Westworld 3.5 – Genre (resumo e crítica do episódio)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

QUINTO EPISÓDIO DA TERCEIRA DE WESTWORLD

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O quinto episódio da terceira temporada de Westworld teve dois focos principais: o primeiro dedicado ao passado de Serac e à criação do Rehoboam;  o segundo concentrado em cenas de ação e na continuidade dos planos de Dolores.

Engerraund Serac visita o Presidente do Brasil – em uma cena constrangedora, com um ator cujo português não é a língua mãe – e o pressiona para encerrar atividades corruptas envolvendo extração de manganês. O poder da Incite é tamanho que uma desvalorização acentuada da moeda e a troca no comando do país não seriam grande esforço para Serac.

Em seu jato super tecnológico, Serac fica sabendo que existe uma conexão entre sistemas criptografados em Jakarta, Berlim, São Francisco e Los Angeles (os quatro anfitriões-Dolores – mas quem estará em Berlim?), sendo que este último fora detectado dentro do complexo de prédios de Liam Dempsey Jr. O jovem executivo está desaparecido, e uma imagem de Dolores foi registrada em uma câmera próxima a ele.

Enquanto isso, Caleb, Dempsey e Dolores fogem dos sistemas e dos homens da Incite. Dolores precisa de Dempsey vivo para conseguir acesso ao Rehoboam – espeficicamente sobre Serac. Utilizando seus óculos para leitura de perfis das pessoas, Dempsey descobre que Dolores nem aparece nos sistemas, e se surpreende com aquilo que vê sobre Caleb – embora a verdade não seja revelada aos espectadores. Durante uma tentativa de fuga, Dempsey acaba injetando a droga Genre em Caleb, que passa a ter alucinações que envolvem o visual e a trilha sonora de diferentes gêneros de filmes: noir, épicos de guerra, filmes de ação, romance, suspense/terror, etc.

 

Os três embarcam em um veículo auto conduzido para escapar da perseguição dos homens de Serac.  Sob pressão, e em meio ao tiroteio que se inicia, Dempsey fornece sua chave de acesso aos sistemas da Incite. Dolores invade os sistemas do veículo e passa a controlá-lo para que vá a destinos específicos e em alta velocidade. Caleb percebe que Dolores tem acesso e utiliza armas de uso restrito. Ela também comanda remotamente sua moto e a utiliza como barreira e explosivo para os perseguidores. No conflito, Ash e Giggles, dois dos usuários do Rico apresentados no primeiro episódio, juntam-se ao time de Dolores.

Na sede da Incite, Connells é contatado pela anfitriã original da Delos. Ele apresenta a Bernard o poderoso Rehoboam, e utiliza a chave pessoal de Dempsey para acessá-lo. Dali, eles conseguem dois intentos:  transferir as informações sobre Serac para Dolores e, em seguida, enviar, para cada cidadão do mundo, os perfis pessoais de cada um deles, com suas análises e projeções de futuro, elaborados pelo deus-computador. Stubbs aparece de repente e ataca Connells, que é subjulgado. Mas, antes que ele pudesse revelar mais informações do plano mestre de Dolores, uma equipe de Serac, liderada pela personagem Martel, chega até a sede da Incite. Enquanto Bernard e Stubbs escapam, Connells leva a equipe de Serac a uma armadilha, revela ser o culpado pela invasão ao Rehoboam e explode uma bomba, sacrificando-se ao mesmo tempo em que mata os invasores.

O acesso de Dolores ao arquivo sobre Serac no Rehoboam justificou as várias cenas sobre o passado do personagem de Vincent Cassel. Registrando suas memórias junto ao maxi computador da Incite, Engerraund conta que tendo sobrevivido à destruição de Paris em um acidente nuclear, ele e seu irmão, Jean Mi, decidiram impedir que a humanidade se autodestruísse, caminho que parecia inevitável em meio ao caos. Com o objetivo de criar um “deus”, ou uma ordem, para os seres humanos, os irmãos Serac decidiram desenvolver um computador que calculasse e projetasse os destinos dos indivíduos.

Uma vez que tinham a ideia, porém não a quantidade de recursos e dados necessários para alimentar a nova criação, os irmãos Serac se associaram a Liam Dempsey (o pai), um homem ganancioso. Após algumas tentativas de desenvolver o sistema, e pressionados por Dempsey, os Serac dão um pequeno exemplo do poder de seu computador, ao roubar cinco milhões de dólares e ganharem vinte vezes essa quantia na bolsa de valores.

A partir daí, os irmãos Serac puderam colocar em prática seu plano de dar um ordenamento planejado para toda a humanidade. Tudo funcionou por um tempo, até que a) Dempsey passou a usar cálculos do Rehoboam para benefício próprio, o que forçou os Serac a proibir seu acesso ao sistema; e b) Jean Mi passou a fazer parte dos párias e agitadores cujo comportamento o sistema não conseguia prever ou controlar.

