Watchmen (2019) – Série da HBO

Como os leitores do Razão de Aspecto devem ter percebido, não fizemos cobertura episódio-por-episódio da série Watchmen, da HBO. Em algum momento do passado a intenção até foi essa, mas, após o início da série, optei por aguardar até o término para não emitir juízo de valor injusto, por antecipado. Terminada a exibição do nono e último episódio, é hora (aha!) de refletir (aha!) sobre a série.

A crítica a seguir CONTÉM SPOILERS da série Watchmen, da HBO

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Quem nasceu para Damon Lindelof não chega nem perto de Alan Moore. Ou, apenas para nos fazer ter certeza disso, talvez chegue próximo de sua sombra.

Watchmen é uma série medíocre.

Mas vamos por partes, e expliquemos repetidas vezes, assim como o roteiro de Lindelof que, em seu season finale, contou com a colaboração de Nick Cuse. “Medíocre” significa “mediano, de qualidade média”. E isso é muito, muito pouco, perto do que a HBO costuma apresentar, ou de uma produção que se pretendia a continuação de uma das mais aclamadas histórias em quadrinhos de todos os tempos.

Não é por acaso que boa parte dos melhores momentos dos episódios são aqueles em que Lindelof consegue flertar mais de perto com o texto e/ou a estrutura da série original. Dois exemplos são a origem do Looking Glass (episódio 5) e o capítulo (episódio 8) dedicado ao Dr.Manhattan, em que as idas e vindas temporais repetem o que Moore propusera.

Entretanto, mesmo nas citações e referências ao material das HQs, o criador da série de TV passa do ponto: é interessante perceber as influências de Rorschach na atitute de Looking Glass, mas repetir no personagem o hábito pessoal de comer feijões direto da lata, com a máscara levantada pelas metades, é um easter egg que não faz o menor sentido. O mesmo serve para a existência de uma banca de revistas em Tulsa com um jornaleiro negro e acima do peso, aparentemente sampleados da Nova York de 1985.

O desenho de produção evoca os quadrinhos e abusa da utilização do “amarelo-watchman” – mas artificialidade da área central da cidade – que fica bem patente no último episódio, lembra adaptações pré-Batman de 1989. You give comics a bad name, Damon. Enquanto o visual da Sister Night é um bom achado. que mistura religião e agressividade, Red Scare Pirate Jenny (e a p… do panda, for f… sake) parecem saídos de um Kick-Ass piorado.

Há que se reconhecer algumas virtudes, como a reviravolta sobre a identidade de Cal Abar e a narrativa da viagem de Angela pelas memórias de seu avô (episódio 6). Entretanto, para cada acerto, a série patina em intermináveis diálogos explicativos e facilitações de roteiro.

Lindelof bem que tenta, mas não escapa da cartilha da série média – que pode e costuma fazer sucesso, mas que tem pés de barro se submetida a uma análise mais detida. Isso acaba fazendo de seu Watchmen uma série apequenada. O quadrinho investigava o fetiche da máscara e da justiça pelas próprias mãos, testemunhava o processo de um homem ao se tornar deus (e os impactos em sua vida pessoal e na geopolítica), e deixava um gosto ruim com sua total relativização da moral: o Comediante era amoral, Roschach tinha uma moral doentia, Manhattan já transcendera detalhes inexistentes em nível atômico, como o bem e o mal. A série, por sua vez, não consegue sair do seu próprio quintal de produção: ela é americana demais para ser universal.

É claro que o problema do racismo e da supremacia branca transborda, e muito, a fronteira dos Estados Unidos, mas a condução e as respostas da série não conseguem sair da mentalidade do Oklahoma. Se ainda havia alguma expectativa de que o episódio final pudesse apresentar grandes genialidades, sua coleção de clichês (“não morra”/”eu te amo”), seus vilões de seriado (“buahahaha sou um senador malvado para caramba”) e sua moral de autoajuda (“as pessoas mudam, Adrian”) provam o voo de galinha de Lindelof.

No elenco, as presenças ilustres tentaram dar alguma dignidade à coisa toda, como as de Louis Gossett Jr., Regina King e Jeremy Irons. Mas, mesmo aí, já começam os problemas: King entrega uma Angela Abar densa e carismática, mas falta-lhe um tanto de intensidade física para uma personagem que depende da violência em muitas cenas. Todo o arco do novo amor do Dr.Manhattan exige boa vontade do espectador, uma vez que o personagem distancia-se de sua humanidade e decide “criar uma galáxia ou duas” ao final do quadrinho. Mas vá lá, tolera-se por ser um bom episódio.

O grande símbolo da patetice dessa fanfic on steroids é o personagem Ozymandias, a começar da escolha de ator. É inquestionável a maestria de Jeremy Irons, mas Adrian Veidt é um personagem que alcançou o auge da inteligência e do preparo físico humano. O magrelo ator inglês não passa a imagem de alguém que algum tinha tenha sido capaz de levantar mais do que um bule cheio de chá.  Para piorar, Irons tem de se virar em um texto e uma abordagem farsesca e do teatro do absurdo, que parece mais saído de Captain Britain – vá lá, na fase Moore – do que de Watchmen. O “homem mais inteligente do mundo” passa de um enigmático, equilibrado e excêntrico empresário (nas HQ) para um velho biruta (na série). O resultado é que praticamente todas as sequências na lua de Júpiter acabam mais lembrando uma sátira feita pelo grupo Monty Python do que algo que minimamente dialogue com o tom da história-fonte.

Essas seriam apenas escolhas estéticas que se afastariam dos quadrinhos, não fosse um dos elementos centrais do roteiro, que é o famigerado vídeo em que Ozymandias desenha seu plano para a audiência entender explica (para quê, mesmo?) seu plano para o Presidente Redford. Neste momento, lá pela segunda metade do episódio 5, vem a certeza da pobreza narrativa de Lindelof: ao introduzir a “genial” ideia de que Ozymandias explicaria seu plano em detalhes e deixaria registrada em vídeo uma prova de sua responsabilidade pelo ataque “extraterrestre”, o roteirista mostra que seu trabalho é inversamente proporcional à inteligência de Adrian Veidt.

Em uma época de tantas opções audiovisuais, não adianta só confiar nos nomes – HBO, Lindelof, Watchmen – envolvidos. É preciso entregar um produto final que sobreviva ao hype – além de não confundir a importância de um tema com o tratamento dado a ele. Watchmen se encerra – e, honestamente, espero que não haja outras temporadas – deixando uma indesejada saudade de Zack Snyder.

Quem vigia os roteiristas?

 

por D.G.Ducci

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 7    Média: 3.4/5]
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