Game Of Thrones – Oitava Temporada. Episódio 6: The Iron Throne – Episódio Final da Série. Com Spoilers!

The Iron Throne.  Quando os créditos finais de Game Of Thrones apareceram na tela, no último domingo, a sensação de vazio que tomou conta de mim foi imensa. Acabava, naquele momento, uma jornada de quase uma década acompanhando aqueles personagens, suas escolhas e seus destinos não raramente trágicos. Não foi possível segurar as lágrimas que se acumulavam nos meus olhos desde a sequência final, quando os Starks remanescentes se despediam e, depois, seguiam seus destinos. O peso da perda foi tão grande que se aproximou do luto, e minha única vontade foi a de me agarrar às memórias que a série me deixou: decidi rever, imediatamente, o piloto da série, o que resultou em devorar a primeira temporada completa nos dois dias seguintes. Se esta foi uma decisão primariamente emocional, também serviu a propósitos racionais, ajudando a entender a inocência de Jon Snow e Daenerys, a importância de Bran, a imaturidade de Sansa, e a arrogância de Tyrion, por exemplo.

Confira as críticas de todos os episódios da oitava temporada:

Episódio 1:  Winterfell

Episódio 2: A Knight of the Seven Kingdons

Episódio 3: The Long Night

Episódio 4: The Last of the Starks

Episódio 5: The Bells

Entender e, em certa medida, aceitar o final de Game Of Thrones depende de compreensão mais ampla da jornada, buscando sempre evitar a análise fragmentada da narrativa. A história que acompanhamos tem 73 episódios, não apenas os últimos seis lançados em 2019. Podemos, por meras questões didáticas, separar a análise em três níveis: o mais amplo, que inclui a trama geral e os arcos dramáticos de toda  a série; o médio,  que inclui a última temporada, com todos os seus acertos e equívocos; e o mais restrito, que inclui o episódio final.

Do ponto de vista da trama geral e dos arcos dramáticos, Game Of Thrones foi impecável. A despeito das frustrações de grande parte do público, que se devem mais à incapacidade de aceitar as escolhas do que às escolhas serem erradas, os personagens principais terminaram suas jornadas, ou partiram para novas, de forma coerente com o o seu desenvolvimento ao longo da série.

Jon Snow, ao retornar para a Patrulha da Noite e, posteriormente, desertar, retornou para o único lugar de sua vida – além da muralha – onde realmente foi feliz, encontrou o amor, se desenvolveu como líder e reforçou sua lealdade. Por que ele foi para a Patrulha da Noite? Porque os bastardos e os criminosos ainda precisavam de um lugar para viver naquela sociedade, porque Jon precisava estar longe do centro do poder, especialmente depois de se tornar o novo regicida. Para Jon, esse retorno também significou a libertação do fardo de ser o líder, de ser o responsável pelas escolhas difíceis, de receber poderes que não desejava.  A última cena da série, quando Jon segue para além da muralha com o povo que lhe acolheu e reconheceu, fecha o ciclo perfeito: o lugar de Jon era fora de Westeros, onde sempre foi e sempre seria um estranho, a despeito de ter sangue de duas famílias dinásticas. Além disso, o paralelismo com a primeira cena da série foi um recurso narrativa e esteticamente poderoso.

Daenerys teve destino trágico, como a série indicava há várias temporadas. Por onde ela passou, foi considerada uma tirana, embora sempre defendendo causas nobres. Não lhe faltaram momentos de crueldade e psicopatia, tampouco promessas de vingança. Como discuti nas críticas de The Last of the Starks e The BellsDaenerys foi uma personagem desenvolvida para chegar ao destino trágico: corrompida pela sede de poder, convencida de estar imbuída do bem e da verdade, convicta de que a crueldade é necessária para o bem maior, acabou traída por amor – a terceira traição – e assassinada. Daenerys foi uma personagem trágica shakesperiana, o que por si só é uma deferência. Trata-se de uma anti-heroína, corrompida pelo poder, que se torna uma vilã.  Esta crônica de uma morte anunciada foi um grande acerto de Game Of Thrones.

Sansa Stark teve, na minha humilde opinião, o arco mais sensacional de toda a série. De uma adolescente fútil e imatura, transformou-se em líder perspicaz, sensata e implacável. A fragilidade e a doçura da primeira temporada deram lugar à força e ao poder. Sansa vingou-se de todos aqueles que lhe fizeram mal, respeitou a vontade de seu povo e tornou-se a rainha que sempre quis ser, não da forma machista a tradicional, mas, sim, da forma mais empoderada que a tradição medieval poderia permitir.

