Star Wars, a Trilodisney – grandes mitos da saga!

Este é o último de uma trilogia de textos sobre o fim (ao menos por enquanto) da saga da família Skywalker nos cinemas. Você pode ler o prequel aqui e a crítica de A Ascensão Skywalker aqui.

O texto abaixo CONTÉM SPOILERS de toda a saga.

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Encerrada mais uma – e dizem que última – trilogia Star Wars dedicada a família Skywalker, resta fazer um retcom uma retrospectiva do que passou e de possíveis rumos a serem seguidos. Foram 42 anos entre o primeiro e o último longa; dezenas de livros, games, quadrinhos, desenhos animados e até um vexaminoso especial de Natal, que criaram e encantaram uma legião de fãs, encheram o bolso de quem vende e esvaziaram o bolso de quem compra – mas foi caso de bolso vazio e coração feliz, então quem sou eu para criticar.

        

[Antes disso, insiro aqui um cameo do Líder Supremo Maurício Costa, que invade sua tela para dizer que maior crítica dele à Ascensão Skywalker foi o fato de terem dado pelo menos três closes no nariz de Adam Driver. Segundo nosso experiente diretor, isso não é coisa que se faça na telona. Aparentemente – acrescento eu – houve cinemas que nem tecnologia para isso tinham].

Muito se fala de Star Wars, e um dos temas mais caros aos fãs da saga [dentre os quais me incluo, indo ao cinema vestido de Jedi provavelmente antes do leitor ter nascido]  é a presença de elementos que remetem à mitologia. Assim sendo, resolvi encerrar a cobertura do Razão de Aspecto sobre A Ascensão Skywalker com um post scriptum justamente a respeito de alguns mitos – não da história, mas da produção – criados nessa jornada (opa, palavra perigosa) aventura em uma galáxia muito, muito distante.

 

Capítulo I – O mito de Star Wars ter sido pensado como algo profundo

Contemporâneos da geração da Nova Hollywood, George Lucas – assim como seu buddie Steven Spielberg – seguiram caminhos opostos ao de Coppola e Scorcese. Enquanto estes mergulharam na história, na violência e nas paranoias da sociedade americana, os barbudinhos da Califórnia viriam a inventar o blockbuster – filmes extremamente carismáticos, que atraíssem grandes porções do público com seus roteiros aventurescos, divertidos e fáceis de consumir.

Não há embutida aqui qualquer crítica ou inferência de qualidade maior ou menor dos blockbusters [até por ser eu mesmo da geração que viu esses filmes nascerem e se divertiu com cada um deles]. Mas o fato é que para engajar uma audiência maior, é preciso uma complexidade relativamente menor. Hoje em dia podemos pensar em um Christopher Nolan, por exemplo, que busca unir apelo ao público com roteiros mais elaborados (com doses irregulares de sucesso no intento). Mas, no fim da década de 1970 ou início da década de 1980, o importante era a diversão, o fascínio e o encanto.

A primeira intenção de George Lucas era a de adaptar para o cinema a série Flash Gordon, que adorava na infância, mas ele não conseguiu os direitos da obra. Inspirado por essas séries antigas, de episódios curtos, com cliffhangers e histórias focadas na aventura, Lucas juntaria duas de suas outras predileções – faroestes spaghetti e filmes de samurai – e conceberia Star Wars, que viria a ser o fenômeno de massa que se tornou.

Nenhuma das fontes inspiradores de George Lucas – quiçá com exceção de alguns chambara – era primores da discussão sobre a existência humana. Análises a posteriori, em especial as relativas ao mito do herói, formalizadas pelo professor Joseph Campbell em seu O poder do mito, deram a Star Wars esse ar próximo ao de uma religião moderna. Mas a coisa toda nasceu como uma grande forma de entretenimento e hipnose visual, não como uma tese de doutorado sobre o papel do campesinato na derrota do poder instituído.

