Westworld 3.1 – Pace Domine

AVISO !!!

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DO

PRIMEIRO EPISÓDIO DA TERCEIRA DE WESTWORLD

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Após quase dois anos de hiato, finalmente a série Westworld, da HBO, está de volta, desta vez para uma temporada de oito episódios.  Se você quiser relembrar cada um dos episódios das temporadas anteriores, bem como assistir a uma Mesa Quadrada® especial sobre a série, basta clicar aqui.

O recordatório inicial do episódio inicia-se resumindo os instrumentos da partitura as forças no tabuleiro: Dolores tem o objetivo de dominar o mundo real – e não poupará violência para fazê-lo. Ela se utilizará, entre outras coisas, das informações sobre os visitantes dos parques da Delos, obtidas nos “livros” lidos por ela na Forja, além das unidades de controle que guardam a consciência de hosts, surrupiadas por Dolores em sua fuga de Westworld. Para tentar impedi-la, um Bernard recriado pela própria Dolores, sem muitos recursos ou ideia de como combater a host original.

A Delos tenta contornar as consequências do massacre em seus parques – que leva a grandes acionistas a pensarem inclusive a vender suas ações da empresa. É o caso de Gerald (“Jerry”).  Com menos de quinze minutos de episódio, Dolores – uma Evan Rachel Wood cada vez mais imponente no papel – consegue hackear os sistemas da casa inteligente de Jerry, subjugá-lo (utilizando as memórias da esposa que ele assassinara), roubar seu dinheiro e fazê-lo dividir segredos industriais da Incite, uma companhia da qual Jerry havia se aposentado precocemente. O encontro termina mal para Jerry, enquanto Eunice, sua esposa, é declarada como “liberta” por Dolores – o que deixa a dúvida se trata-se apenas de sororidade ou indica que Eunice é também um ser artificial.

Ainda em relação à Delos, o(a) anfitriã que se passa por Charlotte Hale tenta convencer o conselho diretor a vender ações da companhia e manter a produção de anfitriões, quando alguns membros do conselho diretor passam a defender que a empresa abandone o setor de parques de diversão e foque-se nas áreas centrais da empresa, de biomecânica e tecnologia agrícola. “Hale” reforça a ideia de que todo o caos e as mortes no parque, incluindo a de Robert Ford, foram orquestrados por Bernard Lowe, e sobre ele deve cair toda a responsabilidade pelo ocorrido.

Lowe, por sua vez, encontra-se disfarçado, tendo assumido uma identidade falsa, três meses após sair de Westworld. Ele trabalha no campo, em uma fábrica de processamento de carne.  Inseguro sobre a influência de Dolores em sua memória e em seu comportamento – afinal, foi ela quem o recriou -, Lowe criou rotinas para testar código e verificar se em algum momento ele foi hackeado. Jeffrey Wright volta a dar um pequeno show de interpretação ao oscilar entre as reações físicas distintas das duas partições da sua memória. Não demora muito para que dois dos empregados o identifiquem como o homem procurado pelo massacre em Westworld. Lowe os subjuga com sua força física de anfitrião, e decide retornar ao parque onde tudo começou.

Dolores, sob o nome de Lara Espen, segue seu plano e começa a namorar Liam Dempsey Jr, da empresa Incite. Por trás do relacionamento está o interesse da anfitriã original em ter acesso e/ou controle do Rehoboam, um maxicomputador criado pelo pai de Liam, cujas estratégias e algoritmos teriam “salvo o mundo”.  Martin Connels, segurança da Incite, alerta Liam de que “os parceiros” da empresa querem um encontro urgente sobre um tema importante. Liam e Dolores vão para Los Angeles, e em um diálogo entre ambos transparece que a Incite tem um nível imenso de controle sobre a cidade. Dolores é apresentada ao Rehoboam, e Liam explica que o computador foi criado por seu pai para maximizar o potencial das pessoas e do planeta. Ao seguir o namorado, Dolores testemunha o encontro entre ele e Martel, uma representante de uma figura importante entre os tais “parceiros”, que expressa preocupação com a possibilidade de que alguém tenha adquirido acesso ao Rehoboam.  Mais tarde, Liam revela a Dolores que não tem controle sobre o Rehoboam, porque após a morte de seu pai, outro sócio da empresa o deixou de fora do acesso ao sistema. Assim, embora tenha acesso a algumas camadas superficiais do computador, Liam não tem a menor ideia do que a máquina está realmente fazendo.

