Game Of Thrones – Oitava Temporada. Episódio 4: The Last of The Starks – Com Spoilers!

The last of The Starks. O quarto episódio da derradeira temporada de Game Of Thrones nos reservou algumas surpresas. A primeira delas, que, de certa forma, foi uma trapaça promovida pelo trailer divulgado pela HBO, diz respeito ao fato de que, mesmo depois da Batalha de WinterfellDaenerys não conquistou o respeito nem do povo nem dos Lordes do Norte. Essa trapaça não deixa de ser um bom exemplo de como a montagem pode mudar o significado da narrativa por um mero resposicionamento de cenas. A segunda surpresa, mais trágica, foi a morte de Rhaegal, em uma emboscada promovida por Euron Greyjoy. A terceira surpresa, também trágica, foram a captura e o assassinato de Missandei por Cersei. De resto, The last of The Starks seguiu o caminho do desenvolvimento e do fechamento de arcos dramáticos cuidadosamente, às vezes mais, às vezes menos, desenvolvidos ao longo das últimas oito temporadas.

Apesar das paixões despertadas no público, não se pode deixar de lado que Game Of Thronescom seus erros e acertos, sempre buscou construir personagens trideminsionais, contraditórios e complexos, capazes, ao mesmo tempo, de atitudes honrosas e deploráveis. Ao longo de todas as temporadas – sempre buscando preservar os espírito das Crônicas de Gelo e Fogo, a narrativa nunca privilegiou as boas intenções, jamais premiou, gratuitamente, personagens “do bem”, muito menos levou a história a rumos tradicionais – com alguns tropeços no caminho, admito. Aqueles que mais se aproximam dos heróis tradicionais são Jon Snow e Daenerys, que tiveram jornadas muito diferentes, mas, ao mesmo tempo, grandiosas, que os levaram ao ponto em que se encontram na trama. De um lado, Jon, sempre honrado, mas ingênuo, bem intencionado, mas temerário, heroico, mas sem capacidade de estratégia, desapegado do poder, mas sempre carregando o fardo de liderar. De outro lado, Daenerys, libertadora, mas cruel, justa, mas implacável, carismática, mas quase inflexível. Ao cruzarem seus destinos, esses dois personagens podem ter selado o caminho para uma tragédia shakesperiana, se os realizadores de Game Of Thrones forem corajosos o suficiente.

 

Confira as críticas dos Episódios anteriores da oitava temporada:

Episódio 1: Winterfell

Episódio 2: A Knight of the Seven Kingdoms 

Episódio 3: The Long Night

 

Para os fãs de Daenerys, qualquer coisa que não seja a sua vitória triunfal será um desrespeito à personagem. O ônus de se tornar “a  rainha louca” não condiziria com a sua personalidade. Sinceramente, discordo, por diversas razões diferentes. Em primeiro lugar, não podemos esquecer que Daenerys foi muito cruel e sanguinária em todas as suas conquistas em Essos. Sim, nós sabemos que as causas em eram nobres e que ela fez grandes coisas pelo bem maior, mas não se pode ignorar que, naquelas ocasiões, faltou-lhe capacidade de negociação – capacidade que ela mesma considerava desnecessária e que lhe teve custos altos naquele momento. Em segundo lugar, Daenerys tem um objetivo e uma ambição – ocupar o Trono de Ferro -, que se tem transformado quase em obsessão, a despeito dos conselhos, das estratégias sugeridas e da avaliação dos fatos. Daenerys quer utilizar o poder que ainda lhe resta para atingir seu objetivo, ainda que essa escolha possa lhe custar a perda do apoio que poderia garantir sua ascensão ao trono. Em terceiro lugar, Daenerys jamais conseguirá se desvincular da história de seu pai, o Rei Louco. Não importa que suas razões sejam justas, não importa que seus motivos seja legítimos, em Westeros, queimar adversários ou ameaçar queimar cidades inteiras em busca do poder jamais será considerado algo aceitável. Portanto, ela não precisar ser louca, basta que seja considerada louca por aqueles que deveriam apoiá-la, os quais teriam boas razões para acreditar nisso.

Chegamos à encruzilhada dessa trama. Cersei está utilizando dezenas de milhares de pessoas como escudo humano, enquanto Daenerys está disposta a queimar a cidade com as pessoas dentro para conquistar o poder, e somente para isso. Neste caso, qual a libertação que Daenerys promoveria? Ela vai realmente quebrar a roda, como pretendia? Daenerys vai acabar com a vassalagem e com as casas nobres? Nada disso. Neste momento, Daenerys quer apenas conquistar aquilo pelo que tanto lutou e que julga merecer e que talvez mereça. Infelizmente, o contexto político não a favorece. Trata-se, em grande medida, de uma injustiça, considerando os esforços que ela fez para proteger o Norte. Daenerys não merece receber tanta desconfiança.

