Game Of Thrones – Oitava Temporada. Episódio 5: The Bells – Com Spoilers!

The Bells. Como era de se esperar, o penúltimo episódio de Game Of Thrones dividiu opiniões entre o público e a crítica. Assim como aconteceu com Lost, Game Of Thrones tornou-se tão grande e tão importante na vida de seus espectadores que a guerra dos tronos se transferiu para o debate de torcidas de personagens e preferências de desfechos. O que vemos como resultado são muitas justificativas rasas para tanta insatisfação, em função de certa superficialidade na compreensão da estrutura narrativa. Por outro lado, é a primeira vez que uma série faz viralizar o debate sobre desenvolvimento de personagens. Falta apenas Robert McKee se manifestar e dar o veredito sobre o desfecho da saga.

Eu me coloco ao lado da minoria, ainda que a maioria não seja tão expressiva quanto parece pelas manifestações nas redes sociais. The Bells foi um dos melhores episódios desta temporada e, provavelmente, o mais “raiz” das últimas duas temporadas. Nele, estão presentes todas as características que fizeram de Game Of Thrones o maior sucesso da história da TV: traições; conspirações; execuções sumárias; grandes acontecimentos; batalhas épicas; subversão de expectativas; e fan service.

Do ponto de vista técnico, The Bells é uma verdadeira aula de audiovisual. Absolutamente tudo funciona: design de produção, direção de arte, cinematografia, efeitos visuais, atuações e mis en scène estão harmônicos, em altíssimo nível e em escala inigualável mesmo para algumas superproduções para os cinemas. O maior acerto desse conjunto foi o de mostrar os horrores da guerra da forma mais crua e realista possível. Vemos a morte, o sofrimento, pessoas queimadas, mulheres violentadas, crianças assassinadas, na combinação entre o saque da cidade e o ataque do Dragão, que, segundo os produtores, se baseou no Bombardeio de Dresden, na Segunda Guerra Mundial. Não há como evitar o choque diante daquelas imagens.

Do ponto de vista narrativo, The Bells seguiu os rumos que se vinham desenhando há algumas temporadas, inclusive com algumas antecipações: na Casa dos Imortais, ainda na segunda temporada,  Daenerys se vê na sala do trono completamente destruída; na quarta temporada, Bran tem a visão de um dragão sobrevoando Kings Landing. Esses exemplos mostram como o que aconteceu em The Bells vem sendo construído, sutilmente, ao longo da série, de forma a levar ao desfecho inevitável: Daenerys assumir fogo e sangue como sua forma de conquistar Westeros.

Como discuti na crítica de The Last of the Starks, não se trata de Daenerys estar louca. Daenerys é, na verdade, uma tirana que conquistou apoio defendendo causas justas, mas que, em função das perdas, do isolamento, das traições e da paranoia, acabou corrompida pela sede de poder. Como resultado, terá um destino trágico. A loucura será sempre o peso que ela carregará pela memória do que seu pai queria fazer – e que ela acabou fazendo. Não foram poucas as pistas sobre seu comportamento ao longo da série. A escolha de prosseguir com o ataque e incendiar Kings Landing resulta de um longo processo no qual seu ímpeto foi, por vezes, contido, mas que a levou a resultados negativos e a perdas irreparáveis.

Da mesma forma, The Bells manteve a coerência com o personagem de Jon Snow, que, mais uma vez, faz a escolha que considerava mais honrada em vez de fazer a escolha certa. Assim, Jon colaborou para um genocídio em troca de manter sua palavra. No episódio final, Jon deverá ter papel crucial na provável queda de Daenerys – provavelmente a assassinando, é o que acredito que vá acontecer.

