Westworld 3.8 – Crisis Theory (resumo e crítica do episódio e da temporada)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

OITAVO EPISÓDIO DA TERCEIRA DE WESTWORLD

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A terceira temporada de Westworld se encerrou com o episódio “Crisis Theory”, que teve um gostinho de despedida da personagem Dolores – ainda que saibamos que existem várias formas de os roteiristas trazerem a anfitriã original da Delos de volta, seja como uma inteligência artificial, seja com alguma outra cópia, entre tantas já feitas.

Já no recordatório inicial, relembramos várias cenas-chaves da história de Dolores – do momento simbólico de ruptura de seu loop, ao matar a mosca; as conversas com Ford sobre heroísmo e vilania, passando pela abertura do Além do Vale, pela criação do novo Bernard, pelo enlace com Halores, pelo recrutamento de Caleb e pelo duelo com Maeve no capítulo anterior. As primeiras cenas do episódio propriamente dito mostram brevemente a criação de Dolores e sua crença original, ressaltada mais de um vez neste finale, de que prefereria ver a beleza das coisas, ao contrário de muitas pessoas. Essa crença foi sendo desconstruída à medida que o tempo passava e que era exposta a diversos novos papéis e ao comportamento brutal dos humanos.

De volta ao presente, o Rehoboam identifica divergências por todos os cantos do planeta. William atira em Stubbs e foge, quando homens da polícia de São Francisco chegam ao posto e gasolina. O líder desses homens supreendentemente se revela como sendo Lawrence – ou o El Lazo, de temporadas anteriores, que Bernard deduz ser mais uma cópia de Dolores. Essa versão revela a Bernard que ele, embora se recuse, já está tendo um papel fundamental – o mais importante, na verdade – nos planos da anfitriã original da Delos. Lawrence diz, ainda, que Bernard deve se encontrar com “ela” antes de seguir sua jornada.

Deduzindo que Lawrence se referisse à própria Dolores, Bernard segue para o endereço por ele fornecido. Ao chegar ao local, porém, Bernard encontra Lauren, esposa de Arnold – o humano do qual foi baseado. Arnold-Bernard desabafa sobre os sentimentos e os pensamentos a respeito de seu filho Charlie, morto ainda na infância. Envelhecida e já com a memória afetada, Lauren demonstra empatia e ajuda o anfitrião a fechar um dos capítulos mais difíceis de sua vida.

A partir daí, Bernard está pronto para uma nova jornada. Ele volta ao quarto de hotel que divide com Stubbs, deixa o amigo em uma banheira com gelo para retardar os efeitos dos ferimentos sofridos por ele e se prepara para uma misteriosa jornada. Ele entende que o fim do mundo aconteceria de qualquer forma, e que Serac e o irmão apenas atrasaram o processo. A chave para o Sublime, o mundo do Além do Vale, esteve desde o início da temporada alocada na pérola de memória de Bernard. Ele pretende ir até lá e encontrar uma resposta para a pergunta: o que acontece após o fim do mundo?

Após sua fuga, William se encontra com seu advogado e é informado de que, embora ainda mais rico devido à venda da Delos, seus recursos estão embargados, já que oficialmente ele está morto. O Homem-de-Preto instrui seu advogado a encontrar uma solução e conseguir uma lista das instalações da Delos ao redor do mundo. Ele pretende dar continuidade à sua autoimposta missão de “salvar o mundo”, que envolve destruir todos os anfitriões.

Sebastian, capanga de Serac, descobre que a pérola de memória de Dolores foi retirada de seu corpo desativado pelo pulso eletromagnético. Após reativar Maeve, o dono da Incite (e agora da Delos) a instrui a capturar Dolores. Serac deseja conectá-la ao Rehoboam, de forma a recuperar os dados a respeito das mentes dos usuários da Delos, coletados pela empresa pelas atividades do Setor 16. Sebastian consegue recuperar imagens da invasão em Sonora e identificar Caleb como o aliado de Dolores que está com sua pérola de memória.