Enlouquecido por não se adaptar ao novo mundo, Jean Mi foi confinado por Engerraund a uma espécie de asilo-laboratório, o qual viria a ser descoberto por Dempsey após uma década se aproveitando dos lucros gerados pela Incite. Após seu tratamento contra a radiação nuclear, os irmãos Serac perceberam que era possível “editar pessoas”. Engerraund decidiu internar o irmão após descobrir que ele estava estudando “certos cenários”, que envolviam a morte de Dempsey. O Rehoboam traça destinos fatais para os párias, enviando-os para guerras ou outros destinos fatais. Confrontado por Dempsey, que não aceita ser cúmplice dessas atividades, Engerraund mata o empresário de forma a parecer que ele tivesse sido vítima de um acidente aéreo.

De volta ao presente, o quinteto liderado por Dolores pega o metrô e observa ali as consequências de as pessoas descobrirem seus destinos traçados pelo Rehoboam. As reações vão desde choque e paralisia completa até atitudes anárquicas, depredação de prédios e agressões verbais e físicas.  Ao saírem da estação de metrô, Dolores, ao evitar que Caleb seja baleado interpondo o próprio corpo, acaba por revelar e ele sua origem não-humana.

Na praia, caminhando em direção a uma pista de decolagem, Dempsey Jr. tenta negociar sua liberdade. Em atrito com Ash, ele afirma que o sistema não é uma prisão – nós somos nossas próprias prisões. Ele também diz que Caleb não tem ideia de quem de fato é, e que ele é “o pior de todos”. Caleb começa a ter flashs de memória nos quais parece estar levando alguém para ser torturado e/ou morto. A discussão se acirra e Dempsey Jr. acaba sendo morto por Ash que foge do local acompanhada de Giggles. O executivo da Incite morre antes de ter tempo de revelar mais elementos sobre a identidade de Caleb.

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Após um quarto episódio intenso em revelações e avanços na história, “Genre”, o capítulo desta semana de Westworld teve um viés diferente. O resultado foi um episódio que teve seus momentos divertidos intercalados a outros com sabor de coisa comum. A começar pelo título do episódio, um dos menos inspirados da temporada, que faz referência à droga injetada por Dempsey em Caleb, capaz de provocar alterações de percepção no usuário inspiradas em gêneros cinematográficos (oi?).

Com um pouco mais de boa vontade, podemos ver uma alegoria também ao irmão de Engerraund e aos outros párias confinados por não serem indivíduos previsíveis e controláveis pelo sistema. Engerraund classifica seu irmão Jean Mi como alguém “sui generis”, ou seja, como pessoa singular, único de seu gênero.  A aproximação da palavra funciona mais em línguas latinas – mas não esqueçamos que os irmãos Serac são franceses.  De fato, em todo o flashback sobre Engerraund, talvez o mais importante seja justamente sua decisão de criar laboratórios/prisões para os párias.

O desleixo com a cena no Brasil é particularmente incômodo para os fãs brasileiros da série, é claro.  Ele parece ainda mais injustificável se levarmos em conta a presença de Rodrigo Santoro no elenco da produção (que, na pior das hipóteses, poderia dublar o presidente). Além disso, Vincent Cassel, intérprete de Engerraund Serac, mora no Brasil. Qualquer um dos dois poderia ter orientado uma execução menos constrangedora da cena.

Um dos episódios mais irregulares da temporada, Genre deixa transparecer algo que não é muito incomum na obra de outros irmãos – os irmãos Nolan. Incensados por boa parte do público, volta e meia eles apresentam obras que parecem muito interessantes e prendem em um primeiro momento, mas não sobrevivem a uma análise um pouco mais detida.

A começar, aqui, da própria droga que batiza o episódio. A ideia é divertida, mas, pelo menos até o momento, não demonstrou qualquer impacto na narrativa, além do estético. Em outras palavras, a introdução desse elemento na série serviu apenas para os realizadores brincarem com a estética, sem que isso influenciasse nos acontecimentos. Embora sob efeito da droga durante boa parte do episódio, Caleb não é atingido por estar desconcentrado, não deixa de interagir, não comete grandes erros. Faz apenas caras e bocas sem maiores consequências. Até mesmo na parte da brincadeira estética, apenas no momento noir a imagem e o som ficam significativamente alterados. Nos outros momentos do episódio, o efeito da droga se resume à introdução de trilhas sonoras de filmes consagrados – e, na maioria dos casos, com escolhas muito óbvias. Parece cool mas, pensando bem, não tem nada de genial, é apenas onanismo para cinéfilo.

Outro problema do episódio são as cenas de ação. As perseguições de carros são feitas em ruas absolutamente vazias e não transmitem a sensação de uma velocidade perigosa ou de perigo. Há tiroteios, há explosões, mas nada particularmente criativo ou inspirado. Não chega a ser mal feito, mas é pouco para uma série como Westworld – ou será que não devemos esperar muito mais? Talvez os realizadores não estejam tão preparados assim para lidar com flertes com outros gêneros (ahá!).

