608 filmes por Diogo Almeida – Filme 8: Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (“Bring Me the Head of Alfredo Garcia”, 1974)

Carregados de mau agouro (o que os americanos chamam foreboding), os filmes de Sam Peckinpah fazem as tragédias de Sófocles parecerem livrinhos do Ziraldo. Está presente no clima pesado da cena, na música ameaçadora, semelhante à sensação suscitada, por exemplo, pela sequência inicial da obra-prima do diretor, Meu Ódio Será Sua Herança (“The Wild Bunch”, 1969): enquanto a gangue de William Holden prepara uma emboscada, alguns meninos jogam um escorpião num formigueiro, rindo enquanto o bicho esperneia. Logo nos primeiros minutos, sabe-se que a coisa toda vai acabar mal.

Não se espera nada diferente de um longa cujo título é Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. Na primeira sequência, um poderoso estancieiro no México tortura a filha grávida diante da família para que esta confesse quem é o pai da criança. Finalmente, ela confessa, é Alfredo Garcia. Seu pai, El Jefe, um Hades do sul da fronteira, decreta aos seus capangas a ordem para limpar a honra da família. Tragam-me a cabeça do sujeito. Simples assim, sem discursos. Os personagens de Peckinpah são de poucas palavras.

Mesmo durante os poucos momentos de leveza do filme, em sua primeira metade, os anti-heróis Bennie (Warren Oates, emulando o próprio Peckinpah em sua atuação) e Elita (Isela Vega) parecem saber que não há escapatória. São personagens marginalizados, com pouca ou nenhuma chance de redenção. Ele é um pianista americano de cabaré, bêbado e perdido no México, que agarra a chance de ganhar uma bolada entregando a mencionada cabeça aos bandidões. Graças a Elita, prostituta e sua namorada, Bennie sabe que Garcia já está morto. Juntos, vão em busca do cadáver, cruzando o interior de um país pobre e rural, longe do cartão-postal das praias de Cancún e dos mariachis sorridentes em fiestas.

A atmosfera, já pesada na primeira metade, degringola na segunda, quando Bennie finalmente obtém a cabeça de Alfredo Garcia. Daí até o final, Peckinpah liberta toda a fúria de seu talento em montar cenas de grande violência e niilismo. O desejo por redenção, e mesmo a própria humanidade de Bennie, dissolvem-se à medida que a pilha de corpos aumenta em sua jornada de volta a El Jefe. Enquanto isso, seu único companheiro de viagem é o saco rodeado de moscas com a cabeça de Garcia, com quem trava solilóquios. É uma imagem brutal, perfeitamente adequada ao tema do filme.

Warren Oates e Isela Vega estão excelentes como o casal principal. Sabem que são anjos quebrados, certos de sua perdição mas dispostos a aproveitar seus últimos momentos juntos em nome de uma felicidade inalcançável. Nesse sentido, Bennie e Elita são mais cativantes do que os casais malditos de outros filmes de Peckinpah, como os interpretados por Ali MacGraw e Steve McQueen em Os Implacáveis (“The Getaway”, 1972) e Dustin Hoffman e Susan George em Sob o Domínio do Medo (“Straw Dogs”, 1971), que não têm tanta química quanto Oates e Vega. Esta, em particular, faz de Elita uma personagem envolvente e complexa, a reserva moral do filme, se é que há alguma.

Como um dos grandes diretores americanos, Peckinpah sabe que, antes de DIZER algo, seu dever é MOSTRÁ-LO. Nas críticas desta série, tenho insistido num ponto que o cinema atual parece desprezar, em sua mania de telegrafar informações ao espectador por meio de diálogos: cinema é, antes de tudo, IMAGEM. Se um ponto central da trama não pode ser expressado por meio de metáforas visuais, o filme falhou. E que metáfora visual melhor para este filme do que Bennie, um perdedor no tabuleiro do destino, carregando a cabeça de um desconhecido dentro de um saco? Não é preciso nem mostrar o diabo da cabeça – manchas de sangue e algumas moscas já fazem o serviço. É um instrumento visual brilhante, fulminante, do universo brutal em que habitam as personagens de Peckinpah e de seu co-roteirista, Gordon T. Dawson. Trata-se do caos em ação, das forças desnaturais que trazem à tona o que há de pior na natureza humana. Trata-se de uma pequenina amostra de nossa podridão interior. Trata-se de cinema de primeira linha, intransigente em recusar as convenções do cinemão americano.

É longa e sofrida a viagem em que Peckinpah nos leva. E nós, ávidas testemunhas de um mundo de horrores, pagamos o preço para ver personagens mutilando física e espiritualmente uns aos outros. Não custa mais que um ingresso de cinema.

 

Os filmes anteriores desta coluna podem ser encontrados aqui.

A imagem pode conter: Diogo Almeida, close-up

Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

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