruídas no processo.

E como pano de fundo temos um interessante dilema acerca do que constitui a nossa identidade, o que faz de nós indivíduos. Se você tivesse duas vidas separadas, sem nenhuma memória uma da outra, seriam uma ou duas pessoas? Quão próximo ficamos de transtornos de personalidade ao criarmos duas pessoas?

A construção dos cenários é de um nível de detalhismo assombroso. Os escritórios minimalistas e quase monocromáticos, os corredores labirínticos e o visual ao mesmo tempo limpo e retrô tem forte contraste com os ambientes escuros do que acontece fora da empresa.

O elenco é um grande destaque. Entre os nomes de gabarito temos John Turturro e Christopher Walken. Mas o destaque mesmo fica por conta de Adam Scott e Britt Lower. Adam nos entrega um Mark em aparente harmonia com seu emprego através da anulação de si mesmo. E o contraponto é feito pela estagiária Helly, interpretada por Britt Lower. Por ter acabado de ser contratada (e sofrer a Ruptura) Helly acaba por servir de um exemplo dos traumas que este ambiente de trabalho proporciona.

A direção é muito cuidadosa quanto a detalhes visuais e faz uma exposição calma mas sempre tensa da trama, em um crescendo que explode no nono episódio. Contudo pode ser que alguns sintam uma certa lentidão nos primeiros episódios, até que o lado mais sombrio da história apareça. Mas com certeza vale o investimento. Se a excelente metáfora do trabalho moderno como mecanização do trabalhador lhe parecer cansativa, persista até as partes mais aceleradas.

Nota do Razão de Aspecto

 

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