Se Daenerys não apostar tudo, perderá. Se apostar tudo, também poderá perder. Temos uma personagem ambiciosa, ainda poderosa, mas enfraquecida. Ela se sente isolada. Perdeu metade dos seus exércitos, em uma luta que não era, em princípio, sua, e não foi reconhecida por isso. Perdeu seu conselheiro e sua conselheira mais fiéis para seus inimigos. Perdeu dois de seus dragões. Sente-se ameaçada pela informação de que Jon pode revindicar o Trono. Os conselheiros que restam questionam sua capacidade de liderar. Pressionada, acuada e, em certa medida, humilhada, pode faltar-lhe frieza para vencer a batalha e ganhar a guerra, sem resultar em uma vitória de Pirro. Se Daenerys simplesmente queimar Kings Landing, terá um final trágico. E, convenhamos, queimar milhares de pessoas vivas não é divertido nem na ficção.

Da mesma forma que diversos personagens foram apresentados, construídos e desenvolvidos ,de forma a despertar a paixão do público, para, logo depois, serem mortos, de forma brutal, sem cumprirem seus objetivos, não vejo porque essa escolha seria desrespeitosa com Daenerys, se temos todos os elementos necessários para que sua jornada culmine dessa forma. E deixo claro: a jornada não tem de terminar dessa forma, mas não seria despropositado se assim terminasse!

Os arcos dramáticos de Brienne e Jamie também convergiram ao ponto que estava sendo construído ao longo de cinco temporadas. Era necessário ou obrigatório? Cartamente, não. É coerente com a construção narrativa da série? Certamente, sim. A despedida dos dois, inclusive, serve para reforçar a complexidade dos personagens, sua tridemsionalidade. Nem totalmente bons, nem tontalmente maus. Nem totalmente bravos e corajosos, nem totalmente românticos. Brienne não deixará de ser brava, corajosa e guerreira apenas porque chorou por amor. O destino da personagem não será entrar em depressão e ficar na cama chorando por dor de cotovelo, o que seria, sem nenhum dúvida, totalmente sexista. É possível, inclusive, que so personagens se reeencontrem em outro contexto, com um desfecho nada novelesco (no sentido das novelas de TV, não das novelas de cavalaria).

Aqui cabe uma obervação: Jamie não abandonou Brienne depois da primeira noite juntos. Jamie decide ir embora depois de receber a notícias da emboscada a Daenerys, quando há havia passado algum tempo. Existe elipse tempo nesse episódio, a ordem das cenas não singifica que todos os eventos aconteceram imediatamente após o evento anterior. 

Para além desses arcos dramáticos, o episódio 4 continuou a retomada narrativa e as rimais visuais com a primeira temporada. Na execução de Missandei, temos referências narrativas e visuais à execução de Ned Stark. Nas conversas conspitatórias de Tyrion e Varys, voltamos àquilo que tornou Game of Thrones tão especial nas primeiras temporadas, com os debates sobre política e as traições. Com descumprimento da promessa de Sansa a Jon, que, por sua vez, não atendeu o pedido de sua amada, voltamos ao estilo de jogo de Mindinho, muito bem aprendido por Sansa, o que pode ser sido uma faísca em um barril de pólvora.

O reencontro de Sansa com Sandor Clegane foi, de longe, minha cena favorita do episódio. Nessa cena, Sophie Turner tem uma perfomance espetacular, ao demonstrar o amadurecimento de Sansa. Somado ao diálogo de Sansa com Tyrion, chegamos a uma mensagem poderosa, que pode ser resumida na simples frase “não julgue um livro pela capa”. Atualmente, Sansa consegue ver além da aparência, entender as pessoas, aceitá-las e respeitá-las pelo que elas são. Sansa se mostra uma líder madura e carismática, que sofre por ser mulher num mundo dominado pelos homens, mas que sabe se posicionar estrategicamente. Acredito que Sansa ainda terá um papel muito mais decisivo no que está por vir.

Por fim, a nova jornada de Arya e do Cão pode nos reservar surpresas, além, é claro, da referência às excelentes terceira e quarta temporadas. Possivelmente, teremos o Cleganebowl, de alguma forma relacionado a proteger Arya.

Ainda que tenha problemas com algums conveniências de roteiro – como a má direção da cena da emboscada – e com as elipses de tempo – onde está a barriga proeminente de Cersei depois de tanto tempo -, The Last of The Starks foi, na minha humilde opinião, o melhor episódio dessa temporada em termos narrativos. Uma excelente preparação para a carnifina que está por vir.

 

 

 

 

Nota do Razão de Aspecto

 

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