Arya Stark começou uma nova jornada de descoberta. A personagem mais carismática de toda a série teve, também, um arco dramático excelente, mas, de certa forma, previsível – no bom sentido. Ao contrário de Sansa, as características de Arya, quando criança, indicavam que ela seria diferente. Arya também se sentia uma estranha no ninho e, depois de tudo o que passou, de tudo o que fez para vingar sua família e salvar a vida de todos ao matar o Rei da Noite, também se sentia uma estranha o ninho. Decidiu seguir para oeste de Westeros, como havia expressado o desejo de fazer ainda na quinta temporada.

Bran,  o Quebrado, novo Rei do Seis Reinos, Corvo de Três olhos, memória da humanidade, termina sua jornada como o guardião da paz e da justiça. Jamais esqueçamos que Bran foi um dos principais personagens da primeira temporada.

Tyrion Lannister, de playboy medieval arrogante renegado pela maior parte da família, transformou-se em um líder humilde e experiente, capaz de compreender que nem sempre tem a melhor resposta para todas as perguntas.  Nada poderia ser mais justo e, ao mesmo tempo, irônico que Tyrion terminasse como o único Lannister vivo, governando Westeros na prática.

Ao se analisar a última temporada isoladamente, chegamos à principal controvérsia entre os fãs da série. Muitos deles consideram que a temporada esteve abaixo das demais em qualidade, especialmente de roteiro, e que os showrunners destruíram o legado de Game Of Thrones, a escolherem um “final bosta”, “um lixo” e outro adjetivos nada abonadores. Neste ponto, concordo com Sophie Turner e com este texto, de Márcio Paixão, quando afirmam que essas reclamações radicais são resultados da frustração de não verem seus desejos atendidos em relação ao destino dos personagens. Todos têm a sua versão favorita final, quase todas elas coerentes com as interpretações que fazem dos personagens e de suas jornadas, mas, quase sempre, descoladas do arco maior, cuidadosamente construído ao longo de quase uma década. Por outro lado, discordo de Márcio Paixão quando ele atribui todas as críticas ao sentimento de frustração. Na oitava temporada, Game Of Thrones oscilou em qualidade narrativa e técnica – por exemplo, somente um episódio recebeu a nota máxima (The Bells, para o desespero do Time Daenerys), um episódio recebeu 4,5/5  (The Last of the Starks), dois receberam 4/5 (A Knight of the Seven Kingdoms e The Long Night), e dois receberam 3,5/5 ( Winterfell e The Iron Throne), com uma média realmente menor do que as temporadas anteriores, mas, ainda assim, longe do desastre que muitos fãs gostam de difundir nas redes sociais.

Do ponto de vista visual, a oitava temporada teria sido perfeita, se não tivesse desperdiçado o enorme trabalho da Batalha de Winterfell com uma fotografia desastrosa. Em The Bells, por sua vez, tivemos o ápice do uso da tecnologia em uma série de TV, o que mudou para sempre a escala de produção para televisão. Game Of Thrones fez história não somente pelo poder de sua narrativa, mas também pela capacidade de levar às telas de nossas casas uma qualidade visual inédita. Por outro lado, se o orçamento foi bem utilizado para a construção visual, também reduziu o número de episódios, o que, por sua vez, teve alguns feitos negativos no desenvolvimento da história. Concordo que não devemos “passar pano” nos erros dos showrrunners, mas acho que não é razoável esperar que fosse possível responder a todas as perguntas, sobre todos os mínimos detalhes e sobre todos os personagens coadjuvantes que fizeram parte da jornada em algum momento. George R. R. Martin poderá escrever quantas páginas quiser para aprofundar tudo o que desejar e ele mesmo sabe e afirma que isso seria possível responder a absolutamente tudo na série de TV.

Por fim, do ponto de vista do episódio final, temos os maiores problemas e oscilações. Os primeiros 45 minutos de The Iron Throne são primorosos no tom, nas interpretações, nos diálogos e no visual. Se Game Of Thrones se reumisse somente a definir o destino do Trono de Ferro, a imagem de Drogon levando o corpo de sua mãe, após destruir o trono, seria a imagem perfeita para fechar a saga. Feliz ou infelizmente, como sabemos, Game Of Thrones é a história de seus personagens, sempre foi sobre a queda e a redenção dos Stark, e precisava de um epílogo. No epílogo, temos os maiores problemas de execução.