A lógica das ações dos personagens também fica a desejar:  de episódios em que parecia ter acesso a quaisquer recursos que precisasse, Dolores desta vez tem de atravessar a cidade a pé para se manter longe dos recursos de detecção do Rehoboam. Ela utiliza um veículo, consegue hackear seu sistema, e logo em seguida o abandona e vai para o metrô (!!!), local onde mesmo hoje em dia a quantidade de câmeras e de policiamento é enorme. A única razão concreta é facilitar o roteiro e colocar os personagens em um ambiente onde eles pudessem assistir a mais reações de pessoas quando seus perfis do Rehoboam fossem revelados. Quando a história passa a servir o roteiro, e não o contrário, pode saber que é um péssimo sinal.

Mas nem tudo foi um desastre no episódio. A continuidade do mistério sobre a verdadeira identidade de Caleb manteve os espectadores instigados. Em diálogo com Dempsey, ele pergunta se ele pode ver no sistema que ele “já engoliu uma arma em alguma praia”, em uma referência a uma possível tentativa de suicídio (no passado?  no futuro?). Dempsey ressalta que Caleb não tem ideia de quem é, e de que ele é o “pior de todos”.  Junte-se essa informação com o fato de que os párias são enviados pelo Rehoboam para guerras, e podemos começar a imaginar que Caleb era um desses párias, utilizado pelas forças armadas para missões extremas, e cuja memória pode ter sido afetada por algum trauma ou por manipulação externa.

Outra boa escolha deste quinto episódio foi o design do laboratório no qual são feitos os experimentos e condicionamentos dos párias (embora tenha incomodado um pouco a completa falta de segurança no local… Dempsey entra ali sem a menor cerimônia). As paredes de vidro e a interação entre os pesquisadores e as pessoas ali confinadas estabeleceu uma rima visual automática com a área de manutenção de anfitriões nos parques da Delos.  Humanos e seres artificiais sofrendo do mesmo destino: ter suas vidas reprogramadas e sua liberdade de escolha tolhida.

Esse paralelo, aliás, tem sido a tônica da temporada.  Se anteriormente tínhamos um embate claro em que humanos exploravam anfitriões para sua diversão e prazer, a terceira temporada aproxima muito mais as duas “raças”. Ambas estão presas em loops, criados por forças maiores e das quais pouco têm consciência. A base da sociedade é a esperança de dias melhores – que Caleb identifica bem como uma falsa esperança, já que os destinos estão traçados pelo Rehoboam.

Assim como decidiu libertar os anfitriões, Dolores também se arvorou de decidir os destinos dos humanos. Resta saber se os humanos se rebelarão como fizeram suas criações ao final da primeira temporada. A melhor decisão dos roteiristas, pelo menos até o momento, foi a de não embarcar em solução semelhante à do filme Matrix, em que as pessoas viviam em uma simulação digital. A “falsa realidade” aqui é estabelecida por redes e sistemas presentes no próprio mundo real, à nossa volta, e frente os quais nós nos submetemos muitas vezes de forma entusiástica.

No outro lado da mesma moeda, Serac quer controlar a “história caótica” do ser humano. Para isso, entretanto, precisa se livrar, de algum jeito, das pessoas impulsivas e imprevisíveis. Se episódios passados já tinham demonstrado que Engerraund Serac era um personagem amoral, este consolidou sua imagem de megalômano com fortes tendências eugenistas. Não por acaso ao longo da temporada o vemos vestido de branco, ou entre as nuvens – são todas simbologias que remetem à divindade e/ou à angelitude – totalmente deturpada.

Aqui os autores podem ter criado uma armadilha para si próprios. Ao falar dos espaços possíveis para a decisão dos humanos sobre seus destinos – as “bolhas de ação”, Lisa Joy e Jonathan Nolan criam pés de barro. Se os destinos são traçados mas há bolhas de ação, qual a tese defendida pela série como um todo?  A que reflexão se quer chegar?  Temos nossos destinos controlados mas podemos alterá-lo com nossas atitudes se identificarmos as “bolhas de ação”?  Não seria muita verborragia para esconder uma obviedade?

Resta acompanhar os próximos episódios, em que retornarão as tramas de Maeve e de William, e que possivelmente descobriremos qual, afinal, é o papel e a importância de Bernard – personagem infelizmente pouco explorado até agora na temporada – no plano mestre de Dolores.

Bônus track: REHOBOAM

Aproveitando que este episódio mostrou a origem do maxi computador da Incite, é um bom momento para falar da origem de seu nome. Na Bíblia, Rehoboam (ou Roboão, em português) foi filho do rei Salomão e neto do Rei Davi – todos grandes reis na história de Israel. Em vista das inúmeras simbologias religiosas de Westword, é tentador querer estabelecer analogias com esses personagens bíblicos. Os criadores da série revelaram, entretanto, que o nome é uma referência/homenagem a um livro clássico de ficção científica chamado “Stand on Zanzibar”, escrito por John Brunner e publicado em 1968, no qual um mega computador chama-se Shalmaneser – referência a um rei da Assíria e da Babilônia, que subjulgou Israel no século VIII. Veio daí a ideia de dar o nome de um imperador bíblico à inteligência artificial da Incite.

 

por D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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