 

Capítulo II – O mito das trilogias programadas

Leia as reportagens e ouça as entrevistas de épocas diferentes e você encontrará todo tipo de informação: a de que seriam 12 filmes, depois alterados para três trilogias, e que em algum momento viraram só três mesmo, para depois virarem seis e voltarem a nove. O fato é que quando foi lançado, em 1977, Star Wars era uma aposta de Lucas, e não trazia menção qualquer a “Episódio IV” e muito menos a “Uma nova esperança”. A esperança mesmo era só de fazer algum sucesso para pagar as contas. Em vista do enorme sucesso do filme, todos os rascunhos anteriores e alguns na mente de Lucas tiveram espaço para se desenvolver.

O Império Contra-Ataca já trazia o “Episódio V” no nome, muito mais para prestar homenagem aos seriados antigos, que inspiraram Lucas, do que como parte de um projeto coeso. A ideia de que o criador da saga tinha tudo planejado desde o princípio é um mito criado posteriormente. Certamente havia rascunhos para possíveis rumos (e quiçá um arco muito vago sobre os antecedentes). Mas basta revisitar a história para perceber que Lucas foi recriando a história ao longo do processo.

Dentro da trilogia original, o parentesco de Leia e Luke foi uma gambiarra para Lucas solucionar o triângulo amoroso com Solo de forma rápida, além de deixar uma brecha para eventuais continuações. No rascunho original, a “outra esperança” a que se refere Yoda em Dagobah seria de fato uma irmã de Luke, mas a ser procurada em filmes futuros. Entre as trilogias, Yoda deixa de ser “o” mestre Jedi que ensinou Obi-Wan (“the Jedi Master who instructed me”, no texto original), para dar lugar a Qui-Gon Jinn e ser apenas “um” mestre Jedi na vida de Kenobi.  A Força, tratada como algo metafísico, ganha contornos cientificilóides, com a introdução do conceito dos midichlorians. Obi-Wan Kenobi afirma nunca ter tido um dróide em Uma Nova Esperança, não apenas já havia tido um, como conhecia tanto R2-D2 quanto C-3P0. A Princesa Leia, que afirma lembrar da mãe em O Retorno de Jedi, passou, ainda recém-nascida, apenas poucos minutos com Amidala após o parto.

Esses, entre tantos outros exemplos, nos mostram que a coisa toda foi sendo feita na tentativa e erro. E não se surpreenda se daqui a alguns anos aparecer alguém dizendo que na verdade a ideia eram 24 filmes, desde o início, e a Força na verdade é o suor de um deus antigo.

 

Capítulo Mickey – O mito de Midas da Disney 

A empresa fundada por Walt Disney há quase 100 anos fascinou e fascina milhões de pessoas pelo mundo com seus personagens, parques, brinquedos, quadrinhos, quinquilharias, desenhos e filmes. A empresa cresceu ainda mais no século XXI, tendo adquirido outros gigantes do entretenimento, como a Marvel, a Pixar e a Lucasfilm. No caso das duas primeiras, as coisas andam bem e com bons prospectos: a Pixar emenda uma animação excelente atrás da outra, e a Marvel, ainda que com filmes desiguais em qualidade, acaba de fechar um arco gigantesco com dignidade e apelo emocional (no bom sentido) às audiências.

Entretanto, mesmo com toda essa bagagem e experiência em encantar as pessoas, o caso de Lucasfilm (e, de certa forma, do próprio core da Disney) não anda tão eficiente. Há um grupo na empresa pilotando a máquina de fazer dinheiro no automático – e perceba que o grande projeto do estúdio tem sido refazer com atores os filmes que fizeram sucesso na versão animada – o que atrai público cativo mas mantém o risco e a criatividade em níveis baixíssimos.

Com a criação de George Lucas, não foi diferente. Após adquirir os direitos sobre a franquia, a Disney optou por não mais aproveitar os arcos, os inputs ou a consultoria de Lucas, e dar a novos criadores a responsabilidade de fechar uma saga com ideias próprias (o que, obviamente, não faz o menor sentido se você ainda acredita no mito das trilogias planejadas).

