Especial: Dezessete filmes sobre a Primeira Guerra Mundial

Com o lançamento do filme 1917 (cuja crítica exclusiva do Razão de Aspecto você pode ler aqui), a Primeira Guerra Mundial (ou “A Grande Guerra”, como era chamada na época) volta às atenções dos cinéfilos.  Embora o filme de Sam Mendes seja bem sucedido na imersão do espectador, ele mostra pouco sobre o conflito.

Para quem quer assistir mais filmes sobre o tema, o Razão de Aspecto selecionou mil novecentos e  dezessete filmes sobre a Primeira Guerra, muito menos retratada no cinema do que sua continuação, no fim da década de 1930. A lista traz um pouco de tudo – de filmes mais realistas sobre a guerra até comédias e – sim! – um musical.

Mas lembrem-se, razoáveis e razonettes, Mestre Yoda já dizia que “guerra não faz ninguém grande…”

 

I) O Grande Desfile (The big parade, 1925)

Embora não tenha sido o primeiro filme a tratar das mazelas da Primeira Guerra, O Grande Desfile foi o maior sucesso a respeito do tema na era do cinema mudo. Baseado em uma autobiografia de um veterano de guerra (“Plumes”, de Laurence Stallins), a história é centrada em um jovem americano rico que entra para o Exército americano e é enviado para os campos de batalha da França, onde experimenta os horrores da guerra de fronteira (e se apaixona por uma garota francesa, obviamente). A obra ficou 96 semanas em cartaz e arrecandou 5 milhões de dólares – uma fortuna para a época – apenas nos Estados Unidos. Foi o filme de maior lucro da MGM até aquele ano, e o mais lucrativo filme mudo de todos os tempos, com mais de 22 milhões de dólares (quase 320 milhões de dólares, em uma época pré-blockbusters) arrecadados no mundo todo.

 

2) Asas (Wings, 1927)

Asas retira os espectadores das trincheiras e os leva para os céus sobre os campos de batalha. Lançado pela Paramount Pictures e tendo como chamariz a atriz Clara Bow, musa da época, o filme se foca na história de dois jovens da mesma cidade – inicialmente adversários, depois amigos e companheiros de guerra – que se alistam para participar da força aérea. O diretor William A.Wellman, embora não fosse um grande nome de Hollywood, foi chamado para conduzir o projeto por ser piloto de guerra veterano . Ele contratou cerca de 300 pilotos, milhares de extras e afixou câmeras nos aviões para as filmagens. O resultado foi uma coleção de cenas de batalhas aéreas que deslumbraram a crítica e o público. Entre as curiosidades, o filme traz uma ponta de Gary Cooper (que veria a partir dali sua carreira deslanchar), além de ser uma das primeiras obras a mostrar nudez (masculina e feminina, ambas discretas, é claro) e um beijo entre dois homens. Asas foi o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme (Melhor Produção, como era chamado na época). Foi o primeiro e único filme mudo a conseguir a façanha (desconsiderando aqui a vitória de O Artista, de 2012, que é mudo por opção estética do diretor).

 

3) Anjos do Inferno  (Hell’s Angels, 1930)

Dirigido pelo magnata Howard Hugues (cuja vida foi parcialmente cinebiografada em O Aviador, de Martin Scorcese), o filme entrou para a história pelos acidentes e mortes de pilotos durante a produção, pela demora das filmagens e por seu orçamento gigantesco.  O próprio Hugues, piloto e entusiasta de aviação, sofreu um sério acidente ao tentar demonstrar a outros pilotos que determinada manobra aérea poderia ser feita. Planejado originalmente como filme mudo, Anjos do Inferno já tinha avançado cerca de um ano e meio nas filmagens quando foi lançado O Cantor de Jazz (1927), primeiro filme falado de Hollywood. Hugues decidiu refilmar boa parte das cenas já se utilizando da nova tecnologia, o que custou o emprego da atriz norueguesa Greta Nissen, que tinha um sotaque muito forte. Em seu lugar, uma certa Jean Harlow foi chamada, e viria a se tornar uma das grandes musas da época. Para completar os problemas da produção, Hugues se envolveu em um processo contra o filme A Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol), acusado de plagear o roteiro de Anjos do Inferno. Mesmo com todos os problemas, o filme foi elogiado por suas cenas aéreas (embora nem tanto pelo roteiro) e tornou-se influente para outros filme de aviação.