Na cena do conselho e da escolha do novo Rei, a trama foi bem pensada, mas a realização foi apressada. Claro que a “geração do explicado” fica revoltada por não ter respostas diretas a algumas perguntas inúteis, que demandam apenas um pouco de interpretação. Vamos a algumas delas:

a) Por que Verme Cinzento não matou Jon Snow?

Com a morte de Daenerys e sem Drogon, os Imaculados não teriam controle sobre os Dohtraki e poderiam entrar em guerra contra todos os exércitos remanescentes dos Sete Reinos. A prisão de Jon Snow, um refém, deu aos Imaculados alguma vantagem para evitar mais uma guerra, que não era mais a sua guerra. O poder do exércio de Danerys se baseava em Drogon – então desaparecido -, na aliança com o Norte e na liderança que ela tinha sobre dois exércios diferentes. Sem a Rainha, a unidade estava totalmente perdida. Os Imaculado, sozinhos, não teriam como sustentar uma guerra imediata.

b) Por que Verme Cinzento aceitou que se escolhesse o Rei e fez um acordo sobre os prisioneiros?

Nosso querido (ou nem tanto) Verme não tinha sede de poder, nem pretendia permanecer em Westeros. Desde o segundo episódio, sabemos que ele pretendia ir embora. Sem sua rainha, a melhor saída era evitar a guerra, navegar para Naath e cumprir a promessa feita à sua amada Missandei. Ainda assim, Verme precisava e exigia algum grau de justiça. Não desonsideremos, também, que aqueles personagens lutaram juntos, lado a lado, e tinham certo grau de respeito mútuo.

c) Por que a ascendência de Jon não serviu para nada na escolha do novo Rei?

Após a destruição provocada por Daenerys, as principais casas remanescentes de Westeros decidiram, seguindo a proposta de Tyrion, que o poder dinástico não representava mais os melhores interesses das casas e do país.  As guerras, a destruição, os votos de lealdade e as traições foram resultado de disputas por direito dinástico. Assim, a roda foi quebrada por Daenerys, resultando em um novo sistema, mais harmônico e menos imprevisível. A ascedência de Jon, portanto, seria sempre uma ameaça, se ele estivesse próximo do novo núcleo de poder.

d) Por que Bran?

Se Game Of Thrones retratou a batalha entre os mortos, que desejavam apagar toda a memória, e os vivos, que se diferencia dos animais exatamente por suas memórias, nada mais natural do que escolher alguém que detém todo o conhecimento da história da humanidade, que é capaz aprender com os erros do passado.

Por outro lado, essa cena pareceu simplificar demais e desfecho de uma guerra longa e sangrenta e certamente merecia melhor desenvolvimento. Bran foi um personagem quase ausente nesta temporda, literal e metaforifcamente. Torna-se o rei no último episódio pareceu, portanto, incoerente, ainda que guarde coerência com o conjunto mais amplo da narrativa.

A cene de Brienne registrado a história de Jamie foi a segunda mais tocante do episódio. A Cavaleira dos Sete Reinos fez justiça ao Lannister burro, tanto na história de Westeros quanto na meória dos fãs.  A cena do pequeno conselho, por sua vez, fez um paralelo, mais uma vez, com as primeiras temporadas, ao retomar o tom sarcástico e ácido, com certo grau de bom humor depois da tragédia.

Por fim, The Iron Throne encerrou a jornada dos Stark com uma montagem paralela emocionante, que deve ter arrancado lágrimas de milhões de pessoas da mesma forma que as arrancaram de mim, as mesmas lágrimas que escorrem pelo meu rosto neste momento, enquanto escrevo a última crítica de Game Of Thrones.

Adeus Jon, Sansa, Arya, Tyrion, Cão, Brienne, Jamie, Sam, Bron, Podrick e todos os outros que sobreviveram ou morreram nesta guerra sangrenta e egoísta, que representam a resistência do ser humano diante das maiores adversidades. Minha memória estará com cada um de vocês sempre que minha mente viajar ao universo das Crônicas de Gelo e Fogo.

 

 

 

 

 

 

 

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 9    Média: 3.3/5]
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