Caleb, de posse da pérola de memória de Dolores, segue até um endereço fornecido pelo assistente virtual fornecido por Sebastian. Lá – em uma filial de Los Angeles da Destilaria Itaidôshin, mesma empresa-fachada de Musashi na Ásia – Caleb encontra uma versão de Dolores desmontada e de tecnologia anterior, à qual prontamente remonta.   Finalmente ele questiona Dolores sobre sua identidade, e ela responde de forma dispersa, dizendo ser alguém a quem foi dado um papel que ela não desejava mais interpretar. Ela revela que sabe tanto sobre Caleb porque ele foi detalhadamente estudado pela Delos no parque cinco da empresa, reservado para treinamento de tropas do Governo com alvos “vivos” – no caso, anfitriões. Ao reiterar a ideia de que Caleb foi manipulado pelo sistema e usado até que não tivesse mais serventia, Dolores instiga ainda mais em Caleb o sentimento de vingança da humanidade contra corporações como a Incite, capazes de dificultar o exercício do livre arbítrio por parte dos humanos.

Reunidos a outros homens contratados como apoio, Dolores e Caleb seguem em direção à Incite, para dar continuidade aos planos elaborados por Salomon. A anfitriã continua tentando pressionar Caleb a assumir um papel de liderança na revolta dos humanos.  O grupo é então abordado por um holograma de Halores, que confronta Dolores sobre seu abandono à própria sorte e sobre o assassinato da família de Charlotte Hale. Mercenários contratados por Halores entram em conflito com o grupo de Dolores, que consegue escapar após comprar a traição de um dos atiradores.

Após derrotar vários policiais do batalhão de choque, Dolores, ferida, é, então, confrontada por Maeve, em uma reedição do duelo do episódio passado. O novo corpo de Dolores, de um modelo mais antigo, paradoxalmente a ajuda a se defender dos golpes da katana da adversária, mas não da influência que Halores, cujo holograma aparece novamente e aparenta ter controle sobre os movimentos da anfitriã original. Imobilizada, Dolores passa a ser presa fácil para Maeve.

Enquanto uma grande revolta popular se espalha pela cidade – o que demanda até a utilização da nova unidade de controle de tumultos da Delos – Caleb reencontra Giggles e Ash e outros homens contratados por Dolores, e passa a buscar uma forma de invadir a sede da Incite, protegida por policiais. Caleb consegue roubar um transporte aéreo da polícia e derrotar os seguranças da empresa. Prestes a desativar o Rehoboam, Caleb é interrompido por Sebastian, que acaba derrotado. Maeve aparece e o conduz à presença de Serac e… Dolores!

Dolores fora conectada ao Rehoboam, que mapeou sua memória e a trouxera de volta à consciência. Após insistir para que ela fornecesse os dados do Projeto de Imortalidade da Delos, Serac ordena que o Rehoboam verifique detalhadamente a memória da anfitriã original e delete, se preciso, tudo o que não fosse relacionado aos dados procurados. Caleb e Serac discutem sobre quem é o verdadeiro vilão em uma sociedade humana, sendo que o dono da Incite condena a ilusão de livre arbítrio alimentada pelos outliers. Serac revela, então, que Caleb foi também usado por Dolores, e que o resultado da estratégia de Solomon seria a extinção da raça humana, não a conquista da liberdade.

Com seus poderes de manipulação de equipamentos eletrônicos, Maeve percebe que Serac não o grande estrategista e homem de negócios que aparenta. Em grande medida, ele não passa de um instrumento repetidor de falas e pensamentos do Rehoboam. Serac argumenta que, para superar o caos, prefere ouvir e obedecer ao supercomputador.

Nos último setores da memória de Dolores, o processo de escaneamento encontra dificuldades por não haver um esquema minimamente ordenado de criptagem dos dados. Maeve resolve interferir, estabelece uma conexão mental com Dolores e descobre que a chave para as informações desejadas por Serac não se encontram ali. Serac pressiona Caleb para que revele o paradeiro desses dados. Sem sucesso, ele manda executar o peão de Dolores e finalizar o apagamento da memória da anfitriã original.

Neste momento, há uma oscilação de energia no Rehoboam. Por meio de sua conexão mental, Dolores e Maeve conversam, em um cenário que lembra o velho parque Westworld. A primeira recorda que viu muita desordem, dor e horror nos anos como anfitriã da Delos. Maeve concorda que talvez os humanos não devessem mesmo existir, mas não caberia aos anfitriões decidirem. Dolores admite que estava dividida entre dois impulsos iniciais, mas acaba optando por fazer o que sempre afirmou, e preferir ver a beleza das coisas. Ela convence Maeve a ajudá-la a criar um mundo verdadeiramente livre, para pode trazer todos os anfitriões de Além do Vale de volta. Quanto aos humanos, eles devem terminar de matar uns aos outros, ou encontrarem a beleza que foram capazes de ensinar aos anfitriões.

