Westworld 3.3 – The Absence of Field (resumo e crítica do episódio)

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

TERCEIRO EPISÓDIO DA TERCEIRA DE WESTWORLD

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O terceiro episódio da terceira temporada de Westworld retomou a trama do encontro entre e Caleb e Dolores, ocorrido no final do primeiro capítulo. Emocionalmente, no entanto, a personagem central de “The Absence of Field” foi Charlotte Hale – ou melhor, o(a) anfitriã(o) que ocupa a réplica da alta executiva da Delos…

Caleb chama uma ambulância para Dolores. Entretanto, o veículo é abordado por dois policiais falsos, que acabam sendo mortos pela anfitriã. Inicialmente, Dolores opta por distanciar-se de Caleb, que segue sua vida e visita uma vez mais sua mãe no hospital. Ela torna a não o reconhecer como filho. Abordado por dois homens interessados no paradeiro de Dolores, Caleb é torturado e vê a morte de perto, até que a anfitriã original da Delos o salva – com a ajuda de informações obtidas junto a Martin Conells, segurança da Incite – e procura recrutá-lo para a revolução contra os humanos.

Esse recrutamento passa pela revisita de memórias dolorosas (ahá!) de Caleb: o momento em que ele foi abandonado pela mãe em uma lanchonete, aos oito anos de idade. Questionada sobre como pode conhecer cada detalhe da cena, Dolores conta a ele sobre o Rehoboam, que não apenas acumula dados sobre as pessoas, mas controla também as possibilidades do futuro de cada um.  Ela pretende desativar (ou ao menos cortar o acesso a) o Rehoboam e “mostrar o mundo como ele é”.

Na trama principal, o episódio começa com uma cena na qual Charlotte Hale (possivelmente a original humana) grava uma mensagem para seu filho Nathan, durante um tiroteio – cena que remete ao final da primeira temporada, durante a rebelião dos anfitriões. Acompanhamos a criação de um novo anfitrião com a aparência de Hale, e o diálogo entre Dolores e o novo(a) ocupante desse corpo.  A série ainda não deixa clara de qual das quatro unidades de controle retirada do parque por Dolores esse(a) ocupante se trata (o quinto foi Bernard Lowe, que ainda não havia sido recriado na época desta cena).

Desde a reativação, há um certo estranhamento e resistência por parte dessa consciência ao novo corpo, e vários dos acontecimentos do episódio demonstram essa crise de identidade.  De volta à rotina da vida de Charlotte em São Francisco, a nova “Hale” é apresentada a um transformer uma nova unidade de controle de tumultos da Delos, criada após os acontecimentos nos parques da empresa. Além disso, é informada de que a Delos vem sendo sendo comprada discretamente ao longo de anos, a ponto de 38% do controle das ações já estarem nas mãos desse comprador – ninguém menos que Engerraund Serac, personagem de Vincent Cassel, de quem a Delos não consegue obter maiores informações.

A Delos, além disso, descobre que unidades de controle estão faltando, após inventário dos parques. Entre elas, a de uma anfitriã considerada entre as principais: Maeve Millay. Apenas alguém com alto nível de acesso na empresa poderia ter feito isso. Deduz-se, assim, que há um espião na Delos. Na vida familiar, a falsa “Hale” também não encontra paz. Esquece frequentemente de buscar o filho na escola e não encontra grande empatia nos braços do ex-marido Jake, que também a considera uma mãe ausente. A relação com Nathan encontra-se de fato estremecida, e “Hale” parece não ter muita naturalidade para desempenhar o papel materno.

A insegurança quanto aos papéis a serem desempenhados na empresa e na família se agrava, e chega a fazer com que “Hale” passe a automutilar-se – comportamento estranho para anfitriões, como aponta Dolores, por eles terem protocolos de controles de impulso. Dolores controla a companheira, conserta as cicatrizes causadas pelos ferimentos auto infringidos e tem com ela um momento trocas de declarações de afeto. Quanto à aquisição da Delos por Serac, Dolores sugere que uma contraproposta seja feita, e, para isso, “Hale” terá de visitar “um velho amigo”.

“Hale” recebe a cópia do vídeo que abriu o episódio, algo que parece estreitar sua ligação afetiva e identitária com a Hale original. Ao ir buscar o filho na escola, ela percebe que o garoto está sendo vítima de um pedófilo. A descoberta a enfurece, e a anfitriã mata o criminoso com as próprias mãos, comentando ter relembrado de sua verdadeira natureza.

