Westworld 3.6 – Decoherence (resumo e crítica do episódio).

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

SEXTO EPISÓDIO DA TERCEIRA DE WESTWORLD

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Mantendo a alternância de núcleos de personagens, o sexto episódio da terceira temporada de Westworld – “Decoherence” trouxe Charlotte Hale, Maeve e William de volta ao centro das atenções.

William permanece internado em um hospício. Incapaz de demonstrar qualquer empatia durante a terapia de grupo, ele é enviado para um novo tipo de tratamento:  recebe um implante no palato (muito semelhante ao que já vimos em Caleb nessa temporada) e volta a fazer uma terapia de grupo. Desta vez, entretanto, seus parceiros de sessão inesperados: versões dele próprio em diferentes momentos do passado: a infância, o jovem ambicioso, o empresário respeitado e o Homem-de-Preto. Completando o grupo, uma versão de seu sogro, James Delos, como uma espécie de mediador do encontro.

As suas várias facetas interagem, defendendo as posturas adotadas em determinadas épocas, enquanto trocam acusações. William revisita memórias de quando era criança, e é forçado a desmontar a visão romântica de sua infância (representada pelo livro de histórias da cavalaria) e encarar o fato de que não ele não fora simplesmente uma criança vítima de uma família ausente ou ruim, e sim responsável desde cedo por atitudes deploráveis, como a de quebrar o braços e os dentes de um colega de escola. Ao contrário do que versões adultas de William insistem em defender, sua violência vez desde pequeno e é parte intrínseca de seu caráter.

A grande catarse do William do presente vem, de forma não surpreendente, em forma de violência:  ele mata com as próprias mãos -e a golpes de cadeiradas – todas as suas outras versões, e afirma que agora sabe o que deve fazer. Não importa para William quem quer que ele tenha sido ou quais os mecanismos que o levaram a fazer tudo o que fez. O importante agora é se libertar dessas prisões mentais. Ele entende agora que é “o bom moço”. Ao fim, William recobra a consciência, despertado por Bernard e Stubbs. Aparentemente, o caos gerado pela revelação dos perfis individuais traçados pelo Rehoboam custou não apenas a vida da terapeuta de William, mas deixou brecha de segurança suficiente para que eles invadissem o hospício.

Enquanto isso, após ter seu corpo trespassado por uma katana ao fim do episódio quatro, a consciência de Maeve desperta dentro de uma simulação que lembra o éden virtual dos anfitriões. Uma projeção de Serac a relembra que ela pode se reunir com sua filha caso o ajude a derrotar Dolores. Maeve diz que o que precisa – da mesma forma como Dolores tem parceiros a seu lado – é de ajuda, não de incentivo. Com isso Serac inicia, na vida real, a produção de um novo corpo não só para Maeve, mas para Hector e para um terceiro parceiro.

Enquanto seu corpo não fica pronto, Maeve volta a perambular pelo Warworld, derrota nazistas (para que mesmo, roteiro?) e reencontra-se com a simulação de Lee Sizemore e com a consciência de Hector.  Ela ganha ainda um “presente extra” – a oportunidade de interrogar uma das consciências de Dolores – a que habitava a pérola/o corpo de Connells, e que foi recuperada após a explosão no escritório de Dempsey.

Maeve relembra a Connells-Dolores que ele poderia ser a ponte entre as duas espécies, e que tem os dados de toda uma civilização humana dentro da cabeça. Todo esse poder não deveria estar ser concentrado em apenas uma pessoa. A versão de Dolores responde que teve de fazer escolhas difíceis e que mesmo que parte dos anfitriões tenham escapado para o Além do Vale, os restantes estão correndo perigo. O próprio Serac, aliado de Maeve, trabalha para a destruição dos anfitriões. Dolores questiona ainda o quanto Maeve já fez outros se sacrificarem pelos seus objetivos – Hector e Sizemore inclusive. Para Dolores, ambas não são santas nem vilãs, apenas sobreviventes.