4 – Nada de Novo no Front (All Quiet on the Western Front, 1930)

Baseado no livro do escritor alemão Erich Maria Remarque, o filme tem como novidade retratar o dia a dia dos soldados alemães na guerra. Desde o entusiasmo inicial com o patriotismo pregado nas escolas até as agruras e mortes constantes na frente de batalha, o filme dirido por Lewis Milestone foi um marco [ahá, eu não resisto] entre as obras anti-belicistas da época. Foi considerado uma das obras mais violentas do cinema até então, por mostrar com o realismo possível os horrores da guerra, com mutilações e mortes bárbaras. Por conta de sua mensagem, acabou banido da alemanha nazista – onde chegou a sofrer atentados por ocasião da sua première -, sendo liberado apenas em 1952. Foi proibido também na Austrália entre 1930 e 1941, acusado de apologia ao “pacifismo” [sim, é isso mesmo!], além de na Itália, na Áustria e na França. Levou os Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor. O livro de Remarque foi filmado novamente para a TV em 1979, com nomes como Ernest Borgnine e Iam Holm no elenco.

5 – A Grande Ilusão (La Grande Illusion, 1937)

Filme francês dirigido pelo renomado Jean Renoir, A Grande Ilusão conta a história de dois aviadores franceses que são abatidos e feitos prisioneiros de guerra. Na prisão, encontram outros soldados franceses capturados e passam a planejar sua fuga. Realizado em um momento em que o recrudescimento do nazismo e das tensões na Europa já apontavam para um segundo conflito de proporções globais – o quê de fato ocorreria em 1939 – A Grande Ilusão trata de relações de classe e de etnia no ambiente bélico, além da necessidade do humanismo contra a futilidade da guerra. O Ministro da Propaganda Nazista Joseph Goebbels mandou apreender o filme assim que os alemães ocuparam Paris, e se referia a Renoir como “O Inimigo Público Número 1 do Cinema”.  Foi a primeira produção estrangeira indicada ao prêmio de Melhor Filme no Oscar.

 

6 – Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957)

Muito antes de Nascido para Mataro mestre Stanley Kubrick já havia se dedicado às injustiças da guerra em seu Glória Feita de Sangue. A história traz o astro Kirk Douglas – com quem Kubrick voltaria a trabalhar no épico Spartacus –  no papel de um coronel francês que tenta livrar soldados injustamente acusados de covardia do fuzilamento. Glória Feita de Sangue frequenta as listas dos 100 melhores filmes de todos os tempos. O Razão de Aspecto fez um especial sobre o diretor, e a crítica desse filme pode ser lida aqui.

 

7 – A Grande Guerra (La grande guerra, 1959)

Comédia de guerra – ou melhor, uma “dramédia”, já que o filme não poupa os espectadores da realidade do conflito no front italiano. Dirigido por Mario Monicelli, A Grande Guerra conta a história de dois soldados  italianos preguiçosos, que arrumam diversas desculpas para não trabalharem ou participarem das missões contra o Império Austro-Húngaro. Realizado em uma Itália que ainda carregava a sombra do facismo e da luta ao lado dos nazistas alemães, A Grande Guerra funcionou como uma espécie de expurgo dessas ideias. Com sua utilizanção da ironia como instrumento para forte crítica histórica, o filme ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1959 e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

 

8 – Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962)

Provavelmente um dos melhores filmes da história do cinema. Trata-se da videobiografia do arqueólogo, militar, diplomata e escritor galês T.H.Lawrence, que ganhou a alcunha do título por seu trabalho e liderança junto aos povos árabes, fazendo diretamente parte das revoltas contra o Império Otomano, que dominava a região do Oriente Médio e Norte da África na época da Primeira Guerra Mundial. Com quase quatro horas de duração, o filme é um espetáculo cinematrográfico em todos os sentidos. Foi a estreia de Peter O’Toole no cinema, em um elenco que contava com nomes do peso de Alec Guinness, Omar Sharif e Anthony Quinn. O filme foi indicado a dez prêmios Oscar, dos quais ganhou sete, incluindo Filme, Diretor (para o genial David Lean), Fotografia (impossível não ficar boquiaberto com as épicas cenas no deserto), Som, Edição, Direção de Arte e Trilha Sonora (inesquecível, composta por Maurice Jarre). Uma curiosidade que poucos sabem é que o filme recebeu uma espécie de continuação em 1992, com o filme para a TV Um homem perigoso, que trazia Ralph Fiennes no papel principal e se concentrava na participação de T.H.Lawrence na Conferência de de Paz de Paris em 1919, quando foram discutidos os rumos do pós-guerra – inclusive o futuro dos países árabes.