Informada sobre o espião na Delos, Dolores instrui “Hale” a encontrá-lo e matá-lo. Porém, algo não estava nos planos. Ao longo do episódio, “Hale” recebe várias mensagens de áudio em seu celular, contendo apenas chiados e ruídos aparentemente sem sentido. Ao final, é revelado que essas gravações, combinadas, geravam uma senha para que “Hale” pudesse entrar com contato com Serac. A própria “Hale” é a espiã infiltrada na Delos, e era para Serac que os dados do parque eram destinados na temporada anterior.

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Embora eles não apareçam durante a exibição, é sempre interessante atentar para os títulos escolhidos por Lisa Joy e Jonathan Nolan para os episódios de Westworld, e não é à toa que as críticas do Razão de Aspecto sempre os destacam. No caso deste terceiro episódio, o título é “The Absence of Field”, que faz referência direta a um poema de Mark Strand, escritor que venceu do Prêmio Pulitzer de Poesia em 1999. O texto trata sobre a busca natural da natureza pela integridade das coisas, sobre as consequências dos movimentos que fazemos e como o mundo reage a eles. A tradução integral do poema você pode encontrar ao final desta crítica.

Tentar relacionar o poema com as tramas do episódio mostra como há uma riqueza de camadas na história que estamos acompanhando. A “ausência de campo” pode retratar, por exemplo, as ações de Serac na compra das ações da Delos. A existência e as informações sobre Serac podem ser inferidas, como é comentado na série, não por sua presença direta no mercado, mas pelos movimentos que a economia global faz por conta de suas ações.

A simbologia mais interessante, entretanto, diz respeito à vida da nova “Charlotte Hale”. A misteriosa figura que ocupa o corpo artificial da executiva da Delos passa o episódio todo se movendo entre os vários papéis que precisa representar:  a agente infiltrada por Dolores, a mãe, a executiva e, ao final, a espiã de Serac. Ela está parcialmente presente e ausente em todos esses papéis, enquanto a vida a pressiona para que retome a integralidade das coisas. “Hale” tem claras dificuldades em conciliar todas essas novas atribuições com sua personalidade original – e talvez apenas após assassinar o pedófilo seu “campo” tenha conseguido se aproximar de uma nova estabilidade – o que lembra também a ideia de “fechamento da Gestalt”, em psicologia, mas isso é assunto para outro anfitrião dia.

Embora um pouco menos fluido que seus antecessores nesta temporada, o terceiro episódio trouxe uma densidade de pistas – mais óbvias ou mais escondidas – sobre os rumos da série. A segue mantém suas reflexões sobre identidade e livre arbítrio, desta vez não restrita a androides e seres dotados de inteligência artificial, mas ao próprio homem na sociedade hiper conectada.

A coleta de dados pessoais em grande escala está bem longe da ficção científica – e, nesse sentido, a opção de Westworld pelo tema é bastante certeira: cada opção de compra, vídeos assistidos online, cliques e outros comportamentos atualmente já são reunidos por empresas e instituições para montar perfis pessoais. O Rehoboam desta temporada é apenas uma hipérbole dessa tendência – em que uma máquina seria capaz, inclusive, de usar big data prever e definir o futuro do indivíduo. Em um cenário como esse, seria possível se falar em liberdade ou mudança de rumos? A tensão entre indivíduo e forças externas (seja a programação dos loops de um anfitrião ou os loops que a vida social acaba nos obrigando – será? – a seguir) extrapola as temporadas anteriores e ganha mais paralelos e ambiguidades.

E por falar em ambiguidades, pelo terceiro episódio seguido há menção à possibilidade de uma realidade simulada – quando Dolores fala na função do Rehoboam de juntar dados para formar “a mirror world of this world”. A temporada parece caminhar para que, em algum momento, seja revelado que parte da narrativa que estamos vendo ocorre dentro de uma simulação.

Como é tendência na temporada, alguns dos segredos estão sendo revelados dentro do próprio episódio em que são apresentados – neste caso, por exemplo, a identidade do comprador secreto de ações da Delos. Por outro lado, há duas questões que aparentemente só terão seu esclarecimento ao final dos capítulos deste ano.

A primeira diz respeito à natureza de Caleb.  Novamente o episódio mostra que sua mãe não o reconhece como filho (criando, aliás, um paralelo com a cena em que Nathan expressa estranhamento com “Hale”). Além disso, a cena em que Caleb quase é morto revela uma estrutura artificial no céu de sua boca – o que pode ser um implante militar em um humano (o que faria dele um ciborgue) ou a pista para algo ainda artificial. As considerações da crítica do primeiro episódio da série aqui se aplicam novamente:  se ele já tomou um tiro na cabeça e sobreviveu, o quão humano ele ainda é?  Por outro lado, Dolores tem informações sobre detalhes da vida de Caleb e o trata, ao menos aparentemente, como um humano, não como híbrido ou máquina. Ignorância ou uso esperto da informação por parte de Dolores?  Ou, meos provável, falha de roteiro?