De volta ao mundo real, Maeve derrota Serac e seus homens e escapa da Incite com Caleb, não sem antes explicar a ele que Dolores o escolhera não pela sua capacidade para a violência, e sim pela sua capacidade de escolher fazer o certo. Dolores se afeiçoou a Caleb porque, em um dos treinamentos no parque cinco, ele exerceu seu libre arbítrio e desencorajou outros soldados a abusarem as anfitriãs que participavam das simulações. Quanto a Serac, ele se supera e apavora ao descobrir que não mais consegue interagir com seu precioso Rehoboam. Caleb é quem toma as decisões agora, sua primeira escolha é ordenar que o supercomputador apague totalmente a própria memória, para que todos os humanos tenham direito às próprias escolhas. Quanto a Dolores, parece ser o fim da sua jornada – pelo menos até a próxima temporada!

Na cena final, Caleb e Maeve observam a cidade em meio ao caos da revolta dos humanos. Há uma infinidade de possibilidades no novo mundo.

E AGORA?

Há duas cenas pós-créditos que apontam os rumos para a quarta temporada de Westworld. Na primeira, William invade a sede da Delos em Dubai, onde encontra Halores em um laboratório de pesquisas. Ela mantém no braço esquerdo as marcas severas da queimadura sofrida na explosão do carro da família de Charlotte Hale, como uma lembrança da maldade das pessoas.  William se prepara para executá-la, em mais um passo para livrar o mundo dos anfitriões. Entretanto, um anfitrião com sua aparência o derrota e o mata impiedosamente. O tal laboratório da Delos se revela uma enorme fábrica de criação de novos anfitriões.

Na segunda cena, Bernard desperta no mesmo local onde iniciou a jornada para o Sublime. Ele próprio e todo o ambiente estão empoeirados. Muitos anos se passaram, e resta agora saber o que ele aprendeu em sua jornada e o que fará com esse aprendizado no mundo do futuro.

Meu ânimo para a quarta temporada

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Uma coisa pode ser dita sobre o último episódio da terceira temporada de Westworld, “Crisis Theory”: ele de fato honrou o que foi a série em 2020: bastante inferior aos anos anteriores. As escolhas de roteiro e estilo narrativo conseguiram, de fato, descomplexificar o acompanhamento da história. Por outro lado, fica a sensação de que os realizadores não têm muito a dizer por debaixo do verniz pomposo e da produção de alta qualidade.

O título do episódio diz respeito à teoria econômica que defende que dentro do próprio sistema capitalista estão as sementes e raízes de sua própria decadência. Diversos historiadores, cientistas políticos e economistas, entre eles Karl Marx, e Davi Ricardo e John Stuart Mill e Joseph Schumpeter se debruçaram sobre a ideia de que o capitalismo vive ciclos que chegam a seu final devido a contradições inerentes a si próprio. Em outras palavras, determinado modelo ou forma de produção funciona durante algum tempo, passando por ciclos de expansão, recessão e crise, até que entre em colapso definitivo (para os pensadores mais radicais) ou encontre um novo caminho para um novo ciclo de expansão.

É claro que os realizadores da série utilizaram a metáfora para se referir à crise e ao fim do modelo de vida e produção gerenciado pelo Rehoboam. Com a decisão de Caleb de apagar a memória do supercomputador e oferecer aos humanos a chance para exercer o livre arbítrio, presenciamos – ao menos o que a série dá a entender – o momento final do ciclo de controle dos destinos das pessoas por aquela máquina.

Essa metáfora, no entanto, pode der igualmente aplicada à própria série Westworld. Após duas temporadas excelentes, esta terceira mostrou uma considerável perda de qualidade. É claro que o cuidado com a produção e com os efeitos especiais e visuais, além do altíssimo nível das atuações, continua trazendo à série um ar diferenciado. O problema é observar que, depois de preparar o terreno para um grande passo – mostrar o mundo fora dos parques da Delos – o resultado final foi, por falta de melhor descrição, “bonitinho, mas ordinário”

Em um primeiro momento, essa entrada da série em seu momento de crise poderia ter como culpadas as críticas feitas por alguns espectadores às temporadas anteriores – principalmente à segunda: as narrativas fragmentadas, com linhas temporais distintas, com a história contada fora de ordem e com o uso de simulações teria deixado o resultado muito complicado de entender ou acompanhar. Embora o Razão de Aspecto considere essas críticas exageradas, já na crítica final da segunda temporada havia o alerta de que os escritores da série precisariam encontrar um balanço maior entre contar a história e instigar o espectador sem exagerar nas piruetas narrativas.