 

9 – Oh! Que Bela Guerra! (Oh! What a Lovely War, 1969)

Oh! What a Lovely War foi originalmente um musical criado por Joan Littlewood em 1963. Tratava-se de uma sátira sobre a Primeira Guerra Mundial e sobre a guerra como um todo. Seis anos depois o musical foi levado cinema pelo ator e então diretor estreante Richard Attenborough (que dirigiu clássicos como Chaplin, Chorus Line e Gandhi, mas que você provavelmente vai lembrar como o velhinho excêntrico criador o Parque dos Dinossauros). Aproveite também para ver a Damme Meg Smith (a Professora McGonagall da série Harry Potter) em um de seus primeiros papeis no cinema.

 

10 – Gallipoli (1981)

A Campanha de Gallipoli foi uma batalha ocorrida na península de mesmo nome, hoje localizada no território da Turquia, e tinha como objetivo final o controle do estreito de Dardanelos, fundamental. Ocorreu entre o fim de 1915 e o início de 1916. A Tríplice Entente (Reino Unido, França e Rússia buscavam ganhar posições estratégicas sobre o Império Otomano, aliado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro. A tentativa foi um fracasso total e as tropas foram retiradas. Como um dos artífices do plano, um certo Winston Churchill, Primeiro Lorde do Almirantado, que carregaria a clamurosa derrota no currículo por muitos anos. Os principais soldados envolvidos no ataque eram originados das forças australianas e neozelandesas, convocados pelo Reino Unido por fazerem parte da Commonwealth. Esse episódio marcante da história militar australiana foi retratado nos cinemas em 1981, trazendo Mel Gibson bem novinho dirigido por seu conterrâneo Peter Weir (que anos mais tarde dirigiria clássicos como Sociedade dos Poetas Mortos e O Show de Truman)

 

11 – Eterno Amor (Un long dimanche de fiançailles, 2004)

Retomando a parceria com a atriz Audrey Tautou, que dirigira no sucesso O Fabuloso Destino de Amelie Poulin, o diretor francês Jean-Pierra Jeunet conta a história da busca insansável de uma jovem pelo seu noivo, desaparecido durante as batalhas de Somme – as maiores do front ocidental.  A história se passa já na década de 1920, com flashbacks da época da batalha. Em sua luta por descobrir o que acontecera ao noivo, a protagonista testemunha a corrupção e a brutalidade do governo da França em relação aos soldados que tentaram escapar do conflito. No elenco, há também a presença de Jodie Foster, Gaspar Ulliel (de Hannibal, a Origem do Mal) e Marion Cottillard.

 

12 – Feliz Natal (Joyeux Noël , 2005)

Mais um filme francês na lista, Feliz Natal conta um episódio verídico ocorrido em 1914. Após uma série de batalhas sangrentas, na semana do Natal daquele ano os soldados franceses e alemães declararam uma espécie de trégua não-oficial. Em alguns pontos, atravessaram a “terra-de-ninguém” entre as trincheiras e trocaram pequenos presentes, além de realizarem funerais conjuntos e trocas de prisioneiros – e até organizaram uma partida de futebol. Feliz Natal foi muito elogiado quando de seu lançamento, por mostrar que um fiapo de camaradagem ainda pode subsistir mesmo durante um conflito daquele porte.