O fato é que sua humanidade – em termos de sentimentos e comportamentos – parece ter tocado Dolores. A anfitriã parece começar a relativizar sua compreensão sobre os humanos – em grande medida, tão presos pelo sistema que os cerca quanto anfitriões em um parque de diversões. Será que essa nova visão sobre a humanidade afetará os planos de Dolores?

O segundo segredo ainda guardado pela série é a identidade de quem ocupa o corpo de Charlotte Hale. Este episódio, se não possibilitou uma maior certeza sobre essa resposta, ao menos descartou várias hipóteses. O nível de carinho, intimidade e identidade (“ninguém sabe tanto de mim quanto você”, “você pertence a mim”) demonstrado entre Dolores e “Hale” foi enorme, a ponto de que a ideia de termos Clementine ou qualquer outro(a) anfitriã(o) menos importante no papel da executiva da Delos seja extremamente improvável – embora eu não descartaria Angela, que lutou ao lado de Dolores e se sacrificou por sua causa ao explodir a Forja.

Em termos de afeto, poderíamos até pensar em Teddy (o anfitrião-namoradinho de Dolores) ou Peter Abernathy (o anfitrião que fazia papel de seu pai). No primeiro caso, temos dois fatores contra: o primeiro é que a consciência de Teddy se encontra no Éden virtual, não em uma das unidades de controle levadas por Dolores – aliás, o que anula também a ideia de que ele ocupe o corpo de Martin Connels. A segunda é que provavelmente haveria uma maior tensão sexual entre ele e Dolores, e o que o episódio mostra é um grande afeto, porém de outra natureza. Com relação a Peter Abernathy, além de ser exagerada a ideia de que ele conheça Dolores tão intimamente assim e “pertença” a ela, na conversa inicial com a nova “Hale” afirma-se que ambos “não têm mãe nem pai” – algo que provavelmente alguém acostumado com o papel de filha não diria.

Restam, então, as duas teorias, por hora, mais “quentes”:  a primeira seria a de que “Hale” seja ninguém menos que Caleb, e que as cenas da executiva da Delos se passem em uma linha temporal posterior ao seu recrutamento por Dolores. Essa teoria encontra dificuldade no fato de que provavelmente Hale não poderia ficar tanto tempo simplesmente desaparecida. Além disso, a imensa intimidade com Dolores não seria justificada. A segunda teoria retoma a figura de Wyatt – personalidade inserida na mente de Dolores, como explicado na primeira temporada – responsável pelo massacre dos anfitriões em Escalante e pela morte de Arnold. Segundo essa ideia, Dolores teria sido capaz de separar os dois lados de sua identidade, colocando um deles no corpo de Charlotte. A tomada de câmera na cama, que lembra a posição fetal, reforçaria a origem comum das duas anfitriãs. Ambas as teorias parecem um pouco absurdas, mas dado o passado da série, nada é totalmente impossível.

Algo que também já se pode esperar para o futuro da série é a utilização dos novos robôs de contenção de tumultos da Delos, que me lembraram – não tanto no design, mas na ideia – os ED-209 do filme Robocop, clássico de 1987 dirigido por Paul Verhoeven. Eles certamente serão usado e controlados por algum dos lados do conflito sendo construído ao longo da temporada. Resta saber se pela própria Delos ou por algum hacker externo.

Entre os grandes momentos do episódio, tivemos o contraponto entre o lado predador de “Hale” e a atitude de um pedófilo, que nada mais é que um predador das crianças. Aliás, termos de texto – com afirmações que podem ser interpretadas em mais de um contexto, este foi um dos grandes episódios da série. Como ponto negativo do episódio, além do ritmo um pouco menos certeiro que os anteriores, destaca-se a montagem da cena em que Caleb enfrenta os atiradores do lado de fora da ambulância. Repare que os cortes geram um senso de movimentação confuso por parte do protagonista.

E semana que vem: o Homem de Preto!

por D.G.Ducci

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Mantendo as coisas por inteiro
de Mark Strand
[tradução de D.G.Ducci]

Em um campo
Eu sou a ausência
Do campo
Este é
Sempre o caso.
Onde que que eu esteja
Eu sou o que está ausente.

Quando eu caminho
Eu afasto o ar
e sempre
o ar se move de volta
para preencher os espaços
onde meu corpo esteve.

Todos temos razões
para nos movermos.
Eu me movo
para manter as coisas por inteiro.

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