O problema é que se repetiu aqui a mesma… digamos… abordagem conservadora… da Disney-nave-mãe, e optou-se simplesmente por requentar a trilogia original, em vez de incorporar novas propostas e verdadeiramente avançar a história. Contar arcos diferentes. O Despertar da Força é um filme carismático e bem feito, mas – repito desde a primeira vez em que o assisti – trata-se de um dos maiores estelionatos da história de Hollywood.

Quando leio e ouço críticos renomados acusando A Ascensão Skywalker de “covarde”, me vem à cabeça apenas que o projeto original foi um exercício de covardia, e que a conclusão da história é apenas um reflexo inevitável disso – e, claro, da incompetência daqueles que geriram o projeto [palavra, aliás, que aparentemente é enganosa para descrever o que aconteceu de 2015 para cá].

 

Capítulo Tio Patinhas – O mito da excessiva interferência da Disney

Em uma versão original do roteiro de O Retorno de Jedi – que chegou bem próxima de ser aproveitada –  estava previsto o sacrifício de Lando – e a consequente destruição da Millenium Falcon [o que faria sentido do ponto de vista mitológico, já que Lando traíra os amigos no episódio anterior e agora se redimiria com a própria vida]. Repare que há uma cena em que Han Solo para e observa a nave com ar de despedida e preocupação. O próprio Harrison Ford fez lobby para que Solo morresse ao final da saga (que era final mesmo, na época). Mas a destruição da nave tão querida e a morte de um dos protagonistas foi rejeitada por produtores e, principalmente, pelo pessoal de marketing dos brinquedos.

No caso da trilogia prequel, já realizada em tempos de mídia social, o personagem Jar Jar Binks foi praticamente ostracizado de O Ataque dos Clones e de A Vingança dos Sith. Essa foi uma reação dos realizadores à profunda rejeição por parte do público ao humor bestalhão do personagem em A Ameaça Fantasma. Não foi algo muito diferente do que aconteceu – ainda que por outros motivos – com a personagem Rose de Os Últimos Jedi.

O fato é que em produções em série dessa magnitude, e com a quantidade de dinheiro envolvida, é muito difícil que um cineasta (com raras Scorcexeções) ou um roteirista tenham total liberdade criativa – e é novamente curioso ver muitos críticos renomados reclamando que a trilodisney é o exemplo de interferência do estúdio no resultado final. Em filmes de grande apelo de massa é SEMPRE assim, e A Ascensão Skywalker não é algo fora demais da curva, nesse sentido. A situação desta vez ficou apenas mais evidente por causa, justamente, de uma experiência malsucedida de excesso de liberdade – o que nos leva ao próximo mito…

 

Capítulo 666 – O mito de que “Os Últimos Jedi” é um filme bom

Existem três elementos em Os Últimos Jedi que são incontestáveis: a fotografia do filme é de tirar o fôlego; a interpretação de Mark Hamill é, possivelmente, a melhor da sua carreira (deixando de lado aqui seu trabalho como dublador); e o quarto final do filme é extremamente impactante. Talvez por isso – e pela postura iconoclasta, que atrai muita gente – o Episódio VIII construiu uma fama de qualidade que não resiste a um olhar mais apurado.

A questão aqui não tem a ver só com respeito ou desrespeito à lógica ou aos conceitos estabelecidos anteriormente. Esqueça por um instante que se trata de um capítulo da franquia Star Wars (se é que isso é possível) e revisite o filme: seu humor é bastante bobo, mais próximo do besteirol do que de elementos inseridos organicamente no texto ou nas cenas. O filme cria esquetes engraçadinhas, em vez de deixar a coisa natural e encaixada. Mas, concedo, isso pode ser questão de gosto.