Maeve questiona como pode confiar que Dolores não fará mal a sua filha e aos outros anfitriões que escaparam para o Éden virtual, frente ao quê a anfitriã original da Delos diz que não há como fazê-la acreditar, mesmo que prometesse. Por outro lado, Dolores não confia em Maeve para dar a ela a chave do Além do Vale. Durante aquele impasse que parece levar inevitavelmente a um confronto entre ambas, as consciências de Hector e Dolores são desativadas. Maeve termina o episódio despertando no mundo real com seu corpo recém recriado, e aguardando o último anfitrião – que será seu aliado – terminar de ser impresso.

Em meio ao caos urbano gerado pelo vazamento de informações da Incite sobre os perfis individuais, Charlotte “Hale” (ou Halores, como a própria atriz Tessa Thompson se refere à personagem) tenta balancear seu papel no plano da anfitriã original da Delos com suas funções de mãe e esposa – e o amor que ela desenvolve pela família a afeta mais do que o esperado.

Pressionada por Serac, Halores se assusta quando ele mata um membro do conselho da Delos sem hesitações, e em plena luz do dia, ao descobrir que ele se oporia aos planos de aquisição da empresa. Ela percebe que não conseguirá evitar que Serac compre a Delos, e avisa a Dolores sobre o fato. Dolores a instrui, então, a conseguir os dados de produção de anfitriões da Delos antes que Serac os destrua.

Assim que chega à sede da Delos, Serac ordena que o local seja fechado e que todos os empregados sejam testados para descobrir se existe algum anfitrião entre eles. Além disso, ele diz que após produzir mais três anfitriões (os prometidos parceiros para Maeve), e que, fora esses, quer todos os outros – armazenados nos parques da Delos – sejam destruídos – apesar dos protestos de membros do conselho diretor. A ele interessa apenas a chave de criptografia que o leve a acessar todos os dados acumulados ao longo dos anos pela empresa.

Halores se esgueira pelos corredores da Delos e gera um backup dos dados da empresa e os envia para um servidor em Sonora, México – localização obtida por meio de um rastreador no sangue de William. Ao verificar os sistemas de segurança da sede da Delos, ela descobre que os corpos de Maeve e de outros três anfitriões estão sendo reconstruídos. Ela informa a Dolores sobre o assunto e prepara a família humana uma fuga. Surpreendida por uma reunião emergencial convocada por Serac, Halores é exposta como a anfitriã infiltrada.  Sua preocupação com o filho – atitude tão diferente da Hale original – foi o que denunciou sua identidade falsa.

Halores escapa da situação intoxicando os membros do conselho – com exceção de Serac, que, inteligentemente, participou da reunião apenas como holograma. Ela segue até o laboratório onde os corpos dos anfitriões estão sendo refeitos e destrói a pérola de Hector. A dor da perda do amado faz com que Maeve, mesmo ainda de dentro da simulação – consiga disparar o alarme do laboratório, atraindo seguranças da Delos. Halores ainda tem tempo de recuperar a pérola de Connells-Dolores antes de fugir da sede da empresa – não sem antes deixar uma trilha de seguranças mortos e de ativar um dos robôs para controle de tumultos (apresentado no terceiro episódio deste ano).

O alívio por ter conseguido escapar da Delos não dura muito:  durante uma fuga o marido e o filho de Charlotte Hale, a quem havia verdadeiramente se afeiçoado como família, Halores é vítima de um atentado:  seu carro explode, matando aqueles a quem aprendeu a amar, e queimando severamente seu corpo de anfitriã.

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O sexto episódio da terceira temporada de Westworld teve um objetivo relativamente claro:  preparar a reta final deste ciclo. Faltam apenas dois episódios – uma vez que os realizadores optaram por uma temporada menor, e o capítulo desta semana – intitulado “Decoherence” – avançou a trama de seus personagens até um ponto em que as posições ficaram um pouco mais claras. Novamente, o título entrega bastante, embora esta semana Lisa Joy e Jonathan Nolan tenham se utilizado de uma terminologia da mecânica quântica um pouco difícil de ser explicada sem tecnicismos.