Tyrion cometeu duas traições: a primeira com Varys, que foi executado, a segunda do Daenerys, quando libertou Jamie, em uma das sequências mais comoventes das últimas temporadas. A despedida de ambos diante da provável morte foi um dos melhores diálogos da temporada e , de certa forma, fecha a afirmação de Tyrion para Jon, na primeira temporada, de que todos os anões são bastardos aos olhos de seus pais. Tyrion mostrou ser menos vingativo do que se imaginava em relação à sua irmã e muito mais nobre como ser humano, apesar dos seus erros de avaliação.

A segunda maior polêmica deste episódio foi o desfecho de Cersei e Jaime. Grande parte dos fãs considera que a subversão de expectativa nessa sequência foi um erro. Havia quem desejasse ver Cersei esfaqueada no ventre, havia quem desejasse que Cersei fosse assassinada por Arya – neste caso, admito que teria sido épico. The Bells, enretanto, escolheu dar aos personagens um desfecho trágico shakesperiano, no qual os gêmeos incestuosos, que vieram ao mundo juntos, morrerram juntos, sem saída – muito bem simbolizada para porta bloqueada -, sem alternativas e sem força para agir. Morreram abraçados, enquanto, alegoricamente, o mundo caía sobre suas cabeças. Que metáfora! Em troca, temos de ler mensagens de pessoas alegando que os personagens foram mortos por um tijolo.  Pelo visto, soterramento não tá valendo. Imaginemos esse público assistindo Romeu e Julieta, ao vivo, no Globe Theater, na Inglaterra Elizabetana. Além disso, afirmar que o arco de redenção de Jamie foi desperdiçado é, no mínimo, simplista! Jamie evoluiu como personagem, evoluiu como ser humano, manteve sua palavra ao lutar pelos vivos, mas, neste episódio, tudo  que fez foi tentar salvar o amor da sua vida e morrer em seus braços, como ele também havia jurado que faria. Isso se chama complexidade e tridimensionalidade.

O destino de Cersei esteve ligado ao destino de Arya e do Cão. Mais uma vez,  a subversão de expectativa levou a um lindo desfecho da relação entra Arya e Sandor, que, em uma das demonstrações de afeto mais profundas de toda a série, convenceu Arya a desistir da vingança e, consequentemente, a desistir de se entregar à morte. Dessa separação, originam-se duas das melhores sequências do episódio: o Cleganebowl e a fuga de Arya na cidade.

O Cleganebowl é, provavelmente, o único consenso entre crítica e público sobre The Bells. Não se trata de uma surpresa, uma vez que este foi o grande fan service do episódio. A revelação do Montanha Zumbi casou furor, ao passo que a sequência de racords, em montagem paralela, entre a derrota iminente de Sandor e a quase morte de Arya simbolizou a ligação profunda desenvolvida entre ambos os personagens.  Ao morrer no fogo para matar o irmão, Sandor teve uma das mortes mais dignas de todo o universo das Crônicas de Gelo e Fogo.

A fuga de Arya na cidade, em uma sequência de quase doze minutos, deixou qalquer pessoa normal paralisada de terror, não somente  pelo destino da personagem, mas também por dar a dimensão humana mais profunda daquela tragédia. Mostrou-se como a guerra é cruel e como não é possível ignorar as consequências da escolha de Daenerys. A simbólica partida de Arya no cavalo branco fecha o episódio com maestria e abre possibilidades interessantes para o episódio final — incluindo a teoria de que os olhos verdes da profecia de Melisandre seriam, na verdade, os de Daenerys.

Não se trata de um episódio perfeito, é claro. O ponto mais baixo foi o duelo, muito conveniente, entre Euron Greyjoy e Jamie Lannister, mas, no geral, The Bells preparou o terreno para um desfecho amargo – já nem acredito mais em agridoce -, e o fez com um verdadeiro “show” visual, de marcar a história da TV. No próximo domingo, choraremos todos, de alegria ou de tristeza, de satisfação ou de insatisfação, ao nos despedirmos da maior série de televisão de todos os tempos.

 

 

Nota do Razão de Aspecto

 

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[Total: 12    Média: 4.4/5]
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