Já a imensa barriga de ritmo no meio do filme é erro técnico mesmo. O roteiro leva a situação dos heróis já próxima do limite muito cedo no filme, o que faz com que o segundo ato seja bastante irregular porque acaba tendo de se alongar enquanto espera a reta final. De um lado, temos cenas em que um fica repetindo para o outro que em breve a Resistência não terá mais combustível para prosseguir; do outro, acompanhamos uma missão paralela que se alonga – o que não seria problema em si, mas que não entrega solução para o desafio que foi resolver. Isso gera um investimento de tempo e afeto do espectador em um grande arco que praticamente poderia ter sido retirado por completo da história.

Aliás, em termos de arcos e personagens, o filme também tem vários problemas. A participação da personagem Maz Kanata no filme é uma solução ex machina tão chula quanto as do Episódio IX. O mais gritante, entretanto, é a subtrama que envolve a personagem da Vice-Almirande Holdo. Não só ela esconde desnecessariamente seu “grande” plano durante todo o filme, mas ainda o executa com um sacrifício sem sentido – uma vez que ela fica completamente à toa na nave (um dróide, por exemplo poderia ter sido programado para fazer a mesma coisa). É a cena criada para ser bonita e grandiosa na marra. Para leitores de quadrinhos, é o efeito da editora Image nos anos 1990:  histórias espetaculares aos olhos, mas carentes de cuidado com o argumento. Com isso não quero dizer que o roteiro é especialmente ruim, se comparado a outros filmes blockbusters. Mas existe um mito em volta da qualidade do filme que é mais incorreto do que a mira de um storm trooper..

O que nos traz ao contexto de produção. Rian Johnson recebeu da Disney a incumbência de dar continuidade à boa – ainda que picareta – retomada da saga em O Despertar da Força. Não há dúvidas de que, especialmente após a mesmice (bem feita, mas ainda assim mesmice) do Episódio VII, o universo Star Wars carecia de uma chacoalhada. O grande problema é confundir a proposta de novos rumos com total descaso com a história e com o projeto.

A começar do fato de Johnson, como já foi revelado em entrevistas de Daisy Ridley – ter resolvido ignorar completamente o arco geral esboçado por Abrams e feito um roteiro do zero. É evidente que Johnson entregou um filme diferente. Mas, em primeiro lugar, é uma falácia associar o que é novo/diferente a algo bom, de qualidade. Se fosse revelado que Rey na verdade é Jar Jar Binks disfarçado e prometido para se casar com Cthulhu, também seria um roteiros que “subverteria as expectativas” – e tão ruim quanto [ou, pensando bem, talvez seria legal de se ver…].

O erro maior talvez tenha sido da vaidade de Johnson, que quis se colocar acima de um universo bem maior que ele. Associado a termos como “ousado” e “inovador”, o roteiro de Os Últimos Jedi é pródigo em destruir, mas não em criar. Parece coisa de adolescente, que, quando ganha um pouco de independência, se opõe a tudo e a todos como exercício de autoafirmação. É uma busca pelo feel good de moleque, que talvez funcione bem como massagem no ego dos millenials – “morte ao velho, viva o novo”, mas como roteiro cinematográfico é bem facepalm, para usar um termo zóvem. E os fãs não perdoaram, com razão.

Nada justifica as atitudes contra atores envolvidos no filme, como as sofridas por Kelly Marie Tran, mas não foi surpresa o filme ter tido reações extremadas. Johnson é daqueles convidados mal-educados, que entram em sua casa e, em vez de sugerir modificações, as impõe não só de forma abrupta, mas com aquele sorriso de desdém no canto da boca. “Faço porque posso”. E a partir daí, o “criativíssimo” roteiro em parte imita O Império Contra-Ataca, e em parte descontrói, sistematicamente, tudo o que o Episódio VII – sem falar na trilogia clássica – propusera. Perceba, ao final do filme, que a trama não mexe em um ou dois elementos e dá continuidade a alguns outros (como um bom filme de transição faz). Ele subverte praticamente todos e deixa muito pouco de herança – o quê, repito, poderia ser uma boa ideia se houvesse tempo/continuações suficientes para explorar essa nova distribuição de forças.