Cito a definição dada por Ernesto Mané Jr, físico, pesquisador na Universidade de Princeton e diplomata: “é o processo por meio do qual a física quântica se torna clássica; isso acontece porque ‘partículas’ quânticas são muito sensíveis a interferências com o ambiente externo. Em termos ‘concretos’, você deve ter lido que o mundo quântico traz infinitas possibilidades. Quando acontece a decoerência, há uma redução (colapso) das possibilidades para apenas uma”.

Talvez a forma mais fácil de ilustrar seja com um exemplo:  imagine que um apresentador de TV dê a um espectador uma caixa perfeitamente fechada. Ele afirma que ali dentro existe um gato. No nível quântico, esse gato está ao mesmo tempo vivo ou morto – é impossível saber. No momento em que o espectador olha dentro da caixa – ou seja, em que se interfere com o sistema – existe uma “decoerência”, pois se a suposição sobre se o gato está vivo ou morto passa a assumir uma das duas possibilidades (afinal, vamos descobrir o estado do gato). Ernesto Mané Jr. chama atenção para o fato de que “com a decoerência, há perda de informação, ou seja, perdemos para sempre as outras possibilidades”.

Esse exemplo mais colorido sobre a decoerência aplicada ao paradoxo de Schrödinger (esse do gato vivo e morto ao mesmo tempo) facilita o entendimento sobre as metáforas feitas pelos criadores da série – e talvez inspirem algumas nossa também. Foi um episódio em que, dentro de muitos rumos possíveis, vários personagens tiveram de definir seus rumos. Serac podia ou não conseguir adquirir a Delos (conseguiu); dentro das múltiplas versões de William, uma prevaleceu;  Halores poderia ou não ignorar a sua “família humana”(não ignorou);  a relação entre Maeve e Dolores poderia ter infinitos desdobramentos (e agora o conflito é inevitável).

Do ponto de vista da discussão sobre livre arbítrio, a terapia de William leva a uma decoerência. Sua visão a respeito dos ser humano é bastante pessimista, resumindo-o a uma espécie unicamente destinada a acelerar a entropia do planeta, a serviço do caos. Sua terapia, por outro lado, o faz questionar as decisões individuais. Como é formada nossa identidade?  Na infância?  Pelos diversos fatos da vida? Ou é inerente? A partir de que momento podemos falar em culpa?  Temos algum nível de escolha ou somos meros “passageiros” em nossas vidas?

A reflexão interna de William respeito dos motivos que o levaram a se tornar quem é foi a de que “if you can’t tell the difference, does it matter?” [“se você não consegue ver a diferença, isso importa?”]. A frase remete à sua primeira visita a Westworld, ainda na juventude (lá no segundo episódio da primeira temporada), quando ele questiona Angela sobre se ela é humana ou um anfitrião. Em meio às infinitas possibilidades de respostas e de “novos Williams” que poderiam surgir daquela bizarra terapia em grupo, a conclusão é a de que, no fundo, essa discussão sobre o que molda nossas decisões é menos importante do que elas próprias e dos rumos que decidimos tomar.

Uma conclusão muito semelhante – mas sem a necessidade de grandes sofrimentos pessoais – é demonstrada por Jake Reed, ex-marido de Charlotte Hale. Uma das grandes chaves – e, talvez, das grandes mensagens da série – é resumida em sua decisão de não ler as previsões do Rehoboam e de afirmar que “não cabe às máquinas decidirem”. Ainda sobre Halores, o afeto e a preocupação demonstrados pela anfitriã, e muito superiores às de sua contraparte humana original, acrescenta mais camadas na discussão sobre homem versus máquina. Na própria temporada, entretanto, é mostrado que, frente à frente com a morte, mesmo a Charlotte humana tinha sentimentos fortes em relação a seu filho – como fica claro pela mensagem com a canção de ninar por ela gravada durante a rebelião dos anfitriões nos parques da Delos.