 

13 – Flyboys (2006)

Antes que os Estados Unidos entrassem oficialmente na Grande Guerra, em 1917, muitos jovens do país se volutariaram para participar do conflito em solo – e no ar! – europeu. Entre eles estiveram os pilotos da Esquadrilha Laffayette, criada em 1916 e sob o comando do Serviço Aéreo Francês, e composta quase que totalmente de pilotos norte-americanos. O filme traz James Franco – que chegou a tirar o brevê de piloto na preparação para o filme – como estrela principal, além de Jean Reno como o comandante da esquadrilha.  Um bom filme que traz cenas de combate aéreo realistas, e mostra relações de amor, preconceito, inveja e amizade no cenário de guerra, O personagem de James Franco foi baseado no às norte-americano Frank Luke Jr, primeiro piloto da história a receber a Medalha de Honra, maior condecoração militar dos Estados Unidos.

 

14 – My boy Jack (2007)

Filme para a TV britânica baseado em uma peça de mesmo nome, cujo título, por sua vez, é retirado de um poema do famoso escritor indo-britânico Rudyard Kipling, autor de clássicos como O Livro da Selva e O Homem que Queria Ser Rei, ambos já adaptados para o cinema. O filme conta a história de Jack Kipling, filho de Rudyard, que deseja ir para a guerra, mas tem dificuldades por causa de sua miopia. Ajudado pelo pai, que tinha contatos nas forças armadas, Jack consegue seu intento, mas é dado como desaparecido durante a Batalha de Loos, em 1915. Por três anos, o casal Kipling busca notícias do filho – ou ao menos de seu cadáver.  Drama sobre perda familiar – como tantas ocorridas durante a Grande Guerra, My Boy Jack traz Daniel Radcliff [sim, o Harry Potter] no papel principal, além de Kim Catrall (a Samantha de Sexy and the City), Carey Mulligan (de As Sufragistas) e David Haig (de Florence: Quem é Essa Mulher?) nos papéis principais.

 

15 – O Barão Vermelho (The Red Baron, 2008)

Mais um filme desta lista dedicado aos pilotos, desta vez com foco em Mandred Von Richtofen, o temido Barão Vermelho, que enfrentava o Snoopy maior às da Primeira Guerra Mundial, que chegou a 80 vitórias nos céus da Guerra. Produção alemã que traz como curiosidade a presença de Joseph Fiennes (o eterno Shakespeare Apaixonado e Lena Headey (a Cersei de Game of Thrones), o filme foi criticado pelas inconsistências históricas e pelo final anticlimático. Headey interpreta Kate Oterdorf, enfermeira que cuidou de Richtofen após um sério acidente em julho de 1917. No cinema, os dois têm um envolvimento romântico, que não possui qualquer base histórica real.

 

16 – Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

Que o diretor Steven Spielberg tem uma fascinação pela Segunda Guerra Mundial já é bastante sabido. Ele dirigiu 1941, Império do Sol, A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan, além de ter levado Indiana Jones a enfrentar nazistas por duas vezes nas telonas. Além disso, produziu duas das melhores séries sobre aquele conflito: Band of Brothers e The Pacific. No que se refere à Primeira Guerra Mundial, restou Cavalo de Guerra, centrado na amizade entre um jovem e seu cavalo, que acabam, ambos, nos campos de batalha franceses. Nomes de peso como Emily Watson, David Thewlis e Benedict Cumberbatch (antes da fama) compõe o elenco. Um bom filme, mas inferior a outros trabalhos de Spielberg.

 

17 – Eles não envelhecerão (They shall not grow old, 2018)

Como parte das celebrações do centenário da Primeira Guerra Mundial, o Museu Imperial de Guerra britânico encomendou um documentário ao cineasta Peter Jackson (aquele mesmo de O Senhor dos Anéis). Jackson teve acesso aos arquivos do museu, e não se limitou apenas a selecionar trechos dos registros históricos:  utilizando-se da tecnologia contemporânea, colorizou as imagens, inseriu efeitos sonoros e narrações de trechos de depoimentos da época. O resultado é um documentário tocante, que se foca mais na experiência de ser um soldado do que propriamente nos vários fatos ocorridos na guerra.

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E vocês, Razoáveis e Razonettes? Gostaram da lista?  Lembram-se de mais algum filme sobre a Primeira Guerra que tenha impressionado?  Escrevam para nós! Quem sabe fazemos uma segunda lista!

 

por D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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