Westworld 3.4 – The Mother of Exiled (resumo e crítica do episódio)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

QUARTO EPISÓDIO DA TERCEIRA DE WESTWORLD

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A terceira temporada de Westworld chega até sua metade apresentando o melhor episódio deste ano. As tramas apresentadas anteriormente começam a se cruzar, um velho conhecido retorna ao tabuleiro e uma grande revelação – como esta série já tem tradição de fazer – marcaram “The Mother of Exiles”.

Engerraund Serac traz Marve de volta à consciência e tenta novamente convencê-la a ajudá-lo a derrotar Dolores. Na cena, descobrimos que a cidade de Paris já não mais existe naquele mundo, tendo sido destruída por um ataque (ou um desastre) nuclear. Serac revela ainda que sua maior criação (possivelmente se referindo ao Rehoboam) foi uma tentativa de compreender melhor os seres humanos e controlar as ameaças que a humanidade impõe a si própria. Para sua surpresa, ele descobriu que outros – a Delos – haviam elaborado um perfil ainda mais completo de um ser humano: um mapa da mente humana. Dolores seria a portadora da chave para esse mapa, e, em troca da ajuda de Maeve, ele poderia garantir que ela se reunisse à sua filha no Éden virtual criado para anfitriões na temporada anterior.

Serac leva Maeve até a casa onde Dolores recriou seu corpo e mais alguns outros, ainda não identificados.  Ali, ele arranca (por meio de uma elaborada tortura tecnológica que mostra o futuro do homem se ele não cooperar) informações sobre quem Dolores procurou para estabelecer novas identidades no mundo real. Maeve aceita investigar e encontrar a anfitriã original da Delos e, ao confrontar The Mortician, descobre que a própria Yakuza (máfia japonesa) teria sido envolvida nos planos de Dolores, com o propósito de se livrar de alguns corpos.

Bernard e Stubbs mantém-se escondidos em Victorville, cidade na Califória, onde pode ser visto o pouso e o lançamento de alguns foguetes. Acreditando que Dolores tenha matado e substituído Liam Dempsey Jr.por um anfitrião, Bernard consegue informações sobre a agenda do filho do criador da Incite e pretende sequestrá-lo e desativá-lo.

Enquanto isso, Martin Connells pressiona Dempsey para que transfira recurso financeiros para as propinas necessárias para acobertar as mortes causadas por Dolores. De sua parte, Dolores faz com Caleb se passe por Michael Tritter, de um dos procuradores de Dempsey, para desviar todo o dinheiro para seus intentos.

À noite, Dempsey vai a um luxuoso leilão de garotos e garotas de programa. Ele é apresentado, por um amigo, a uma droga chamada Genre, que afeta os implantes e a corrente sanguínea. Embora um pouco desanimado a princípio, Dempsey se interessa por uma das garotas, devido à sua semelhança física com Dolores/Lara Espen. Entretanto, ele não consegue apresentar apostas no leilão, e descobre que e seus recursos financeiros desapareceram.

É o momento do episódio onde se cruzam os caminhos de Dolores, Caleb, Connells, Dempsey, Bernard e Stubbs. Esses dois últimos descobrem que Dempsey não foi substituído por um anfitrião, e tentam sequestrá-lo, sem sucesso. Dolores derrota Stubbs em uma ferrenha briga, Caleb captura Dempsey, enquanto Connells e Bernard têm uma conversa reveladora:  pelo menos quatro das cinco “pérolas” (unidades de controle de anfitriões) são cópias de Dolores!!!  A anfitriã original da Delos confiava apenas nela própria para executar seus planos.

A mesma descoberta é feita por Maeve. Ao procurar a Yakuza, ela descobre o que o novo chefe local parece ser Musashi, o anfitrião-samurai que ela conheceu na temporada passada em Shogun World. Durante o confronto entre os dois, fica claro que trata-se de mais uma cópia de Dolores, que termina por ferir Maeve gravemente ao atravessá-la com uma katana.

O retorno mais esperado da série foi o de William, nosso malvado favorito Homem de Preto. O dono da Delos, visto pela última vez na cena pós-créditos do season finale anterior, aparece com a sanidade comprometida, remoendo culpas e memórias em busca de afirmar sua identidade. Ele convive com uma espécie de fantasma da filha Grace, a quem matou na temporada passada por acreditar que ela fosse uma anfitriã. Ela constantemente o culpa pelas mortes das pessoas próximas, como seu tio Logan, sua mãe Juliet e seu avô James. Mais do que isso, ela leva William, cada vez mais, a se questionar se afinal ele é ou não um anfitrião.