Desconfiado de Lara, Martin Connels a faz desmaiar com um taser e revela que Lara Espen é uma identidade falsa. A suspeita é de que ela esteja envolvida com espionagem industrial ou que queira apenas chantagear Liam. Triste e frustrado, Liam se vê impotente diante da decisão de Connels de se livrar daquela mulher.  Ela a transporta em uma espécie de helicóptero futurista até um parque, e usa o Rico, um aplicativo semelhante ao Uber – mas destinado a contratar bandidos -, para conseguir mão de obra para entregar uma substância mortal a ser injetada em Dolores. O que ele não contava era com o corpo artificial de sua vítima, que não apenas sobrevive, embora ferida, como mata Connels e seus campanhas, e o substitui por um anfitrião de mesma aparência. Antes de morrer, Connels revela que o sócio do pai de Liam, que o deixou de fora do Rehoboam, chama-se Serac, e que provavelmente ele está procurando por ela naquele exato momento.

A série ganha um novo personagem importante em Caleb, trabalhador da construção civil que passa os dias recebendo telefonemas de Francis, amigo antigo, que serve como uma espécie de psicólogo. Para ajudar nas despesas, Caleb às vezes procura por oportunidades no Rico. Ele prefere crimes menores, e evita trabalhos “pessoais” – i.e. que envolvam assassinatos, sequestros, etc.  Em um desses trabalhos, ele acaba cruzando sua história com a de Dolores, que cai em seus braços – em uma rima visual com a primeiríssima temporada de Westworld, quando a personagem cai nos braços de William. Quanto a Francis, não exatamente muita surpresa ao final do episódio descobrir que Francis tratava-se, na verdade, de uma inteligência artificial. A informação mais interessante é que essa inteligência artificial foi baseada na consciência de um antigo companheiro do passado militar de Caleb, morto em uma das operações. A ironia fica no desejo de Caleb por algo ou alguém real, justamente respondido pelo encontro com a anfitriã que quer conquistar o mundo dos humanos.

A nova abertura

Quem acompanha a série desde o início sabe que as vinhetas de abertura dos episódios – diferentes a cada temporada – trazem elementos que, se bem lidos, podem indicar os temas e os rumos gerais da série. Desta vez, duas referências artístico-mitológicas são aparentes: “A Criação de Adão”, quadro de Michelângelo, que registra o momento em que Deus dá vida ao primeiro homem quando os dedos indicadores e ambos se encontram; e o mito grego de Narciso, no qual, hipnotizado pela própria beleza refletida na água, um caçador acaba por se afogar ao cair em um lago. Outros elementos são o próprio Rehoboam, que parece ser o objeto de disputa da temporada; a águia, que traz a sensação do voo e da liberdade, e o dente-de-leão, que tem um significado duplo: ao mesmo tempo em que espalha suas centenas de sementes ao vento facilmente, é uma flor bastante frágil por si só.

Tudo isso pode significar que o plano de Dolores ao mesmo tempo pode ter consequências globais – especialmente se ela vir a controlar o Rehoboam, mas acabar com a anfitriã vítima da própria prepotência e fascinação com sua nova condição de liberdade. A águia se desfaz ao final da abertura; o anfitrião afunda; o homem anfitrião vitruviano volta para seu ambiente de criação, desta vez vermelho (sangue? Violência?) em vez de sair dele.

O mais interessante, entretanto, está no que permanece na abertura: as mãos tocando piano. Há um músico por trás do que acontece, tocando com segurança a trama. Não me admiraria que em uma futura temporada voltemos a ver o Dr.Robert Ford na telinha.

Impressões

A terceira temporada começou com uma cara bem diferente das anteriores e com um ritmo já bastante acelerado. Em seu primeiro episódio, “Parce Domine”, somos apresentados a novos personagens, tecnologias e elementos do mundo real.  O título do episódio significa “Poupe-nos, Senhor”, e remete a uma passagem bíblica (Joel 2: 17) na qual a piedade de Deus é implorada: “Poupa o teu povo, Senhor. Não faças da tua herança motivo de zombaria e de piada entre as nações. Porque se haveria de dizer entre os povos: ‘Onde está o Deus deles”.  No contexto do episódio, resta entendermos a quem está se implorando piedade: possivelmente  a Dolores e sua vingança contra os humanos, seus criadores, que prevê a ascensão de uma nova espécie.