Ao fazer isso, Johnson é desrespeitoso não só com o fãs, mas com o projeto – e é um mistério como a Disney e o próprio J.J.Abrams – um dos produtores executivos do Episódio VIII – deixaram a versão final chegar às telas. No fim, se A Ascensão Skywalker tem inúmeros defeitos, boa parte deles nasce do excesso de quebra de paradigmas do Episódio VIII – quebrar um paradigma só por quebrar não é algo cool, é algo tolo. E algumas das piores soluções da trama vêm justamente da falta de bom senso de Johnson.

Para dar um exemplo, o personagem de Finn tinha como bom motiv a revolta contra e rivalidade com a Capitã Phasma. Ao encerrar esse arco no segundo filme, restou a ele apenas o papel de fazer uma figuração de luxo. Agora imagine se ele encontrasse os outros troopers no segundo filme e os liderasse contra a Primeira Ordem, derrotando Phasma no clímax. E se tentarmos não alterar tanto o filme e apenas deixar com que Finn se sacrifique na Batalha de Crait. Seria uma cena forte e dolorida. Mas nessa hora, o “corajoso e inovador” roteiro salva o personagem. O beijo entre Rey e Kylo Ren, ao final da enealogia, é desnecessário, mas faz muito mais sentido do que a bitoca que Rose resolve dar, do nada, em Finn. É essa a impressão, a de que qualquer um que conheça a saga e um mínimo de teoria de roteiro conseguiria fazer melhor que Johnson.

O Episódio IX também tem sido criticado por não ter explorado a insinuação de homossexualidade de Dameron e Finn.  É bom que se lembre que quem resolveu arrumar um par romântico feminino para o ex-trooper foi justamente o roteiro de Os Últimos Jedi.  Mas a relação ficou tão sem pé nem cabeça nem sentido que o público simplesmente a rejeitou.

Como último (de tantos possíveis) exemplo, existe, no Episódios VIII, uma ampliação no mínimo duvidosa nas capacidades da Força. É claro que isso já tinha sido explorado antes, em games e filmes que traziam novos “poderes”. Entretanto, ao criar elementos como a “telepatia presencial” da Força ou “teleporte da Força”, o roteiro de Rian Johnson abriu espaço para o vale-tudo que se viu a partir daí e em A Ascensão Skywalker. [Para aqueles que não lembram, o “teleporte” da Força aparece pela primeira vez em Os Últimos Jedi, na cena em que Kylo Ren se molha com a água da chuva que banhava Rey em Ahch-To. Achou exagerado no Episódio IX?  Jogue a pedra primeiro em quem criou o conceito…].

 

 

 

 

 

 

 

 

Não resta dúvida de que é um filme que retrata bem a época e a geração em que foi produzida: pronta para descontruir todos os conceitos existentes, independente se eles têm algo de positivo ou não, somada a uma completa falta de coerência interna. O importante é lacrar, é parecer engajado, é fazer o sofativista se sentir bem, engajado. O detalhe é o que fascinou em Star Wars desde sempre foi seu catárer universal (com o persão do trocadilho), não esta ou aquela pretensa posição política.

O resultado vimos ao final da trilodisney, a mais esquizofrênica de todos. Não tenho a menor dúvida de que Johnson seria/será capaz de fazer filmes e continuações mais interessantes e espetaculares, se for dado a ele a chance de trabalhar do zero, e com personagens e situações que ele mesmo criar. Mas o que ele optou por fazer (e a Disney assinou embaixo, não esqueçamos) foi descontruir, elemento por elemento, o que havia sido elaborado antes dele. E isso, meus caros, não é inovador e sensacional, é apenas irresponsável – já que ele próprio não ia ter de resolver o problemão que criou.

 

Capítulo ??? – O mito de que agora tudo está perdido

Após o encerramento da trilodisney, muitos fãs manifestam graus diferentes de decepção, e quiçá de cansaço.  A bagunça da casa-da-mãe-Kathleen-Kennedy gerou, no mínimo, a perda de oportunidade de se dar uma continuidade muito melhor à franquia. Dessa experiência, ficam algumas lições, sendo a maior delas a necessidade de planejamento a longo prazo e bem feito.