O episódio matou a saudade dos fãs ao promover retorno (ainda que momentâneo) de Jimmi Simpson, no papel do jovem William;  de Peter Mullan, como James Delos; e até de Jonathan Tucker (o Major Craddock, líder dos Confederados), como um enfermeiro do hospício, em meio às alucinações. Mas o show continua sendo de Ed Harris: mesmo com flashbacks meio superdidáticos sobre sua relação com a família, toda vez que o ator aparece na tela a série parece subir automaticamente de qualidade. Resta saber do que se trata, na cabeça violenta de William, ser “o bom moço” da história a partir de agora.

Somada à informação sobre os centros de pesquisas e experimentos com os párias do sistema (que obtivemos no episódio sobre a origem de Serac), o tratamento pelo qual William passou neste episódio dá mais pistas sobre a identidade de Caleb. Essa terapia alternativa, destinada muitas vezes a militares com estresse pós-traumático, envolve a instalação de um implante no céu da boca e eventual manipulação de memória. Ao que tudo indica, Caleb foi uma das principais figuras de oposição ao sistema da Incite, foi mandado para a frente de batalha e recebeu um implante bucal que alterou suas memórias para ajustá-lo à sociedade. Mais sobre ele será descoberto no próximo capítulo.

O episódio também respondeu a dúvida sobre o que Halores tinha injetado no pescoço de William anteriormente na temporada: tratou-se de um localizador, posteriormente utilizado por ela na sede da Delos. É por isso que sua amostra de sangue no hospício acusa uma “proteína desconhecida” e “marcadores sintéticos”.  Ainda fica pouco claro o destino dos dados transferidos por Halores:  terá sido para dentro da própria corrente sanguínea de William – o que espelharia o fato de Dolores ter em sua memória as informações sobre as pesquisas da Delos?

Há um claro “Easter egg” no episódio desta semana, quando vemos um pichador desenhando o labirinto-tema da primeira temporada, na cena em que Halores vai deixar o filho com o ex-marido. Possivelmente trata-se apenas disso mesmo – de uma referência para que os fãs da série se divirtam. Pode, ainda, fazer alusão ao inconsciente coletivo, e estabelecer um paralelo sobre a busca pela própria identidade a qual será forçada a humanidade, agora que está consciente sobre a interferência do Rehoboam. O que estará no centro do labirinto de cada indivíduo e da espécie como um todo?

Por fim, fica a curiosidade sobre quem será o anfitrião trazido à vida para apoiar Maeve. Com a morte de Hector, o nome mais especulado e provável é o de Clementine Pennyfeather, personagem interpretada por Angela Sarafyan, que costumada viver uma cortesã no Mariposa, bordel de Maeve no parque de Westworld.

Desde seu início, a série tem apresentado discussões sobre a questão da identidade, do livre arbítrio, dos fatores que eventualmente poderiam diferenciar (ou nem tanto) homens e máquinas, e dos mecanismos que influenciam os comportamentos. Aproximando-se do fim da sua terceira temporada, Westworld começa a passar por um processo de decoerência. As infinitas possibilidades de discussão sobre seus temas centrais, as interferências externas na história (pelos autores e pela audiência, sobretudo – não esqueçamos que a série foi criticada pelo excesso de complexidade) vão diminuindo aos poucos e tomando um rumo mais claro – ao menos é o que parece.

As respostas dessa semana podem deixar uma sensação um pouco decepcionante. As conclusões de William significam, em parte, que toda essa discussão é meio inútil, uma vez que o que vale são nossas ações. O mesmo vale para as decisões de Halores (e, pensando atentamente, até mesmo para a decisão de Maeve de não abandonar o parque, ainda na primeira temporada). Aplicando-se o raciocínio à série, pode-se chegar à perigosa conclusão de que mais uma vez temos uma produção com gosto da família Nolan:  roteiros cujas inovações e piruetas narrativas importam mais do que a coerência ou a evolução dos personagens. Será que de fato trata-se de uma série inovadora e excelente ou apenas uma bobagem pomposa?  Bom, se não sabemos diferenciar, será que importa?

 

por D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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