Em parte, foi exatamente o que Lisa Joy e Jonathan Nolan fizeram: apresentaram uma temporada que se passa em apenas uma linha temporal (salvo flashbacks e uma das cenas pós-créditos), sem o uso arcano de narradores não confiáveis e pegadinhas do Nolão. Porém, contar uma história em ordem cronológica, com na maioria dos filmes e séries, não implica abusar dos diálogos explicativos e redundantes. A quantidade de vezes ao longo da temporada em que os personagens repetem o que já disseram antes (“minha missão agora é salvar o mundo”) ou que comentam com palavras algo já mostrado com imagens enfraquece demais o texto.

De fato, foi bastante claro saber quando, onde e como as cenas estavam transcorrendo. E, talvez exatamente por isso, o que foi visto desnudou algo mais do que Dolores sem pele: está faltando conteúdo. A proposta geral da série – e mesmo da temporada – é muito boa e poderosa: discutir onde se traça a linha entre humanos e máquinas, tratar sobre livre arbítrio e liberdade e sobre o impacto da tecnologia nas vidas humanas. Esse, entretanto, é um território que já foi visitado por gigantes no passado. Das obras de George Orwell, de Aldous Huxley e de Isaac Asimov ao 2001 de Arthur C. Clark/Stanley Kubrick, passando por Blade Runner, Robocop, Exterminador do Futuro – por que não, até pelo filme Westworld. Em 1999, Matrix conseguiu a façanha de se tornar clássico, ao deixar o público boquiaberto estética e conceitualmente. Mas trata-se de um terreno muito visitado – e, claro, extremamente instigante, por não ter respostas fáceis. As primeiras temporadas de Westworld trouxeram, ao menos aparentemente, um certo frescor ao tema. Mas é preciso ter algo mais denso a contribuir para segurar vários anos de uma série.

Desta vez, infelizmente, depois de dois anos e muita expectativa, a série deixou um amargo gosto de ter se tornado algo meio comum – pior ainda, em alguns momentos uma série adolescente de ação. Tanto pelo lugar-comum de suas afirmativas e respostas, quanto pela execução das ideias.  Foram oito episódio correndo para lá e para cá, criando um grande ar de reflexão, para que a grande conclusão fosse: sim, o ser humano tem livre arbítrio, mas é difícil exercê-lo. É muito, muito pouco para o tamanho de pompa que envolve a série. Cada vez mais, parece que os personagens e cenas não são criados com lógica própria, e sim como ferramentas para reviravoltas. O problema é que as reviravoltas desta temporada foram, em quase todos os casos, ou previsíveis ou bastante sem graça (basta ver, por exemplo, a “incrível” participação de Lawrence como a quinta versão de Dolores ou o super segredo de onde estava a chave para o Sublime – escondida na mente de Bernard).

Não por acaso, a temporada investiu muito mais em cenas de ação – algumas muito boas, como os duelos de Maeve e Dolores, e outras bastante genéricas – como as cenas da revolta dos humanos e boa parte do episódio “Genre”. Por trás da suposta grandiosidade de uma cena como a do caos da revolta humana, temos de conviver com soluções forçadas como um transporte da polícia utilizado sem problemas por Caleb, ou a revelação do motivo pífio pelo qual Dolores o escolheu como futuro líder da humanidade. É certo que ele foi gentil com ela, mas esse foi o grande motivo?  Ao longo dos anos de parque essa foi a única vez que ela presenciou gentileza?  Aliás, o que Dolores e Hanaryo estavam fazendo no parque cinco?  Quem estava cobrindo seus loops em Westworld?   Para os roteiristas, não é mais importante ter uma coerência interna, basta soar bonito. Se tiver alguns easter eggs para gerar discussões, melhor ainda.

Para citar um personagem de Game of Thrones, outra série querida da HBO, “o caos é uma escada”. E aparentemente é essa a estratégia de Lisa Joy e Jonathan Nolan: encher seus personagens de frases dúbias e pomposas, de explicações pelas metades e de elipses narrativas e se utilizarem dessas zonas cinzas para introduzirem soluções ex machina (pun intended) e/ou incoerentes, e conduzirem a trama para determinada direção. Neste último episódio, Maeve diz a Caleb” “I never understood her or her plan or why did she choose you””. Nem nós, Maeve, nem nós.