Mas o universo Star Wars é amplo, a Força ajudará e não é preciso inventar demais. Na verdade, dentro da própria empresa já existe gente que entende do que está fazendo. Quem acompanha as séries animadas, produzidas já em tempos de Disney – a última temporada de Clone Wars, a série Rebels, Mandalorian, versões Lego e, com um pouco menos de qualidade, Resistance – fica com a certeza de que qualquer daqueles roteiros, se mais elaborado e menos infantilizado, seria matéria prima muito mais interessante do que foi levado à telona.

Ilustres desconhecidos do público, nomes como Dave Filoni, Simon Kinberg, Henry Gilroy e outros, escritores responsáveis por essas séries, demonstraram uma sensibilidade muito maior ao universo criado por George Lucas do que os diretores medalhões escolhidos como onipotentes. Jon Fraveu e seu Mandalorian mostraram que não é muito difícil agradar ao público. Um recado muito antigo da vida: às vezes menos é mais.

A Disney, que está tosca mas não é burra, sabe disso e começou a tomar algumas atitudes interessantes para salvar o porg de ovos de ouro que tem em mãos. Em primeiro lugar, começou a fazer o que deveria ter feito desde o início, e lentamente tem tornado cânone vários elementos do universo expandido. No novo Dicionário Visual de Star Wars, ainda não lançado, Sith como Revan, Andeddu, Tenebrous, Phobos e Desoulous já são reconhecidos – o que reforça a possibilidade de que novos filmes tenham o passado e os Cavaleiros da Velha República como foco.

Esse afastamento dos personagens mais conhecidos e pelos quais o público tem mais apego é uma faca de dois gumes:  pode gerar um certo grau de desinteresse inicial. Por outro lado, caso bem feitos (e aqui o espaço para criatividade será bem maior, então não me repitam a estrutura dos episódios clássicos pelo amor de Lucas), os novos filmes manterão a base de fãs enorme e já disposta a gostar de tudo que envolve a saga com novas gerações de espectadores.

Outro mito – mas este porque “mitou” no que fez na Marvel é o senhor Kevin Feige. Creditado como principal responsável pelo alto grau de coerência (ainda que com seus furos aqui e Homem de Ferro 3 ali), Feige já foi conclamado a emprestar sua experiência e visão de longo prazo para conseguir criar, de fato, um universo Star Wars mais coeso e estruturado. Que a Força esteja com ele!

 

Capítulo Final – O Balanço da Força

Houve uma trilogia original – e que, portanto, será sempre o padrão de comparação de tudo o que se fizer depois dela. Dezesseis anos depois, George Lucas resolveu contar a história de origem de Darth Vader, em filmes prequels bastante problemáticos – primeiro pela péssima escolha dos atores que interpretariam o personagem, e também por roteiros que mostravam que o criador da obra estava fora de forma. Apenas no terceiro filme, A Vingança dos Sith, o resultado foi mais certeiro. Junte-se a isso a escolha pelo uso intensivo de cenários e efeitos digitais – o que era bastante inovador e ousado para a época, mas fez com que os filmes envelhecessem visualmente mais rápido. Já saldo da trilodisney são filmes cinematograficamente (=técnica cinematográfica) melhores do que a trilogia prequel, na média, mas que, somados, não alcançam um pixel da criatividade das duas trilogias anteriores. Produções desconexas entre si, que oscilaram entre imitar e rejeitar o que já havia sido feito.

Encerra-se aqui também a cobertura do Razão de Aspecto sobre A Ascensão Skywalker e sobre mais um suposto fim da história dessa família no cinema. Em breve podemos – ou não – escrever a crítica de Mandalorian, e torcer para que o futuro do “há muito tempo atrás…” – com pleonasmo e tudo – seja mais bem cuidado.

 

por D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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