O mundo real mostrado por Westworld tem aquela proximidade incômoda com o mundo que conhecemos. Ao mesmo tempo em que há tecnologias mais avançadas, robôs de inteligência artificial mais complexa, carros futuristas, drogas para dormir que transportam a cenários escolhidos, tudo é extremamente palpável. Caleb mora em um apartamento simples, pega o metrô para o trabalho, tem problemas com os custos do tratamento da mãe internada, tenta arrumar um emprego melhor e faz bicos por fora para aumentar a renda. É um elemento extremamente humano e contemporâneo na série. Por outro lado, é uma abordagem de futuro não muito diferente das que outros filmes e séries de ficção científica já não tenham feito, o que traz a Westworld – neste aspecto específico – uma cara menos inovadora. Sua força terá de vir do roteiro e das interpretações, e isso aparentemente continua de qualidade.

Durante o coquetel em homenagem a Liam, o personagem Roderick levanta a hipótese de que todos vivam em uma simulação, mesmo no que percebem como mundo real. Não parece ser uma hipótese séria com a qual a série vá trabalhar, e sim um aceno a teorias circuladas pelos fãs. De toda forma, um tema forte do episódio foi a questão da vida ser ou não um jogo, estar ou não controlada por um sistema, e o quanto adianta jogar esse jogo se as regras são subvertidas para que os jogadores sempre percam. Isso retoma não apenas o destino de frustração indicado pela abertura da nova temporada, como a discussão sobre livre arbítrio já visitada pela série Westworld por tantas vezes.

Outro paralelo pode ser estabelecido entre o Rehoboam, máquina capaz de compilar e processar uma massiva quantidade de dados sobre as pessoas, e as atividades dos parques de diversão da Delos, que funcionam com fachada para a coleta de dados dos visitantes. Seriam Delos e Incite concorrentes?  Veremos uma temática semelhante – a da coleta e da segurança de dados pessoais, tão contemporânea aos espectadores -, mas tratada em uma escala mundial desta vez?

Como algumas das perguntas que ficam do episódio, pode-se citar:

1. A série agora se utiliza de vinhetas para apontar em que cidade se passa determinada ação. Nessas vinhetas, há uma espécie de “poeira” ou “energia” marcando a curva do planeta. Seria esse visual apenas uma escolha estética menos importante, apenas para marcar a atividade do Rehoboam ao redor do mundo, ou seria indicativo de algo relevante para o roteiro?

2. E quanto à Caleb? Ele é humano, anfitrião ou algum tipo de híbrido? Em seus diálogos com Francis, é relevado que Caleb prefere não reativar “seus implantes”, o que indica ao menos algum nível de artificialidade nele. Sua mãe no hospital afirma que Caleb não é seu filho. No encontro com um capanga da Incite, Caleb afirma que já recebeu um tiro na cabeça antes. No pequeno especial exibido após o episódio, Lisa Joy menciona que a programacão de Caleb o leva a salvar Dolores.  Qual então será a verdadeira natureza de dele?

3. Quem ocupa os corpos de Charlotte Hale e de Martin Connels? Neste último as apostas vão para que a unidade de controle de Teddy esteja alocada, voltando à velha função de proteger Dolores. E quanto a Hale? Quem mais poderia ser?  Who the Hale is she, como perguntaria Jeffrey Wright?  Compartilhem suas teorias conosco!

Como já havíamos apontado na crítica da segunda temporada, Westworld, embora mantivesse seu nível elevado, começava a correr o risco de uma hipercomplexificação narrativa, capaz de afastar a audiência menos fanática. Os realizadores da série, Jonathan Nolan e Lisa Joy, parecem ter entendido esse cenário e trazido uma nova temporada mais com uma trama contada de forma mais direta. O primeiro episódio é didático quanto à geografia, explicitando onde se passam as diversas cenas (Beihai, Los Angeles e Londres) não parece haver, ao menos por agora, qualquer manipulação narrativa com uso de linhas temporais distintas. É muito provável, claro, que haverá surpresas, revelações inesperadas ao longo dos próximos episódios – a compartimentação da memória de Lowe, por exemplo, dá um imenso campo para isso. Ainda falta aparecer vários personagens importantes das temporadas anteriores – principalmente o Homem de Preto, protagonista da chocante cena pós-créditos no último episódio da segunda temporada. De tora forma, a arejada na série garante, no mínimo, uma renovação de energias.

 

por D.G.Ducci

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