O personagem Caleb, aliás, foi outro foco de irregularidade da temporada. Enquanto exemplo de humanidade sofrida, como contraponto à imagem negativa que Dolores tinha dos humanos ao deixar o parque, Caleb foi um bom achado. Por outro lado, a construção de sua história como figura de liderança é enfraquecida em vários níveis, que vão desde a manipulação pela própria Dolores até sua atitude meio perdida em meio aos protestos, necessitando que Giggles e Ash o instruíssem e até salvassem sua vida enquanto ele fazia cara de paisagem. Serac, o outro humano mais presente na temporada, teve um arco mais interessante, que poderia ter tido diversas soluções grandiosas. Colocá-lo como mero peão do Rehoboam não foi de tudo ruim, mas deixou gosto de oportunidade desperdiçada. O que será dele agora que destruiu os anfitriões da Delos e não tem mais o supercomputador da Incite como guia pode enfraquecer e vez ou resgatar o personagem: não nos esqueçamos de que ele bastante dinheiro, e de que megalomania não lhes falta.

Maeve e Dolores foram personagens que sofreram muito nesta temporada, embora o episódio final tenha trazido alguma interação mais generosa. A primeira tornou-se uma capanga de segunda categoria de Serac durante quase toda esta parte da história. Sua motivação praticamente exclusiva, a de se reunir à filha, já era algo forçada e simplória desde a primeiríssima temporada. Quanto mais o tempo passa, mais a personagem parece se perder. Já Dolores teve um arco biruta:  decidida a destruir os humanos, mas na verdade querendo salvá-los…  cheia de recursos financeiros e tecnológicos em alguns momentos, mas fugindo a pé (e pelo metrô) em outros.  É uma personagem fazendo favores ao roteiro, em vez de ser bem conduzida por ele.

Talvez outro problema tenha sido no corte da temporada – o que faz questionar o baixo número de episódios.  Há muita coisa jogada rapidamente – como o retorno de Clementine e e Hanaryo e a existência de uma massa de humanos congelados em Sonora – que possivelmente serão resgatados na quarta temporada. Mas o resultado final do roteiro não conseguiu nem transformar a terceira temporada em uma história bem resolvida em si própria, nem criar um ar seguro de “temporada de transição”.

Para além da parte técnica, das atuações e da trilha sonora, algumas poucas coisas se salvaram. Algo que a temporada construiu razoavelmente bem foi o paralelo entre as histórias de Caleb e Dolores – a ponto de alguns teóricos hiperativos da Internet terem imaginado que ele poderia ter alguma relação identitária com ela. De tomadas de câmera semelhantes às utilizadas nos loops de Dolores na primeira temporada até o arco geral – de uma peça pouco importante à líder de uma revolução – as semelhanças entre as histórias dos dois personagens foram construídas com certa elegância. O espelhamento entre anfitriões e humanos, todos confinados a seus loops diários e descartados em galpões frios caso apresentassem defeitos não corrigíveis, talvez tenha sido o que mais valeu à pena.

A quarta temporada será um momento decisivo para a série. Há elementos interessantes:  teremos Halores ocupando papel de antagonista mais óbvia dos humanos, e com um potencial exército de anfitriões já em fase de produção. Os humanos de Sonora – incluindo Jean Mi – deverão acordar e isso pode trazer novos elementos para a série. Clemetine e Hanaryo foram criadas para serem ajudantes de Maeve, e isso significa que a pérola de memória de Musashi pode ser utilizada para recriar Dolores. O que terá visto Bernard em sua jornada em Sublime?  Será que a audiência acompanhará esse tempo em flashbacks fragmentados?  Os anfitriões que lá se encontram – como Teddy, por exemplo – retornarão à série?  E Caleb Zé Ruela, fará o quê da vida?

Quando a temporada de uma série termina e ficamos ansiosos pela próxima, isso em geral é um bom sinal. Com a terceira temporada de Westworld, esse sentimento de interesse surgiu, mas por motivos menos nobres: será preciso descobrir se os roteiristas conseguirão encontrar eixos temáticos e mensagens densas, que façam a série superar seu momento de crise, ou se veremos de fato a decadência definitiva de algo que começou tão bem.

D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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