Procurado por “Hale”, ele é convencido a participar da reunião de acionistas para evitar a aquisição da Delos por parte de Serac – motivado, sobretudo, pelo risco das dos dados do Setor 16 – os perfis dos visitantes dos parques – passarem para outras mãos. Novamente interpelado pela aparição de Grace, William descobre que “Hale” é na verdade Dolores. Considerado mentalmente insano, ele é levado para uma instituição de tratamento de doentes mentais. Com William incapacitado, seus votos são transferidos para a presidente em exercício: a própria Hale-Dolores !

Em um epílogo extremamente simbólico, William – agora um homem de branco, com as roupas da clínica para doentes mentais – é visitado por uma aparição de Dolores, trajada como nos tempos de seus loops no parque da Delos, que afirma ser aquele o centro do labirinto tão procurado por William. Ela leva o questionamento sobre a identidade de William até o limite. Incerto sobre quem de fato ele é, parece ser o fim do jogo para o ex-Homem de Preto.

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Tendo estabelecido as principais linhas narrativas nos primeiros episódios da temporada, este “The Mother of Exiles” pode se dedicar, em grande parte, avançar e intercalar tramas. O ritmo e a montagem foram muito bons, levando a um crescendo de suspense que culminou com a revelação da identidade de “Hale”, Connels e Musashi – este último talvez merecesse ter tido um pouco mais de tempo de tela na temporada, em especial pela excelência de seu intérprete, o ator japonês Hiroyuki Sanada (de O Samurai do Entardecer e Sunshine).

O título do episódio faz novamente referência a um poema, como no episódio anterior. Desta vez, a obra mencionada chama-se “O Novo Colosso”, escrito em 1883 e de autoria da poeta estadunidense Emma Lazarus. O poema foi escrito como forma de arrecadar fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade (onde, aliás, está esculpido), famoso marco turístico em Nova York. A “Mãe dos Exílios”, citada no poema, faz referência justamente à estátua, uma das primeiras visões dos imigrantes que buscavam liberdade e uma vida melhor dos Estados Unidos. Mas o que isso tem a ver com Westworld?

Mais uma vez, são várias as interpretações possíveis. A principal equipara Dolores ao ideal de liberdade, sendo ela a líder que pode oferecer um novo mundo onde os anfitriões possam viver sem o uso e a opressão dos humanos.  Além disso, ela é a “mãe” de suas outras versões retiradas do parque. A questão da maternidade/paternidade, da produção e criação de vida, é um dos temas que permeiam a série desde o seu princípio: ao criar uma inteligência artificial requintada, o homem se faz deus e cria uma vida? Nesta temporada, pode-se relembrar desde a célula que se cresce, na abertura, até a posição fetal de Dolores e Hale-Dolores no epiódio anterior, sem falar na afirmativa feita por ela que “não possui mãe nem pai”, durante diálogo com “Hale”.

O fato de descobrirmos que Paris destruída por uma bomba nuclear traz, além do impacto afetivo, mais uma referência à Estátua da Liberdade, uma vez que foram os franceses a doar a obra para os Estados Unidos. Embora não fique explícito, aparentemente essa destruição de Paris pode ter tido a participação direta ou indireta de seres artificiais, uma vez que Serac associa a lembrança de sua cidade de infância à firmeza de seus propósitos pró humanos e antianfitriões.

Durante o leilão de garotos e garotas de programa – que lembrou em parte as cenas da orgia em De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick – temos mais uma reflexão de Dolores sobre quanto o mundo dos humanos e dos anfitriões são semelhantes: jogos e rotinas em que os mais poderosos usam os menos empoderados. Se isso vai afetar os planos da anfitriã, ainda se há de acompanhar.

Outra frase que borra um pouco a margem sobre o que é ser humano e o que é ser artificial vem do comentário de Roderick, amigo que apresenta a Dempsey a droga Genre. Ele comenta que ela afeta direto “o implante e a corrente sanguínea”. Já vimos em episódio anterior que Caleb tem um implante no céu da boca.  Será essa a nova realidade dos seres humanos?  Todos recebem algum tipo de implante?  Ou, quem sabe, apenas os que tem meios para fazê-lo (dinheiro, no caso de Dempsey, e o passado militar, no caso de Caleb)?

