608 filmes por Diogo Almeida – Filme 7: A roda (“La roue”, 1923)

Não lembro onde nem quando assisti a Napoleão (“Napoléon”, 1927), obra-prima de Abel Gance e um dos maiores filmes produzidos na era muda. Lembro, isso sim, que saí extasiado do filme, não apenas pela duração (5h33) mas por seu escopo. Tudo era monumental, do discurso político às inovações tecnológicas da montagem, tudo era exibido de modo exuberante e grandioso na tela, adequado à enorme admiração que Gance, diretor intuitivo e genial, nutria pelo ditador francês. Napoleão é tão grande que sequer cabe num cinema normal: em sua versão original, era exibido em três telas dispostas lado a lado, formando um cinemascope primitivo.

Há menos de um ano, vi Eu acuso! (“J’accuse”, 1919), o primeiro grande filme de Gance. Ali, o diretor já mostrava, ainda que com menos virtuosidade, habilidade em equilibrar a grande narrativa – a eclosão da Primeira Guerra Mundial – e a história doméstica de um triângulo amoroso. O filme é lindo, talvez o melhor libelo pacifista já produzido no cinema, com uma sequência primorosa em que os cadáveres se erguem das trincheiras e marcham, acusando seus líderes e políticos de terem insuflado a tragédia.

Entre a grandiosidade de Napoleão e a atenção ao impacto da guerra na vida privada em Eu acuso!, reside A roda (“La roue”, 1923), talvez o melhor título da trilogia. (Lembrete: antes que alguém venha reclamar que “é impossível ver esses filmes”, basta dizer que dois deles estão disponíveis de graça no YouTube. Basta sentar a bunda e assistir).

O brutamontes Sisif (Séverin-Mars, magnífico) trabalha como maquinista num pátio ferroviário de Nice. Quando jovem, salva de um desastre de trem uma bebê, Norma (Ivy Close, quando crescida), que acaba criando como filha ao lado de seu primogênito, Elie. Após alguns anos, ele confessa a um namorado de Norma, Jacques, que está apaixonado pela filha adotiva. Este ameaça revelar o segredo caso o pai não consinta que ele, Jacques, se case com a moça. A partir daí, desvelam-se as desventuras do quadrilátero amoroso, acabando em tragédia e redenção.

O enredo remete ao naturalismo de Émile Zola, como em seu romance “A besta humana”, passado no mesmo ambiente ferroviário. Os personagens são atávicos, escravos de suas paixões, e o meio ambiente cru das linhas de trem, com seus colossos de ferro e perigos a cada curva, parece moldar a personalidade do protagonista Sisif, em contraposição à doçura e delicadeza de Elie e Norma.

Sisif, em particular, parece calcado em seu homônimo mítico. Como Sísifo, quanto mais esforço empreende para conseguir chegar a um objetivo, mais fundo cai montanha abaixo. Trata-se de um pai dedicado e um inventor, que, no entanto, põe tudo a perder graças ao seu alcoolismo e a atração desnatural pela filha adotiva. Trata-se de um grande personagem e Séverin-Mars oferece uma atuação à altura, uma das melhores no cinema mudo. Infelizmente, os personagens de Elie e Norma são bem menos desenvolvidos, esboçando apenas traços de personalidade que poderiam ser melhor explorados, como o interesse do rapaz pela fabricação de instrumentos musicais. A caracterização de Norma, inclusive, pouco sai do estereótipo de mocinha bonita e sentimental.

Além de Zola, a maior inspiração de Gance parece ser as grandes obras de Victor Hugo, como “Os miseráveis” (não à toa, o diretor já foi chamado de “Hugo do cinema”). O roteiro demonstra grande compaixão por seus personagens, sem que, ao mesmo tempo, estes sejam perdoados por alguma falsa moral. Vários elementos parecem emprestados de romances folhetinescos do século XIX: identidades trocadas, cartas de amor ocultas, lutas travadas entre amantes no topo de um precipício. Tudo isso pode cansar o espectador do século XXI, mas lembre-se que estamos em 1923, quando tais convenções ainda faziam parte do cânone da literatura e da ainda jovem linguagem cinematográfica.

O meio através do qual o diretor consegue transmitir a ambiguidade dos personagens é, como não podia deixar de ser no cinema, a imagem. “A roda” é conhecido principalmente por apresentar um grande inúmero de inovações tecnológicas na direção de fotografia e na montagem, que prenunciam o arrojo de Napoleão. A montagem ágil, por vezes simbólica, lembra os vanguardistas russos contemporâneos de A roda. O diretor de fotografia, Léonce-Henri Burel (responsável pela filmagem da trilogia de Gance e, posteriormente, por clássicos de Robert Bresson, como Pickpocket e Um condenado à morte escapou), por sua vez, monta a câmera de inúmeras formas sobre trens e ferrovias, transformando o “cavalo de ferro” em personagem incontornável do filme. Explora, em especial, o tema da “roda” do título como o leitmotiv da vida, apresentando-o nas rodas furiosas dos trens, no círculo formado pelas pétalas de uma flor e na ciranda que encerra o filme. São poderosas metáforas visuais, destinadas a se tornarem marcas registradas no cinema de Gance.

 

Os filmes anteriores desta coluna podem ser encontrados aqui.

 

A imagem pode conter: Diogo Almeida, close-up

Diogo Almeida nasceu em Natal em 1980. Ainda gosta de cinema.

 

 

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