O que caracteriza uma narrativa de terror? O que diferencia este gênero de seu gênero irmão, o suspense? Em termos bem simples, o terror tenta provocar medo, enquanto o suspense tenta provocar tensão. Mas o medo é irmão da tensão, bem como da inquietação, do estranhamento, do assombro, do espanto. E todos estes sentimentos afloram quando assistimos Chernobyl, a mais nova mini-série da HBO.

É uma reconstituição dramática do pior acidente nuclear da história acontecido em 1986 na União Soviética em plena Guerra Fria. Apesar de não ter nenhum elemento fantástico ou sobrenatural, ou até mesmo por não ter estes elementos, Chernobyl funciona como uma história de terror melhor que a maioria dos filmes e séries do gênero. Isto se deve a natureza quase mística que a radioatividade tem no nosso imaginário. Em especial no imaginário de quem cresceu sob a ameaça de um extermínio termonuclear.

A radioatividade é um monstro quase perfeito. Se é verdade que mais pessoas morrem em usinas de carvão do que em usinas nucleares, também é verdade que uma usina de carvão não transforma ninguém em uma criatura sem pele e rosto, de cor roxa e aparência pior do que os zumbis da ficção. Nenhuma explosão química carrega uma presença invisível e mortal, capaz de ocupar vastas áreas por décadas como uma mortalha intransponível. E em última instância, a radioatividade é, para a maioria de nós, inexplicável e desconhecida, quase sobrenatural. Uma presença invisível e que carrega consigo uma das piores mortes possíveis.

A série explora isto quase com perfeição. Emblemática a cena em que vemos pessoas comuns assistindo a distância o incêndio na usina. Vemos crianças dançando com a precipitação da fuligem do incêndio que cai sobre os transeuntes. Nada é dito, apenas a trilha, a câmera lenta e o conhecimento do que aquela fuligem traz consigo transforma uma cena superficialmente bucólica em terror puro. Em outras cenas temos o uso do estalar dos dosímetros, junto com uma excelente linguagem de câmera, para sentirmos o invisível e tremermos de nervoso por causa da radiação.

Mas toda história de terror tem que ter mais que um monstro, é necessário também um bom vilão. O monstro é uma ameaça amoral, indiferente. O vilão será o lado imoral, maligno. E aqui a malignidade vem da burocracia soviética. Como muito bem dito na série, a União Soviética é um país obcecado com não ser humilhado. E nada seria mais humilhante para o regime que reconhecer que um acidente nuclear de impacto global aconteceu sob sua responsabilidade.

A ineficiência burocrática, a negação em aceitar a dimensão do desastre, bem como a busca por omitir toda e qualquer informação potencialmente constrangedora estão presentes em toda narrativa. Com isto somamos raiva e indignação ao medo, e ganhamos mais uma camada de espanto. O retrato da paranoia e ineficiência soviética é sensacional. Mas nem tudo são problemas na URSS. Temos também um tipo macabro de heroísmo, a disposição de pessoas comuns se sacrificarem para o bem maior, mesmo para ganhos mínimos. A aceitação de perdas humanas que revoltariam países democráticos, afinal o serviço precisa ser concluído de alguma forma.

Mas o tom geral é de crítica as mentiras soviéticas. Graças a elas Chernobyl foi muito maior do que poderia ter sido. E por pouco não foi muito pior.

A qualidade da produção é impecável. Temos uma fotografia magistral, com tons mais invernais, e a presença constante do verde. O uso da câmera na mão em algumas cenas nos deixa pulando em nossas cadeiras. A trilha sonora é incômoda, estranha e tensa. Lembra muitas vezes a trilha de A Chegada, com seus graves prolongados, e sua aura de inquietação. A reconstituição de época, tanto nos cenários quanto nos figurinos, é assombrosamente precisa. Se compararmos as fotos da época com o que vemos em tela, é possível confundir um com o outro.

A maquiagem é um show a parte. Vemos a decadência que a radioatividade causa nos protagonistas. Nos casos de contaminação mais intensa, a transformação é pavorosa. Apenas na caracterização de Gorbachev a maquiagem deixa a desejar. Muito.

Os atores estão soberbos. Destaque para o trio de protagonistas. Emily Watson interpreta um dos poucos personagens fictícios do show, Ulana Khomyuk. A entrega dela é plena. Destaque para as cenas no hospital junto aos pacientes terminais, e as reações perante a horripilante decadência biológica destes. Stellan Skarsgård tem um arco dramático complexo. Seu personagem começa como um burocrata de carreira despreocupado com as grandes questões, e termina como alguém disposto a enfrentar o sistema. A cena em que ele acaba por precisar de um novo telefone é marcante.

Mas o show é mesmo de Jarred Harris. A capacidade dele transmitir emoções em silêncio, ou com poucos diálogos, impressiona e muito. O tom de desespero, de impotência e de raiva contida é o principal responsável por construir nossas reações aos absurdos soviéticos.

O roteiro sofre de alguns problemas pequenos. Como a série fala de física nuclear, diversas vezes temos diálogos expositivos para que nós, leigos, entendamos o que está acontecendo. Em sua maioria os diálogos expositivos são bem inseridos e contextualizados. Por exemplo, quando Legasov explica o acidente para burocratas que nada entendem de física nuclear, mas precisam tomar decisões. Mas nem sempre é possível ignorar estes diálogos, e alguns são mesmo desnecessários.

Alguns arcos dramáticos são tão paralelos a história principal que cabe questionar se são realmente necessários. Em especial um arco relacionado a animais a serem abatidos parece tomar tempo demais. Apesar de contribuírem para sensibilização do espectador, acabam por retirar um pouco do ritmo da narrativa.

Mas estes poucos defeitos não chegam a apagar quase nada do brilho radioativo da série. Chernobyl é uma das melhores reconstituições históricas feitas para televisão dos últimos anos. Uma história de terror apavorante, principalmente por ser real.

E que carrega uma moral mais do que válida para nossa era. Em tempos em que fake news são mais divulgadas que os fatos, é importante aprender que toda e qualquer mentira tem seu preço. Muitas vezes em vidas humanas.

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 4    Média: 4.8/5]
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