Os roteiristas voltam a oferecer à personagem de Maeve um “superpoder”: no parque, ela já tinha aprendido a controlar os anfitriões. No mundo real, esse controle parece ser ter se estendido a qualquer objeto elétrico ou eletrônico. Algo que a série consegue fazer, até agora, é não fazer com que essa superpotência acabe tornando a personagem desinteressante pela facilidade de resolução de conflitos:  Maeve ainda é mantida sobre controle indireto de Serac e é derrotada por uma adversária mais do que a altura. Algo muito revelador em sua visita ao esconderijo da Yakuza é a descoberta que um reservatório gigantesco do líquido branco com o qual são feitos os anfitriões:  parece claro que um dos passos do plano de Dolores é (re)criar um exército para lutar a seu lado.

As simbologias do arco do Homem de Preto são ainda mais complexas.  Os realizadores têm conseguido manter certas rimas e contrapontos visuais com outras temporadas, e ainda agregar mais valor simbólico à narrativa. Um exemplo é a cena em que William sai da banheira:  a água é considerada um dos grandes símbolos do inconsciente (uma vez que em geral não se sabe o que há por baixo da superfície) – ao emergir da banheira, ele tenta justamente voltar a uma consciência mais clara. Por outro lado, a banheira também foi o lugar onde a esposa se matou, o que mostra que ele não consegue superar os traumas passados.

Dolores parece ter conseguido uma forma de torturar eternamente seu “velho amigo” do parque. Sejam as aparições de Emily meras alucinações (duvido) ou partes programadas em seu cérebro, o fato é que William parece estar agora em um labirinto de insegurança mental do qual é muito difícil escapar. É claro que, sendo esta apenas a metade da terceira temporada, provavelmente há muito mais sobre o Homem-de-PretoBranco por vir.  Diálogos como a afirmativa de Dolores de que conhece William “até o ossos” reforçam que ele pode ser uma recriação feita por ela, como parte de seus planos de conquista da Delos e de vingança contra ele. Há que se lembrar que falta descobrir ainda a atividade da quinta pérola retirada do parque por Dolores: seria justamente a usada para refazer William?

Embora acredite estar no controle da própria consciência e memória, os encontros com a filha fizeram William questionar temas como a moralidade e o livre arbítrio. Esta é apenas mais uma revisita dos escritores da série a esses temas:  se os anfitriões são programados, eles têm livre arbítrio?  Será que o próprio ser humano tem livre arbítrio ou é moldado, em grande medida, pelos loops e condicionamentos a que se expõe?  E se assim o é, o que os diferencia dos seres artificiais por eles criados?  Se ambos os mundos são tão semelhantes, como cada vez mais entende Dolores, faz diferença o nível de artificialidade de um ser?

Para reforçar a sensação de repetição e vida cíclica, Westworld tem, em sua terceira temporada, abusado das rimas visuais e de repetições de frases já ditas anteriormente, porém em outros contextos.  Por exemplo: Dolores diz a Bernard que “as pessoas vivem até que a última pessoa que se lembra delas se vá”, frase exatamente igual à dita por Akecheta no episódio 8 da temporada anterior; Dolores deitada abraçada a “Hale” repete o abraço dado por Teddy anteriormente; Dolores (agora como “Hale”) repete o ato de fazer a barba de William. Seria a vida de humanos e de anfitriões limitada apenas a repetir um limitado número de reações?

A revelação sobre a identidade de “Hale” acabou comprovando, mas de forma muito mais megalômana, a ideia de que Dolores tivesse usado parte de si própria para recriar uma das pérolas do parque. Resta saber se a possibilidade de replicação infinita de um personagem em diversos corpos não criará uma armadilha para o desenrolar de futuras temporadas. Por mais que seja interessante provocar a surpresa nos espectadores, há que se fixar alguma âncora em um elemento qualquer da história. Se não sabemos se é presente ou passado, se é realidade ou simulação, e se os personagens são mesmo quem pensamos que são, o fio de investimento afetivo na série pode se esgarçar. Ainda be, que, ao menos por hora, Joy e Nolan ainda conseguem manter a tensão positiva da série.

por D.G.Ducci

 

O Novo Colosso
de Emma Lazarus

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado”.

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 2    Média: 4.5/5]
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